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Senegal abandona campo por pênalti, volta e é campeão da Copa Africana

O Senegal abandona o campo em protesto contra um pênalti para o Marrocos, volta após apelo de Sadio Mané e conquista a Copa Africana de Nações de 2026 na prorrogação, neste domingo (18/1). A final termina com vitória por 1 a 0 e entra para a história do futebol africano.

Do caos à glória em 30 minutos

O relógio já passa dos 49 minutos do segundo tempo quando o clima de final de Copa se transforma em tumulto. O placar marca 0 a 0, o título parece caminhar para a prorrogação, e o Marrocos cobra um escanteio. Na área, Brahim Díaz cai após disputa com o zagueiro Diouf. O árbitro congolês Jean-Jacques Ndala Ngambo manda o jogo seguir. Em seguida, o árbitro é chamado pelo vídeo.

Enquanto o juiz caminha até o monitor do árbitro de vídeo, jogadores dos dois lados cercam a equipe de arbitragem. O estádio acompanha a revisão em suspense. Depois de poucos segundos de análise, a decisão sai: pênalti para o Marrocos. A reação senegalesa é imediata. Ismaïla recebe cartão amarelo por peitar o árbitro, Diouf também é advertido pela infração dentro da área, e o banco de reservas explode em protestos.

O técnico Aliou Cissé Thiaw não espera o reinício. Em gesto extremo, ordena que o time deixe o gramado. Os jogadores obedecem. Em cenas raras em uma final continental, a equipe atual campeã africana atravessa o campo, segue rumo ao túnel e desaparece no vestiário. O silêncio toma o estádio. Do lado marroquino, há perplexidade e tentativa de diálogo. Alguns atletas correm atrás dos rivais para tentar convencê-los a voltar.

Mané se recusa a seguir o fluxo. O camisa 10 permanece em campo, à beira do círculo central, e assume o papel de capitão em sentido literal. O astro do Al Nassr acena para os companheiros, conversa com membros da comissão técnica, tenta acalmar o árbitro. No túnel, a discussão entre Thiaw e a arbitragem é tensa. O risco de uma final decidida no tribunal, e não na bola, é real.

Depois de alguns minutos de interrupção, Mané decide ele mesmo entrar no vestiário. O capitão volta correndo, gesticula, chama um a um. O elenco começa a retornar, ainda irritado, ainda gesticulando, mas disposto a terminar a partida. O goleiro Édouard Mendy recebe cartão amarelo por retardar o reinício, e a bola, enfim, volta a rolar. O pênalti permanece marcado. Brahim Díaz ajeita a bola na marca da cal e assume a cobrança que pode dar ao Marrocos um título inédito.

O atacante do Real Madrid escolhe a cavadinha, um toque sutil no meio do gol em plena decisão continental. Mendy não morde a isca. O goleiro do Al-Ahli espera em pé até o último instante e apenas estica os braços para defender, sem espetáculo, mas com frieza. O rebote é afastado, o apito encerra o tempo regulamentar e empurra a final para a prorrogação, sob clima elétrico e olhares duros em direção à arbitragem e ao sistema de vídeo.

Um título que expõe o VAR e reforça Mané como líder

A prorrogação começa com o Senegal ainda ferido pela marcação do pênalti e pela anulação, minutos antes, de um gol que poderia ter decidido a final a seu favor. Aos 91 minutos, a arbitragem vê falta inexistente de Hakimi e invalida o lance que balança as redes marroquinas. Em menos de dez minutos, o time enfrenta dois golpes seguidos da arbitragem de vídeo, e a reação inicial é de rompimento. O retorno ao campo transforma essa ruptura em combustível competitivo.

Aos 3 minutos do primeiro tempo da prorrogação, o roteiro muda de vez. Pape Gueye recebe pela esquerda, na entrada da área. O volante domina, ajeita o corpo e solta um chute forte, alto, em direção ao ângulo esquerdo de Bono. A bola entra limpa, sem chance de defesa, e o banco senegalês se lança à beira do gramado. O placar finalmente sai do zero: 1 a 0, Senegal. A seleção que quase abandona a final assume a dianteira e vê o título se aproximar a cada minuto.

