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Ventura leva Portugal a segundo turno inédito e acende alerta político

André Ventura vai disputar o segundo turno das eleições presidenciais portuguesas de 2026, em decisão inédita há quatro décadas. A presença do líder do Chega cristaliza uma polarização que rompe o equilíbrio habitual da política em Portugal e projeta o país no centro do debate sobre o avanço da direita radical na Europa.

Uma eleição que foge ao roteiro conhecido

Portugal volta às urnas nas próximas semanas para escolher o presidente num cenário raro. Desde 1986, todos os chefes de Estado são eleitos em turno único, quase sempre com vitórias folgadas de candidatos apoiados por partidos tradicionais. Em 2026, esse roteiro se desfaz diante de um país mais fragmentado e de um eleitorado disposto a testar limites.

Ventura chega ao segundo turno depois de uma campanha construída na repetição de promessas de ruptura. O fundador do Chega, partido registrado em 2019 e que cresce a cada ciclo eleitoral, aposta numa retórica dura sobre imigração, criminalidade e combate à corrupção. O tom confronta diretamente governos anteriores e mira também figuras estrangeiras. Em comícios recentes, o candidato usa o ex-presidente brasileiro Luiz Inácio Lula da Silva como exemplo negativo e fala em “romper com a complacência com escândalos de corrupção”.

As referências atravessam o Atlântico e reverberam na política brasileira, ainda marcada pelas disputas em torno da Operação Lava Jato e pelas eleições de 2022. A associação constante a Lula, citado como símbolo de um projeto político que Ventura rejeita, alimenta debates em Lisboa, Brasília e Bruxelas. Ao mesmo tempo, ajuda a colar o candidato português a uma família de lideranças populistas internacionais que incluem nomes como Donald Trump e Jair Bolsonaro, ainda que com contextos nacionais distintos.

Peso histórico e impacto imediato

A realização de um segundo turno presidencial, quase 50 anos depois do fim da ditadura do Estado Novo, reabre discussões sobre o desenho do sistema político português. A Constituição de 1976 prevê a segunda volta, mas o mecanismo fica praticamente encaixotado desde 1980, quando a fragmentação atual ainda não existia. Em 2026, a regra é acionada porque nenhum candidato alcança mais de 50% dos votos válidos, patamar exigido para decisão em primeira volta.

A ascensão de Ventura expõe o esgotamento parcial da fórmula que alterna socialistas e sociais-democratas na chefia do Estado. Analistas ouvidos por emissoras locais dizem que o Chega ocupa espaços deixados por partidos tradicionais, especialmente entre eleitores mais jovens e moradores de regiões periféricas. Em 2019, o partido elege apenas um deputado. Nas legislativas seguintes, em 2022, salta para dois dígitos e passa de 7% dos votos. Agora, com Ventura na disputa direta pela Presidência, a direita portuguesa se vê obrigada a escolher entre isolá-lo ou negociar apoio.

Para parte da opinião pública, a presença do líder do Chega na segunda volta normaliza um discurso considerado radical por críticos e organizações de direitos humanos. Grupos antirracismo denunciam, desde 2020, declarações de Ventura sobre comunidades ciganas e imigrantes. Entidades de defesa de migrantes afirmam que o candidato “usa medo e ressentimento como combustível eleitoral”. Ele rejeita o rótulo de extremista e diz apenas representar “o português comum cansado de ser enganado”.

No plano europeu, a disputa portuguesa entra no radar de governos que lidam com fenômenos semelhantes. Em países como França, Itália, Hungria e Holanda, partidos nacionalistas ou ultraconservadores ampliam espaço desde a crise econômica de 2008 e da chegada de refugiados a partir de 2015. Em Bruxelas, diplomatas admitem em privado preocupação com um eventual reforço do bloco de líderes hostis a consensos sobre imigração, clima e integração comunitária.

Quem ganha, quem perde e o que pode mudar

O segundo turno redistribui o tabuleiro político em Portugal num prazo curto. Partidos tradicionais têm poucas semanas para decidir se apoiam explicitamente o adversário de Ventura, se liberam suas bases ou se ensaiam neutralidade. A escolha embute riscos eleitorais para 2029: abraçar um candidato moderado demais pode afastar setores insatisfeitos; flertar com Ventura pode comprometer alianças futuras na União Europeia.

Para o Chega, a simples chegada à segunda volta já representa vitória política. O partido ganha tempo de televisão, capilaridade nas redes e protagonismo em debates que ultrapassam 2026. Mesmo que não vença, Ventura consolida sua posição como polo incontornável na direita portuguesa. Em termos práticos, isso significa maior poder de veto em eventuais governos de coalizão e capacidade de travar indicações para cargos estratégicos em órgãos de controle, justiça e comunicação pública.

No Brasil, a repercussão das críticas a Lula feitas por um líder estrangeiro tende a ser explorada por adversários do presidente. A oposição já usa referências a episódios judiciais e ao histórico de condenações anuladas para reforçar narrativas sobre integridade e confiança. Governistas respondem dizendo que Ventura “instrumentaliza o nome do Brasil” para se projetar internacionalmente. A disputa ainda alimenta debates sobre desinformação, uso de redes sociais e circulação transnacional de discursos políticos.

Setores econômicos acompanham com atenção o desenrolar da campanha. Investidores observam se um eventual fortalecimento de Ventura pode provocar rupturas em políticas de imigração laboral, acordos comerciais e compromissos ambientais. Associações empresariais portuguesas lembram que mais de 250 mil brasileiros vivem hoje em Portugal com autorização de residência, segundo dados oficiais de 2025, e alertam para o efeito de qualquer endurecimento brusco em vistos e regularizações.

As semanas que definem um novo ciclo

O segundo turno das presidenciais portuguesas está previsto para ocorrer dentro de cerca de três semanas, prazo que concentra negociações, declarações cruzadas e reacomodação de alianças. Ventura promete intensificar viagens pelo interior e apostar em comícios de forte apelo emocional. A campanha adversária tende a focar em temas como estabilidade institucional, respeito a minorias e compromissos europeus.

O desfecho da eleição vai além da escolha entre dois nomes. O resultado indica se Portugal confirma a tendência de avanço de lideranças nacionalistas na Europa ou se reforça uma barreira institucional a esse movimento. A incógnita, por enquanto, não está apenas em quem vence, mas em como o país lida, a partir de agora, com uma polarização que deixa de ser episódica e passa a fazer parte do centro do poder.

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