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Técnicos de enfermagem são suspeitos de matar pacientes no DF

Três técnicos de enfermagem, com idades entre 22 e 28 anos, são suspeitos de matar pacientes internados no Hospital Anchieta, em Brasília. As investigações, divulgadas até 19 de janeiro de 2026, apontam uso de doses elevadas de medicamentos e até tentativa de injeção de desinfetante na veia de uma vítima.

Hospital vira alvo de caso policial

O Hospital Anchieta, um dos principais da rede privada do Distrito Federal, se vê no centro de uma investigação por homicídio doloso qualificado. A Polícia Civil identifica como suspeitos Marcos Vinícius Silva Barbosa de Araújo, 24 anos, Marcela Camilly Alves da Silva, 22, e Amanda Rodrigues de Sousa, 28, todos técnicos de enfermagem. Os três estão presos e devem ser indiciados pela morte de ao menos três pacientes internados em unidade de terapia intensiva.

O inquérito aponta que Marcos Vinícius administra medicamentos em doses letais em pacientes acamados, sem qualquer condição de reação ou defesa. Em um dos casos, quando a morte não ocorre como ele espera, ele tenta finalizar o crime aplicando um desinfetante diretamente na veia da vítima, segundo a investigação. Marcela e Amanda, que não atuam no mesmo posto com a mesma frequência, passam a ser investigadas por negligência e coautoria em duas das três mortes.

As suspeitas começam a ganhar forma dentro do próprio hospital, a partir da análise de prontuários, horários de plantão e evolução clínica dos pacientes. A Comissão de Óbitos do Anchieta identifica um padrão incomum de piora rápida em doentes sob responsabilidade de Marcos, na UTI, e aciona a direção. O profissional, que atua há cerca de cinco anos como técnico de enfermagem e está havia um ano na unidade, é desligado. O hospital comunica o caso às autoridades, e a Polícia Civil abre investigação por homicídio qualificado.

Marcos, que se apresenta nas redes sociais como casado e frequentador da Congregação Cristã no Brasil, também cursa fisioterapia. Após a demissão, consegue emprego na UTI neonatal de outro hospital particular de Brasília, antes de as suspeitas virem a público. Investigadores veem nesse movimento um risco adicional à segurança de pacientes e aceleram pedidos de prisão preventiva.

Vínculos pessoais e falhas de controle

Os laços entre os três suspeitos ajudam a traçar o mapa da atuação do grupo, segundo a polícia. Amanda, que se descreve no Instagram como mãe, cristã, intensivista e instrumentadora cirúrgica, trabalha em outro setor do Anchieta, mas mantém amizade de longa data com Marcos. Marcela é recém-chegada ao hospital e recebe dele orientações práticas de rotina na UTI. Em 2022, ela já aparece aprovada em etapa de seleção de jovem aprendiz no Hospital da Criança de Brasília, o que reforça sua trajetória na área da saúde.

As denúncias expõem fragilidades de supervisão em ambientes de alta complexidade, onde a confiança no profissional costuma ser regra silenciosa. A administração de medicamentos em doses muito acima do prescrito, sem dupla checagem rigorosa, revela uma brecha de controle. Investigações preliminares apontam que as vítimas não são informadas sobre o que recebem na veia e, por estarem sedadas ou muito debilitadas, não conseguem questionar procedimentos. Para o Ministério Público, esse cenário configura meio insidioso: o paciente ignora que o remédio é, na prática, o instrumento do crime.

Delegados e promotores tratam o caso como um alerta sistêmico. Homicídios cometidos dentro de hospitais, por quem deveria proteger, abalam a confiança em todo o sistema, público e privado. A pena prevista para homicídio doloso qualificado varia de 12 a 30 anos de prisão. Marcos deve responder pelos três casos, enquanto Marcela e Amanda são apontadas como coautoras em dois deles, já que não estavam presentes em uma das ocorrências.

A direção do hospital, sob pressão de pacientes e familiares, revê protocolos internos de segurança. Profissionais relatam aumento súbito de auditorias em prontuários, revisão de escalas e exigência de dupla checagem para drogas de uso crítico, como sedativos e medicamentos cardiovasculares. Em conversas reservadas, médicos admitem surpresa e desconforto com o fato de a suspeita recair sobre alguém com anos de casa.

Repercussão na saúde e próximos passos

O impacto do caso ultrapassa os muros do Hospital Anchieta e chega a conselhos profissionais, entidades médicas e órgãos de fiscalização sanitária. A categoria de enfermagem, que reúne mais de 2 milhões de profissionais no país, volta ao centro de um debate duro sobre ética, supervisão e sobrecarga de trabalho. Entidades da área lembram que a imensa maioria atua corretamente, mas reconhecem que falhas de controle abrem brecha para condutas extremas.

Conselhos regionais e o Ministério da Saúde avaliam a necessidade de reforçar normas de segurança já existentes, como rastreabilidade de medicamentos de alto risco, câmeras em áreas críticas e auditorias independentes em óbitos suspeitos. Especialistas defendem a criação de protocolos nacionais obrigatórios para investigação rápida de mortes inesperadas em UTI, com prazos definidos, preservação de amostras e cruzamento automático de dados de prescrição e administração de remédios.

No âmbito criminal, a polícia finaliza o inquérito e deve remeter o caso ao Ministério Público nas próximas semanas. A expectativa é que a denúncia por homicídio doloso qualificado inclua agravantes como meio cruel e impossibilidade de defesa das vítimas. A Justiça decide então se aceita a acusação e leva o trio a júri popular, etapa em que familiares poderão detalhar o impacto das mortes em suas rotinas.

O caso, ainda em estágio inicial na esfera judicial, já influencia discussões em redes de hospitais sobre monitoramento de equipes e transparência com pacientes. Mais que punir os responsáveis, autoridades afirmam, nos bastidores, que o desafio é fechar as brechas que permitem que crimes desse tipo ocorram em silêncio. A resposta que sair desse processo definirá o nível de confiança que o brasileiro poderá ter, daqui para frente, ao se deitar em um leito de hospital.

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