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Lula se afasta de ato de assinatura de acordo Mercosul-UE no Rio

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva decide não participar, nesta sexta-feira (16), da cerimônia oficial de assinatura do acordo entre Mercosul e União Europeia, no Rio de Janeiro. A ausência ocorre mesmo com a presença da presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, e marca um gesto político calculado em meio a um dos pactos comerciais mais relevantes das últimas décadas.

Lula recebe Ursula, mas evita foto da assinatura

Horas antes da cerimônia, Lula recebe Ursula von der Leyen em um encontro reservado, também no Rio. Os dois discutem os termos finais do acordo, que vem sendo costurado há mais de 20 anos e mobiliza governos, empresas e agricultores em quatro países do Mercosul e 27 da União Europeia. O presidente brasileiro ouve argumentos, apresenta queixas sobre cláusulas ambientais e barreiras agrícolas, mas escolhe não aparecer na foto oficial da assinatura.

O gesto chama atenção pelo contraste entre o peso econômico do pacto e o recuo simbólico do chefe de Estado anfitrião. O acordo prevê a criação de uma zona de livre comércio que, segundo estimativas de negociadores europeus, pode movimentar centenas de bilhões de euros em bens e serviços ao longo da próxima década, com redução gradual de tarifas sobre cerca de 90% do comércio entre os blocos. A assinatura no Rio, sede temporária das reuniões do Mercosul, deveria consolidar o momento de aproximação política e econômica. A cadeira vazia de Lula na cerimônia, porém, adiciona nuance à imagem de entusiasmo pleno do Brasil com o resultado das negociações.

Acordo histórico, pressões internas e cálculo político

O entendimento entre Mercosul e União Europeia nasce em 1999, atravessa mudanças de governo em Brasília, Buenos Aires e Bruxelas e só ganha forma concreta em 2019, com o anúncio de um acordo político. Desde então, entra e sai de pauta em razão de pressões ambientais, disputas agrícolas e resistência de setores industriais. No Brasil, entidades do agronegócio veem oportunidade de ampliar exportações de carne, soja, açúcar e etanol para um mercado de cerca de 450 milhões de consumidores europeus. Segmentos industriais, em especial de bens manufaturados e automóveis, temem concorrência mais dura de produtos europeus de maior tecnologia.

No governo Lula, a negociação é reaberta com foco em salvaguardas ambientais e industriais. A União Europeia tenta vincular concessões tarifárias a metas de desmatamento zero e rastreabilidade de produtos. Diplomatas brasileiros chamam a proposta de “protecionismo verde” e alertam que exigências muito rígidas podem excluir pequenos produtores. Em privado, assessores do Planalto defendem a linha adotada pelo presidente. “Lula quer acordo, mas não aceita cláusulas que transformem o Brasil em vilão climático permanente”, afirma um auxiliar direto, sob condição de anonimato. A decisão de não ir à assinatura é lida, dentro do governo, como uma forma de registrar desconforto sem romper o entendimento.

A presença de Ursula von der Leyen, dirigente de um bloco que responde por cerca de 14% do PIB global, reforça a relevância do ato. Para a União Europeia, o tratado abre espaço para diversificar fornecedores de alimentos, minerais e energia em um momento de tensões geopolíticas com Rússia e China. Ao manter o diálogo e ao mesmo tempo recuar da cerimônia, Lula envia sinal duplo: preserva a relação com Bruxelas, mas mostra a aliados internos que não entrega o acordo a qualquer custo.

Impacto econômico e disputa de narrativas no Brasil

Na prática, o acordo Mercosul-União Europeia prevê cortes tarifários graduais ao longo de prazos que variam de 4 a 15 anos, dependendo do setor. Produtos industriais europeus entram com tarifas menores em países como Brasil e Argentina, enquanto o Mercosul ganha acesso ampliado a cotas de exportação de carne bovina, aves, etanol e açúcar. Estimativas apresentadas em rodadas anteriores de negociação falam em aumento de até 30% no comércio bilateral em dez anos, caso o texto seja implementado integralmente.

Empresários brasileiros acompanham a cena no Rio com expectativa e cautela. Exportadores de commodities enxergam vantagem imediata em um ambiente de juros altos nos Estados Unidos e desaceleração na China, que hoje compra mais de 30% das vendas externas do Brasil. Parte da indústria, em especial a instalada no Sudeste, teme que o acordo acelere um processo de desindustrialização já em curso há pelo menos duas décadas. Centrais sindicais prometem pressionar o Congresso, que terá de chancelar a participação brasileira no pacto. “Não somos contra comércio, mas não aceitaremos uma abertura que custe empregos sem contrapartida”, diz um dirigente ouvido pela reportagem.

No campo político, a ausência de Lula alimenta leituras divergentes. Adversários acusam o governo de enviar sinal de insegurança jurídica ao exterior. Aliados argumentam que o presidente age com prudência diante de um texto complexo, que mexe com tarifas, compras governamentais, patentes, regras ambientais e compromissos climáticos. A cerimônia no Rio, mesmo sem o chefe do Executivo brasileiro, reforça o lugar do país como peça central na articulação entre América do Sul e Europa, mas também expõe as fissuras internas sobre o rumo da política comercial.

Próximos passos e incertezas no Congresso

Com a assinatura formalizada pelos demais representantes do Mercosul e pela União Europeia, o acordo entra em uma nova fase, mais silenciosa e disputada: a da ratificação. No Brasil, o texto precisa passar pelo crivo do Congresso Nacional, em um ambiente de fragmentação partidária e ano pré-eleitoral em 2026. Bancadas ligadas ao agronegócio, à indústria e ao ambientalismo estudam o impacto artigo por artigo. A ausência de Lula no ato oficial tende a ser usada tanto por críticos, que veem hesitação, quanto por apoiadores, que defendem uma margem maior para renegociar pontos sensíveis.

A diplomacia brasileira trabalha com um calendário de meses, não de semanas, para que o acordo avance nas casas legislativas dos dois lados do Atlântico. A União Europeia também enfrenta resistências internas, especialmente em países com forte produção agrícola, como França e Irlanda. Entre o gesto de recuo na cerimônia e a perspectiva de ganhos econômicos, o governo brasileiro terá de explicar, ao público interno e a parceiros estrangeiros, se a imagem do presidente fora da foto é apenas um capítulo tático ou o sinal de que a era dos grandes acordos comerciais enfrenta um novo tipo de dúvida política.

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