Três técnicos de enfermagem são presos por mortes em série no DF
Três técnicos de enfermagem são presos pela Polícia Civil do Distrito Federal, em 19 de janeiro de 2026, acusados de matar três pacientes no Hospital Anchieta. Os crimes ocorrem em novembro e dezembro de 2025, em Taguatinga, e levam a uma investigação sobre possíveis falhas de segurança dentro da unidade de saúde.
Operação em hospital expõe falhas de vigilância
A Polícia Civil deflagra a Operação Anúbis, conduzida pela Coordenação de Repressão a Homicídios e de Proteção à Pessoa, para avançar na apuração das mortes em série. Os casos são tratados como homicídios qualificados. Os nomes dos suspeitos não são divulgados pelos investigadores, que alegam proteção das investigações e segurança das partes envolvidas.
As prisões ocorrem após pouco mais de um mês da última morte suspeita registrada no Hospital Anchieta, na região administrativa de Taguatinga. As vítimas estavam internadas na mesma unidade e morrem em circunstâncias consideradas atípicas. A repetição do padrão, em um intervalo de semanas, acende o alerta da direção do hospital e da polícia.
Responsáveis por cuidados diários de pacientes, os técnicos de enfermagem passam a ser o foco da investigação quando cruzamentos de escalas, horários e prontuários apontam coincidências. Policiais analisam plantões, registros internos, acesso a medicamentos e movimentação nas enfermarias para reconstruir a rotina dos profissionais. A apuração tenta entender se houve uso irregular de substâncias, descumprimento de protocolos ou manipulação de equipamentos.
O Hospital Anchieta informa, em nota, que identifica indícios de irregularidade e comunica o caso à polícia. A instituição afirma colaborar com a investigação e reforçar medidas internas de fiscalização. “O hospital denunciou os fatos às autoridades competentes e fornece todas as informações necessárias”, diz o comunicado. A direção também promete revisar procedimentos de controle de acesso a leitos, medicamentos e sistemas eletrônicos.
O nome da operação remete a Anúbis, figura associada à morte na cultura antiga, e indica a gravidade com que a polícia trata o caso. Delegados envolvidos avaliam, reservadamente, que a suspeita de assassinatos em série dentro de um hospital impõe pressão adicional sobre o andamento da apuração. A prioridade é definir com precisão a causa das mortes, o método empregado e se há participação de outras pessoas além dos três técnicos já presos.
Confiança no sistema de saúde entra em xeque
A revelação de possíveis homicídios em série dentro de um hospital provoca choque entre pacientes, familiares e profissionais de saúde. O ambiente que deveria representar cuidado e proteção se torna, para muitos, motivo de desconfiança. Em Taguatinga e em outras regiões do Distrito Federal, relatos de medo e insegurança em unidades de pronto-atendimento e hospitais públicos se espalham pelas redes sociais.
Especialistas em gestão hospitalar ouvidos pela reportagem avaliam que o caso expõe fragilidades em mecanismos de supervisão. Plantões sobrecarregados, falhas de checagem cruzada entre equipes e baixa automação de alertas podem abrir brechas para condutas criminosas. Quando três mortes suspeitas ocorrem em menos de 60 dias, em um mesmo setor, a expectativa é que sistemas internos identifiquem o padrão e acionem auditorias internas imediatas.
O impacto atinge também os próprios profissionais de enfermagem, maioria na linha de frente do atendimento hospitalar. Entidades de classe defendem que a investigação seja rigorosa, mas alertam para o risco de generalização. Técnicos e enfermeiros respondem por grande parte dos cuidados diretos, do controle de medicamentos ao acompanhamento de sinais vitais, e passam a enfrentar questionamentos mais severos de familiares de pacientes.
Responsáveis pela investigação afirmam que o avanço do inquérito deve orientar mudanças concretas na gestão de risco em hospitais públicos e privados. Entre as medidas em discussão estão o aumento da rastreabilidade de medicamentos controlados, o registro detalhado de intervenções feitas à beira do leito e auditorias mais frequentes em casos de morte inesperada. A tendência é que protocolos de segurança sejam revisados em todo o sistema, e não apenas no Hospital Anchieta.
O caso ganha peso político em um momento em que a rede pública de saúde do DF enfrenta superlotação, falta de profissionais e infraestrutura desigual entre regiões. A suspeita de assassinatos em série por funcionários de uma unidade conhecida da rede reforça a percepção de abandono e desorganização. A pressão sobre o governo local, já cobrado por filas e demora em cirurgias, passa a incluir também a agenda de segurança do paciente.
Investigação em curso e mudanças à vista
Os três técnicos de enfermagem permanecem presos enquanto a Polícia Civil aprofunda a coleta de provas. Exames periciais, análise de prontuários e oitivas de colegas de trabalho devem determinar a forma de atuação do grupo. Investigadores apuram se os suspeitos agem em conjunto, se há divisão de tarefas e se cada um deles participa diretamente dos três homicídios.
Delegados da Coordenação de Repressão a Homicídios trabalham com a hipótese de que outros casos ainda não identificados possam ter relação com o mesmo padrão criminoso. A equipe cruza dados de óbitos registrados no hospital em 2025, com atenção especial a mortes súbitas sem explicação clínica clara. Eventuais novas evidências podem ampliar o número de vítimas e mudar o enquadramento dos crimes.
Autoridades da saúde do Distrito Federal acompanham a investigação e discutem a criação de protocolos específicos para situações de suspeita de crime dentro de unidades hospitalares. Entre as propostas estão prazos mais curtos para comunicação de óbitos suspeitos à polícia, equipes permanentes de auditoria clínica e canais diretos de denúncia para servidores e familiares.
A direção do Hospital Anchieta sinaliza que, além da cooperação com a polícia, prepara mudanças internas. Reforço de câmeras, revisão de escalas, restrição de acesso a áreas sensíveis e treinamentos obrigatórios para toda a equipe aparecem como primeiras medidas. A instituição tenta equilibrar a necessidade de transparência com o risco de pânico entre pacientes e funcionários.
A Operação Anúbis ainda está em curso e deve se desdobrar ao longo dos próximos meses, com novas diligências e eventual denúncia formal pelo Ministério Público. As respostas que surgirem do inquérito vão definir não apenas o destino dos três técnicos de enfermagem, mas também o alcance das reformas em segurança hospitalar no DF. A principal dúvida, até aqui, é se o caso representa um episódio isolado ou o sintoma mais visível de um problema estrutural no cuidado com pacientes internados.