O gol muda a temperatura da partida e também da discussão sobre o árbitro de vídeo. Nas redes sociais, o pênalti de Díaz vira tema imediato de debate. Perfis de ex-jogadores, comentaristas e torcedores questionam o critério usado na revisão, especialmente após o árbitro deixar seguir o lance em campo. Vídeos do momento em que a seleção senegalesa abandona o gramado viralizam e são compartilhados por veículos internacionais em questão de minutos.

A condução de Mané aparece no centro dessa narrativa. O capitão segura o microfone simbólico do vestiário, evita que a equipe leve o protesto ao ponto de não retorno e convence o grupo a decidir em campo. O gesto reforça a imagem construída desde o título da Copa Africana de 2022 e da campanha histórica na Copa do Mundo de 2022. O protagonismo do camisa 10 extrapola gols e assistências e entra no terreno da liderança política dentro da seleção.

A vitória também consolida o Senegal como potência do continente neste ciclo. Em quatro anos, a equipe chega novamente à final, enfrenta um rival em ascensão, como o Marrocos semifinalista da Copa do Mundo, e mantém a taça. A conquista, por 1 a 0, com gol na prorrogação, após um pênalti defendido no último minuto, alimenta a mitologia recente do futebol senegalês e fortalece a liga local e o interesse de patrocinadores e investidores no país.

Debate sobre arbitragem, VAR e o futuro da seleção

A final de 18 de janeiro de 2026 não termina com o apito final. A Confederação Africana de Futebol (CAF) deve ser pressionada a explicar a aplicação do VAR em lances decisivos, como o pênalti marcado no minuto 49 do segundo tempo e a falta assinalada em Hakimi, que anula o gol senegalês aos 91. As imagens alimentam questionamentos sobre consistência de critérios e transparência na comunicação entre árbitro de campo e cabine de vídeo.

Dirigentes africanos já discutem, em edições recentes do torneio, a necessidade de divulgar o áudio das conversas entre árbitro e VAR em decisões críticas, a exemplo do que algumas ligas europeias começam a testar. O episódio em Senegal x Marrocos tende a acelerar esse debate. A cena de uma seleção deixando o campo em uma final continental representa um sinal de alerta institucional e pode levar a mudanças de protocolo para evitar novos abandonos.

O impacto esportivo da noite também é imediato. O Marrocos, que chega embalado pelo desempenho na Copa do Mundo e sonha com o título continental, termina com frustração e sensação de oportunidade perdida. O pênalti desperdiçado por Brahim Díaz entra na lista de lances que marcam carreiras. No curto prazo, a federação marroquina deve cobrar explicações internas, revisar a preparação emocional para decisões e lidar com a pressão de torcedores que veem o troféu escapar a centímetros da linha do gol.

No Senegal, o efeito é oposto. A conquista reforça o técnico Thiaw, apesar do gesto radical de chamar o time para fora de campo. A defesa de Mendy e o gol de Gueye se tornam símbolos de resistência. A geração de Mané ganha mais um título para ancorar o projeto da próxima Copa do Mundo e ampliar a exportação de talentos para grandes ligas. O episódio também tende a fortalecer a ideia de que a seleção pode transformar indignação em desempenho competitivo.

A CAF ainda não divulga, até aqui, possíveis sanções pelo abandono momentâneo do gramado, mas a discussão é inevitável. A entidade precisa equilibrar a necessidade de punir atitudes que pressionam a arbitragem com o reconhecimento de que decisões mal explicadas alimentam comportamentos extremos. A noite em que o Senegal quase desiste e acaba campeão deixa uma pergunta em aberto: até onde o futebol suporta a tensão entre tecnologia, erro humano e emoção sem romper o pacto de confiança que sustenta o jogo?

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