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Camilo Santana ganha força e pressiona sucessão no Ceará para 2026

O ministro da Educação, Camilo Santana (PT), entra em 2024 como principal nome do campo governista para a disputa ao governo do Ceará em 2026. Pesquisas recentes, fissuras na base aliada e a reorganização da oposição liderada por Ciro Gomes reposicionam o tabuleiro político cearense e colocam em dúvida a tentativa de reeleição do governador Elmano de Freitas.

Base rachada e oposição reorganizada

A movimentação começa a ganhar forma neste início de ano. Em dezembro, um levantamento do instituto Paraná Pesquisas mostra Camilo na liderança em um cenário direto com Ciro Gomes: 45% das intenções de voto contra 36,8% do ex-presidenciável. No governo, o dado é lido como sinal de que o ministro é hoje o nome mais competitivo do campo aliado, em um ambiente de desgaste crescente da gestão Elmano, sobretudo na segurança pública.

Quando o cenário muda e a disputa é entre Elmano de Freitas e Ciro Gomes, o ex-governador assume a dianteira. O levantamento aponta 46% das intenções de voto para Ciro, contra 33,2% para o atual chefe do Executivo estadual. A diferença acende o sinal amarelo no Palácio da Abolição e alimenta, entre aliados, a tese de que a manutenção da aliança petista no comando do Estado pode depender de uma mudança de plano em 2026.

A cientista política Paula Vieira, pesquisadora do laboratório Lepem da Universidade Federal do Ceará (UFC), vê o cenário atual como resultado direto do rompimento de 2022, quando Ciro se afasta do PT no segundo turno da eleição estadual. “A fragmentação da base aliada e o deslocamento de Ciro para a oposição criaram um novo eixo de forças no Estado. O que vemos, hoje, é a cristalização de um campo oposicionista que busca explorar as lacunas deixadas pela gestão petista, especialmente em áreas críticas como a segurança pública”, afirma.

O retorno de Ciro ao PSDB, costurado pelo ex-senador Tasso Jereissati, acelera esse realinhamento. A cúpula tucana, liderada por Marconi Perillo, trata o ex-governador como nome natural para encabeçar a chapa em 2026. Ao redor dele se movem figuras como o deputado federal Capitão Wagner (União Brasil-CE) e o ex-prefeito de Fortaleza Roberto Cláudio (União Brasil-CE), que passam a defender um esforço por candidatura única para unificar o campo oposicionista cearense.

A força do ‘camilismo’ e o desgaste de Elmano

Enquanto a oposição se rearticula, o PT administra suas próprias tensões internas. Elmano de Freitas ainda não consegue, na avaliação de aliados e adversários, construir uma marca própria à frente do Executivo estadual. A segurança pública, tema central para o eleitor cearense, aparece como ponto mais frágil da gestão. Ao mesmo tempo, a influência de Camilo sobre o governo é vista como proteção e problema.

Capitão Wagner, um dos principais nomes da oposição, enxerga aí um fator de desgaste. “Hoje, quem manda de fato é o Camilo Santana; o Elmano é o ‘governador de direito’. O ministro é quem escolhe desde o secretário até o presidente da Assembleia Legislativa. O candidato é quem dita as regras no Estado, e eu acredito que essa falta de autonomia é um dos principais fatores de desgaste do atual governo”, diz o deputado.

Entre analistas, ganha corpo a leitura de que Camilo constrói um capital que vai além da sigla. “No Ceará, Camilo construiu um capital político próprio, que muitos já chamam de ‘camilismo’. Esse movimento é sustentado por alianças regionais e por uma imagem pública positiva”, avalia Paula Vieira. Na visão dela, o ex-governador se descola do petismo mais ideológico e amplia o diálogo com setores de centro e até da centro-direita, algo raro em um ambiente polarizado.

A engrenagem eleitoral impõe prazos claros. Ministros que pretendem disputar as eleições de 2026 precisam deixar os cargos até abril do ano da disputa, segundo a legislação. No caso de Camilo, auxiliares projetam uma saída antecipada do Ministério da Educação, até março de 2025, depois da apresentação do balanço das ações da pasta referentes ao ano. A partir daí, o ministro ficaria livre para se dedicar ao palanque no Ceará e à campanha pela reeleição do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT).

Em público, Camilo nega a candidatura, mas admite margem para mudanças. Em entrevista ao jornal O Globo, ele afirma: “Não sou candidato. O Elmano tem sido um grande governador. Ele tem direito à reeleição e está bem avaliado. Mas claro que política é dinâmica.” O ministro reconhece avanços em áreas como educação, saúde e geração de emprego, mas admite “muita dificuldade” na segurança pública, problema que, segundo ele, não se limita ao Ceará.

Pressão por rearranjo e disputa antecipada

Nos bastidores, lideranças avaliam que a consolidação do “camilismo” pode redefinir alianças tradicionais no Estado. Um assessor próximo à família Ferreira Gomes, que fala sob condição de anonimato, considera possível uma mudança de rota caso a pressão eleitoral cresça. O cenário ventilado inclui a hipótese de Elmano abrir mão da tentativa de reeleição para permitir a candidatura de Camilo ao Palácio da Abolição, como forma de conter o avanço da oposição e preservar o projeto petista iniciado em 2007, ainda na gestão Cid Gomes.

A operação não é simples. Camilo precisa equilibrar a visibilidade nacional à frente do MEC com o cálculo regional. Luciano a vitrine do ministério, o petista acumula entregas em áreas sensíveis como o Novo Ensino Médio e a expansão de universidades federais, que são ativos tanto em Brasília quanto no Nordeste. Uma saída precoce da Esplanada, até março de 2025, abre espaço para novas disputas internas no governo Lula e pode redesenhar o peso do Ceará na coalizão federal.

A oposição, por sua vez, aposta na leitura de fadiga do projeto petista após quase duas décadas no poder estadual. Com Ciro reposicionado no PSDB, uma frente que reúne tucanos, União Brasil e setores da direita tenta se apresentar como alternativa de “renovação” sem romper totalmente com a tradição de governabilidade local. A união em torno de um único nome, no entanto, ainda depende de costuras regionais e da disposição de Ciro de abrir mão de uma candidatura majoritária, caso pesquisas futuras indiquem outro nome mais competitivo.

O tabuleiro segue aberto. Se Camilo confirmar a saída do MEC e aceitar a disputa, a eleição de 2026 tende a se polarizar entre o “camilismo” e o campo liderado por Ciro Gomes, com menos espaço para candidaturas intermediárias. Se o ministro permanecer em Brasília e Elmano insistir na reeleição, o risco para o PT é enfrentar um pleito em que o principal adversário aparece numericamente à frente e com uma oposição mais organizada do que em 2022.

Até aqui, Ciro Gomes e Elmano de Freitas evitam falar publicamente sobre 2026 e não respondem aos questionamentos sobre os cenários em discussão. O silêncio, porém, contrasta com a velocidade das movimentações de bastidor. A disputa pelo controle do Ceará, um dos principais redutos eleitorais do PT no Nordeste, se antecipa e deve testar, mais uma vez, os limites das alianças que sustentam tanto o governo estadual quanto o Planalto.

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