Trump cria Conselho da Paz bilionário e convida Lula para vaga
Donald Trump convida Luiz Inácio Lula da Silva e outros líderes para integrar um novo “Conselho da Paz” internacional, anunciado nesta segunda-feira, 19 de janeiro de 2026. A participação permanente exige pagamento superior a US$ 1 bilhão, sob regras que concentram em Trump o poder de decidir quem entra, quem sai e como a nova estrutura atua.
Uma nova arquitetura de poder paralela à ONU
O convite chega a Brasília, Buenos Aires, Ancara e Cairo com a mesma mensagem: quem quiser lugar permanente à mesa do chamado Conselho da Paz precisa abrir o cofre. Os estatutos obtidos pela AFP determinam que países que contribuírem com mais de US$ 1 bilhão, cerca de R$ 5,37 bilhões, no primeiro ano escapam do limite de mandato de três anos imposto aos demais membros.
O documento de oito páginas descreve o Conselho como uma organização internacional voltada a “promover a estabilidade, restaurar a governança confiável e legítima e garantir a paz duradoura”. Nas entrelinhas, estabelece uma estrutura paralela às Nações Unidas e duramente crítica ao sistema atual. O preâmbulo acusa “muitas abordagens para a paz” de apenas “institucionalizar as crises em vez de permitir que as pessoas avancem”, em referência direta à ONU.
Trump se reserva um papel central nesse arranjo. Ele será o “presidente inaugural do Conselho da Paz” e terá autoridade exclusiva para convidar países, interpretar as regras e criar, modificar ou extinguir qualquer órgão vinculado à iniciativa. A participação de um Estado pode ser revogada a qualquer momento, salvo se dois terços dos membros vetarem a decisão.
Entre os líderes convidados aparecem Lula, o argentino Javier Milei, o turco Recep Tayyip Erdogan e o egípcio Abdel Fattah al-Sisi, em uma lista que mistura rivais regionais, aliados estratégicos dos Estados Unidos e governos com agendas divergentes em política externa. Nenhum deles confirma, por ora, se aceita pagar o valor bilionário para garantir presença permanente.
A Casa Branca, ao comentar o desenho do Conselho, afirma que a nova estrutura tratará de “fortalecimento de capacidades de governança, relações regionais, reconstrução, atração de investimentos, financiamento em larga escala e mobilização de capital”. O discurso oficial vincula diretamente o projeto à reconstrução de territórios devastados, com foco especial em Gaza.
Bilhões em troca de poder e influência
O modelo de financiamento transforma o Conselho da Paz em um clube caro, com entrada condicionada à capacidade de desembolsar mais de US$ 1 bilhão em dinheiro. O texto dos estatutos é explícito ao associar o aporte à duração do mandato: quem não paga o valor integral tem assento de até três anos, renovável a critério do presidente do Conselho, ou seja, do próprio Trump.
Esse desenho cria duas categorias de participantes: os que compram estabilidade política dentro da organização e os que dependem da boa vontade do presidente para permanecer. Em prática, a contribuição bilionária funciona como um tíquete de poder ampliado e maior previsibilidade nas decisões internas. Trump também fica com a palavra final em qualquer votação, já que concentra a prerrogativa de interpretar o sentido das normas fundadoras.
Washington apresenta o arranjo como resposta à lentidão e ao bloqueio político em fóruns multilaterais tradicionais. A Casa Branca destaca que o Conselho poderá “autorizar a criação de contas bancárias” próprias, sem indicar bancos ou países onde o dinheiro circulará, o que levanta dúvidas sobre supervisão e transparência. A ausência de mecanismos claros de controle alimenta o receio de que a estrutura sirva tanto a objetivos políticos quanto a interesses financeiros pouco visíveis.
No centro da proposta aparece Gaza. Um Comitê Nacional para a Administração do território, composto por tecnocratas palestinos, ficará encarregado de “restaurar serviços públicos essenciais, reconstruir instituições civis e estabilizar a vida cotidiana”. Um Conselho Executivo de Gaza, de natureza consultiva, “ajudará a apoiar uma governança eficaz e a prestação de serviços de alto nível que promovam a paz, a estabilidade e a prosperidade do povo de Gaza”, segundo a Casa Branca.
O papel de Lula e dos demais convidados ainda é incerto. A presença de Brasil, Argentina, Turquia e Egito numa mesa dominada por Trump pode redesenhar alianças e trazer constrangimentos. Ao aceitar o convite, qualquer governo passaria a legitimar um organismo no qual um único líder concentra o poder de convocar, punir e premiar Estados com base em critérios que não passam por instâncias multilaterais consolidadas.
Disputa por legitimidade e próximos passos
A iniciativa abre uma disputa direta por legitimidade com a ONU e com outros fóruns multilaterais. O ataque frontal às “abordagens que institucionalizam crises” funciona como manifesto político, mas também como estratégia de marketing para atrair países frustrados com vetos sucessivos e negociações travadas no Conselho de Segurança. A diferença central está no preço de entrada e na concentração de poder.
Para países em busca de recursos de reconstrução, o Conselho da Paz pode soar como atalho financeiro. O custo político, porém, é alto. Ao aceitar um assento, governos se associam a um modelo em que a renovação de mandatos depende de um único ator, e em que aportes de mais de US$ 1 bilhão compram permanência. Em um cenário de economia global em desaceleração moderada, ainda que o FMI eleve a previsão de crescimento mundial para 2026, a decisão de imobilizar bilhões em um organismo de desenho inédito tende a dividir chancelerias e áreas econômicas.
As próximas semanas serão decisivas. Países convidados precisarão responder formalmente ao convite e avaliar se há espaço fiscal e político para aderir a um projeto que pode remodelar a governança internacional em regiões de conflito. Ao mesmo tempo, a ONU, a União Europeia e blocos regionais observarão como o Conselho se estrutura, que regras de transparência adota e de que forma pretende interagir com mecanismos já existentes.
O futuro da iniciativa depende da disposição de capitais públicos para financiar uma organização cujo comando é centralizado e cujas normas podem mudar por decisão de um único presidente. A resposta de Lula, de Milei, de Erdogan e de al-Sisi indicará se o Conselho da Paz nasce como núcleo alternativo de poder global ou como mais um projeto ambicioso que não resiste ao teste da realidade.
