Qore assume fundos da Reag ligados a empréstimos suspeitos do Master
A gestora Qore, liderada por Marcos Jorge, assume em janeiro de 2026 a administração de fundos da Reag ligados a empréstimos suspeitos do banco Master. A mudança ocorre em meio à tentativa do mercado de reconstituir a confiança em ativos sob investigação. A operação é feita por meio de uma DTVM controlada pela própria Qore.
Gestora entra em cena para tentar conter danos
A movimentação envolve fundos que detêm participações em empresas com linhas de crédito hoje sob suspeita, associadas a operações estruturadas pelo Master. Esses veículos concentram dívidas de companhias que, nos últimos meses, enfrentam questionamentos de reguladores, credores e investidores sobre a origem, a qualidade e as garantias dos empréstimos. A entrada da Qore ocorre num momento em que o mercado financeiro brasileiro revisita, com lupa, estruturas de crédito complexas montadas ao longo dos últimos anos, muitas delas vendidas a investidores de varejo como investimentos supostamente conservadores.
No centro da mudança está a DTVM controlada pela Qore, responsável pelo dia a dia da administração dos fundos. É essa estrutura que passa a monitorar fluxos de caixa, renegociações de dívidas, avaliação de garantias e a prestação de informações periódicas a cotistas e órgãos de supervisão. Internamente, a decisão é tratada como uma tentativa de “virar a página” do histórico recente desses ativos, marcados por dúvidas sobre a real capacidade de pagamento das empresas devedoras e sobre a governança de quem concedeu os créditos originais.
Transparência e risco em disputa
A troca de comando na gestão dos fundos cria expectativas de mudança de postura em relação à transparência. O mercado espera relatórios mais detalhados sobre o tamanho das carteiras, prazos médios das dívidas, níveis de atraso e eventuais reestruturações em curso. Em operações dessa natureza, um atraso de 90 dias já costuma acender alertas em gestoras, bancos e agências de rating. A percepção de risco, porém, não muda da noite para o dia: investidores seguem atentos a qualquer nova informação que possa afetar o valor das cotas.
Analistas veem o movimento como um teste para a própria Qore. Se conseguir estabilizar a situação, renegociar com empresas devedoras e apresentar um plano claro de liquidez, a gestora pode ganhar espaço num mercado que movimenta centenas de bilhões de reais em crédito estruturado. Se falhar, o episódio tende a reforçar a desconfiança em relação a estruturas que transferem riscos de crédito para investidores finais, muitas vezes com pouco conhecimento técnico. “O foco agora é transparência total e alinhamento com o investidor”, diz, em caráter reservado, um profissional que acompanha a operação. Segundo ele, a mensagem a cotistas é que haverá mais detalhes sobre garantias, fluxo de recuperação e eventuais perdas esperadas.
Pressão regulatória e próximos capítulos
A mudança na administração dos fundos ocorre em um ambiente de fiscalização mais intensa. Desde 2024, a CVM e o Banco Central apertam o cerco sobre ofertas de crédito estruturado e venda de produtos complexos para o público em geral. A experiência recente com operações problemáticas, algumas ultrapassando a marca de R$ 1 bilhão em exposição, pressiona o regulador a exigir informações mais claras sobre riscos, remuneração e conflitos de interesse. Gestoras e distribuidoras sabem que, nos próximos meses, novas regras podem ampliar exigências de capital, governança e divulgação.
Para os cotistas dos fundos assumidos pela Qore, o curto prazo ainda é de incerteza. O valor das cotas depende da capacidade de as empresas devedoras honrarem os compromissos ou de a nova gestão renegociar prazos, descontos e garantias. Investidores institucionais tendem a usar o episódio como parâmetro para recalibrar modelos de risco, ajustando preços, prêmios de juros e limites de exposição a operações similares. Já outras gestoras encaram o caso como um recado: estruturas pouco transparentes, com empréstimos concentrados em poucos grupos e governança frágil, caminham para perder espaço.
Mercado testa novos padrões de confiança
O passo dado pela Qore sinaliza uma disputa por narrativa em torno da confiança no crédito privado brasileiro. De um lado, estão investidores que querem ver responsabilização, clareza sobre eventuais perdas e punição para excessos. De outro, empresas que dependem de financiamento fora dos bancos tradicionais, num ambiente de juros ainda elevados e seletividade maior no crédito. A forma como a nova gestão tratará garantias, renegociações e eventuais execuções será observada caso a caso, com impacto direto na disposição de investidores em participar de novas ofertas.
Nos próximos meses, o mercado acompanha de perto três pontos: o ritmo de recuperação de créditos problemáticos, o nível de marcação a mercado das cotas e o avanço de eventuais investigações sobre operações anteriores. A depender desses desfechos, a experiência da Qore com os fundos herdados da Reag pode ser vista como um laboratório para práticas mais rígidas de governança ou como um alerta definitivo sobre os limites de estruturas que empacotam riscos complexos para o investidor comum. A resposta, mais do que técnica, será política: definirá quanta transparência o mercado está realmente disposto a aceitar.
