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Vaiado no Bernabéu, Vini Jr vive maior crise com a torcida do Real

Vini Jr atravessa a pior relação com a torcida do Real Madrid desde que chegou ao clube. Em janeiro de 2026, o atacante passa a ser vaiado de forma contínua no Santiago Bernabéu, em meio a má fase, críticas públicas e suspeitas de envolvimento na saída do ex-treinador Xabi Alonso.

Hostilidade crescente no Bernabéu

O clima desaba de vez no duelo em casa contra o Levante. As vaias, que surgem nas rodadas anteriores, tomam outra dimensão quando o sistema de som anuncia o camisa 7. Em vez de aplausos e do grito habitual de “Junior”, o estádio responde com um coro uníssono de reprovação, registrado pela Real Madrid TV e ecoado nas redes sociais em tempo real.

O atacante entra em campo sabendo que cada toque na bola será um teste. A bola chega aos seus pés e a arquibancada reage com novos apupos. O constrangimento se repete lance após lance, em um ambiente que transforma o terceiro capitão do elenco em alvo preferencial de uma parte da torcida. Naquele momento, a relação que parecia blindada pelos títulos e pelos gols passa a ser colocada em xeque.

Com o placar em 2 a 0 contra, Vini tenta responder dentro de campo. Busca jogadas em velocidade, arrisca finalizações, procura um gol que funcione como gesto de reconciliação. As oportunidades aparecem, mas não se convertem. A cada erro, o barulho aumenta e a paciência diminui. O desempenho apagado alimenta a percepção de que a fase ruim se arrasta há semanas, não apenas em uma noite ruim.

Quando o árbitro apita o fim, o brasileiro não espera o protocolo de cumprimentos. Corre em direção ao túnel, cabeça baixa, sem olhar para a arquibancada e sem abraçar companheiros. A cena, destacada pelo jornal espanhol “Marca”, é tratada como um divisor de águas na trajetória do atacante no clube. Para a publicação, o estádio entrega um castigo que ele não havia recebido nem quando confronta Xabi Alonso publicamente em um clássico no Bernabéu.

Pressão, desgaste e disputa por narrativa

A crise atual não nasce em uma única partida. Desde o fim de 2025, o rendimento de Vini Jr oscila e a cobrança aumenta. Gols decisivos dão lugar a atuações irregulares, com decisões apressadas e jogadas interrompidas. Parte da arquibancada passa a atribuir ao atacante um papel de vilão nos bastidores, apontando seu suposto peso na queda de Xabi Alonso, técnico que deixa o comando em meio a divergências internas.

O episódio do clássico contra o Barcelona, meses antes, segue como marca. Na ocasião, Vini discute de forma aberta com o então treinador à beira do campo, em pleno Bernabéu lotado, em jogo de enorme audiência global. O clube evita punição esportiva pública, mas a cena viraliza e alimenta a narrativa de conflito. Quando a má fase técnica chega, o passado recente volta à superfície e encontra terreno fértil para novas críticas.

A relação com as redes sociais também pesa. No fim de 2025, após ouvir vaias em outro jogo em casa, o brasileiro reage de forma simbólica: remove a foto com a camisa do Real Madrid de seus perfis. A mudança de imagem, aparentemente simples, é lida como recado de irritação. Torcedores interpretam o gesto como distanciamento e questionam o compromisso do jogador com o clube que o contratou ainda adolescente, em 2018.

Álvaro Arbeloa, ex-lateral e agora técnico do Real Madrid, tenta conter a escalada de tensão. Em suas primeiras entrevistas como treinador, ele escolhe Vini como ponto central de defesa do elenco. “Vou trabalhar para ter o melhor Vinicius. Vou exigir que meus jogadores o procurem. Vini não tem medo, tem caráter. Ele defendeu este clube com tudo, é um dos jogadores mais desequilibrantes do mundo. O que ele fez no Real Madrid ainda jovem poucos conseguiram. Vai nos dar muitos títulos, como já fez”, afirma o comandante.

As palavras de Arbeloa revelam a leitura interna. Para a comissão técnica, a tempestade é passageira e passa pela reconstrução de confiança, algo essencial em um clube que historicamente vive de ciclos de idolatria e ruptura. Na arquibancada e nas redes, porém, a paciência parece menor. Parte da torcida considera que o clube protege demais suas estrelas, enquanto outros lembram que o brasileiro é protagonista em títulos recentes e destacam o histórico de enfrentamento ao racismo sofrido na Espanha.

Contrato emperrado e futuro em aberto

No meio da turbulência, as conversas de renovação de contrato travam. Divergências salariais estancam o processo, e o cenário esportivo piora o ambiente de negociação. Vini Jr, hoje um dos ativos mais valiosos do elenco, vê seu futuro imediato ganhar pontos de interrogação, em um clube acostumado a reagir de forma rápida a crises com vendas, trocas de técnico e reformulações de elenco.

O impasse não é apenas financeiro. A diretoria precisa calcular o custo de manter um jogador que divide a arquibancada. De um lado, está a memória recente: gols em semifinais e finais, participação direta em títulos nacionais e europeus, status de estrela global e apelo comercial em mercados fora da Espanha, inclusive no Brasil. De outro, a percepção de que o ciclo pode ter perdido força, com desgaste acumulado e ambiente hostil que pode contaminar o vestiário.

O episódio contra o Levante acelera discussões internas. A torcida, que já protesta em outras partidas em casa em janeiro de 2026, transforma o caso Vini em símbolo da insatisfação mais ampla com a temporada. O clima atinge não apenas o jogador, mas também a direção esportiva, pressionada por resultados irregulares e pelas incertezas no comando técnico após a saída de Xabi Alonso.

Nos próximos meses, cada jogo no Bernabéu tende a funcionar como termômetro. Uma sequência positiva, com gols e vitórias, pode esfriar a crise e reabrir a conversa por uma renovação longa, possivelmente até 2030, em moldes salariais próximos ao topo do elenco. Um prolongamento da má fase, com vaias constantes, pode empurrar o clube rumo a uma venda milionária para outra liga europeia, em movimento comum no mercado quando a relação entre estrela e torcida chega ao limite.

O futuro de Vini Jr no Real Madrid, hoje, já não depende apenas de seu talento. Passa pela reconstrução de confiança com a arquibancada, pela habilidade de Arbeloa em blindar o vestiário e pelo cálculo da diretoria sobre quanto vale insistir em um protagonista sob contestação. A próxima partida em casa talvez não traga todas as respostas, mas indica se o Bernabéu ainda está disposto a perdoar seu camisa 7 ou se começa a se despedir dele em meio a vaias.

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