Lula evita cerimônia de acordo Mercosul-UE e expõe mal-estar político
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva decide não participar, nesta sexta-feira (16), da cerimônia oficial de assinatura do acordo Mercosul-União Europeia, no Rio de Janeiro. A ausência, após reunião reservada com a presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, transforma um ato aparentemente protocolar em gesto político calculado.
Gesto silencioso em dia de festa diplomática
O palco montado na zona sul do Rio recebe chanceleres, ministros da economia e representantes dos quatro países do Mercosul e dos 27 da União Europeia. O documento que consolida mais de duas décadas de negociação é assinado por delegados oficiais, mas o principal líder do maior país do bloco sul-americano permanece fora da foto histórica. A cadeira reservada ao presidente brasileiro fica vazia.
Horas antes da cerimônia, Lula se reúne com Ursula von der Leyen em encontro reservado que se estende por cerca de 90 minutos. A conversa aborda cláusulas ambientais, mecanismos de salvaguarda e prazos de abertura de mercado para setores sensíveis como carnes, automóveis e produtos industriais. O presidente sai do encontro sem coletiva, sem discurso e com a decisão tomada: não dará aval simbólico público ao acordo tal como está formatado.
Interlocutores resumem o movimento como “expressão política” e não como ruptura. A assinatura sai, o texto se mantém, mas o gesto do presidente sinaliza desconforto com o equilíbrio de obrigações entre os dois blocos. Ao optar por não subir ao palco, Lula envia mensagem tanto a parceiros europeus quanto a aliados domésticos, especialmente setores da indústria e do agronegócio que temem perda de competitividade.
Pressões internas, desconfiança externa
O acordo Mercosul-União Europeia nasce depois de mais de 20 anos de idas e vindas, tentativas frustradas e mudanças de governo em ao menos 10 países-chave. A versão atual prevê, em prazos que vão de 10 a 15 anos, a redução gradual de tarifas sobre cerca de 90% do comércio entre os blocos, que hoje movimenta mais de US$ 100 bilhões por ano. O texto inclui compromissos ambientais, referências ao Acordo de Paris e mecanismos de solução de controvérsias.
No Brasil, entidades industriais apontam risco de desindustrialização acelerada diante de produtos europeus com maior poder tecnológico e crédito barato. Exportadores agrícolas pressionam na direção oposta e veem no acordo chance de ampliar vendas de carnes, grãos e açúcar para um mercado de quase 450 milhões de consumidores. A tensão entre esses dois grupos chega ao Palácio do Planalto e pesa na construção da posição presidencial.
Lula tenta se equilibrar nesse campo minado. Desde o início do mandato, o presidente reivindica papel de articulador do Sul Global e critica o que chama de “protecionismo verde” europeu, que atrela acesso a mercado a metas ambientais rígidas. Na prática, o Planalto avalia que algumas exigências funcionam como barreira disfarçada a produtos brasileiros. A ausência na cerimônia reforça essa leitura e lembra episódios recentes em que o governo questiona taxações ambientais europeias sobre aço e outros bens.
Diplomatas em Brasília e em Bruxelas leem o gesto em tons distintos. Para parte das chancelarias europeias, a ausência expõe imprevisibilidade brasileira e pode atrasar fases seguintes de ratificação em parlamentos nacionais. Em outra ala, o movimento é visto como pressão negociadora de curto prazo, desde que o governo brasileiro não incentive revisões profundas do texto já acordado.
Impacto na economia e nas negociações futuras
O acordo assinado por representantes oficiais segue juridicamente válido e abre caminho, em tese, para um mercado conjunto de quase 780 milhões de pessoas. A ausência de Lula, porém, joga sombras sobre a velocidade de implementação. A entrada plena em vigor ainda depende de ratificação em ao menos quatro países do Mercosul e pelos 27 membros da UE, processo que pode levar de dois a cinco anos.
Empresários brasileiros acompanham o desfecho com calculadora na mão. Indústrias de bens de capital, químicos e fármacos temem enxurrada de importados com tarifas próximas de zero em até 10 anos. Exportadores de proteína animal, celulose e etanol projetam ganhos de bilhões de dólares na próxima década se cotas e licenças avançarem como previsto. A diplomacia brasileira busca mostrar que o país segue na mesa, ainda que em tom mais crítico.
Nos bastidores, negociadores admitem que o gesto de Lula fortalece alas dentro do Mercosul que defendem renegociação de pontos específicos, sobretudo em compras governamentais e regras de origem. “O acordo está assinado, mas não está blindado”, resume um embaixador sul-americano, sob reserva. A União Europeia, por sua vez, enfrenta pressão de produtores rurais franceses e irlandeses, que temem concorrência do agro brasileiro.
A relação política entre os blocos sente o impacto imediato. A ausência presidencial vira manchete na imprensa internacional e alimenta dúvidas sobre o grau de comprometimento brasileiro com a agenda de abertura comercial. Negociadores lembram que, desde 2004, ao menos três janelas de avanço do acordo foram fechadas por resistências internas, seja na Europa, seja no Mercosul. O gesto no Rio sugere que o fantasma da insegurança política ainda ronda o tratado.
Próximos passos e incertezas
O governo brasileiro tenta, agora, administrar o recado enviado sem transformar o episódio em crise aberta. Técnicos da área econômica defendem usar o período de ratificação para negociar salvaguardas setoriais e instrumentos de proteção à indústria nacional. A chancelaria aposta em fóruns paralelos, como reuniões ministeriais e cúpulas regionais, para reconstruir confiança com parceiros europeus.
No curto prazo, o Planalto terá de explicar a aliados e à oposição como pretende equilibrar a promessa de reindustrialização com a participação em um dos maiores acordos comerciais do planeta. A ausência de Lula na cerimônia de assinatura não desfaz o texto, mas reabre uma pergunta central: até que ponto o Brasil está disposto a pagar o custo político de se integrar, de fato, a um mercado global mais aberto e competitivo?
