Buscas por irmãos desaparecidos no Maranhão chegam ao 12º dia
As buscas pelos irmãos Anderson Kauã, Ágatha e Allan entram no 12º dia nesta quinta-feira (15) no povoado São Raimundo, no Maranhão. Mais de 500 agentes e voluntários percorrem uma área de mata fechada em uma operação que combina cães farejadores, drones, helicópteros e mergulhadores. Até agora, não há sinal de onde estão as duas crianças que continuam desaparecidas.
Mata cercada, respostas em aberto
O caso começa em 4 de janeiro de 2026, quando os irmãos saem para brincar perto de casa, no território quilombola São Sebastião dos Pretos, região de Bacabal. A poucos quilômetros dali, no povoado São Raimundo, fica a construção abandonada conhecida como “casa caída”, cercada por relatos e curiosidade entre moradores.
De acordo com a Secretaria de Segurança Pública do Maranhão (SSP-MA), Anderson Kauã, o mais velho, conta que levou Ágatha e Allan até o imóvel em ruínas. Em seguida, diz que deixou os irmãos no local e tentou voltar para pedir ajuda, mas se perde na mata e é encontrado por trabalhadores rurais horas depois.
O depoimento do menino guia o início da investigação. Cães farejadores da Polícia e do Corpo de Bombeiros são acionados e confirmam a passagem das três crianças pela casa abandonada. “O cão farejador determinou, identificou que as três crianças estiveram na casa caída, conforme havia dito Kauã”, afirma o secretário de Segurança Pública, Maurício Martins.
Segundo o secretário, os animais conseguem reconstituir até a movimentação em torno do imóvel. “Na chegada dele, o Kauã foi por um lado da casa e as outras duas crianças pelo outro. Até esse detalhe, os cães perceberam. E acrescento: não foi só um cão, foram quatro que fizeram esse trabalho”, diz.
A confirmação reforça a principal linha de trabalho da Polícia Civil e dos bombeiros: a hipótese de que os irmãos se perdem na mata densa após entrar na casa abandonada. A região reúne ribanceiras, lagoas, trilhas estreitas e vegetação fechada, o que dificulta deslocamentos e amplia o risco de desorientação, sobretudo para crianças pequenas.
Operação em larga escala, nenhuma pista concreta
O avanço das buscas transforma o entorno do povoado em um grande canteiro de operações. Mais de 60% de uma área de 54 quilômetros quadrados já passa por varredura, dividida em quadrantes para permitir um pente-fino em cada trecho de mata. A cada dia, equipes retomam trechos já vasculhados, em diferentes horários, para tentar capturar sinais que tenham passado despercebidos.
A força-tarefa reúne mais de 500 pessoas, entre Corpo de Bombeiros, Polícia Civil, Polícia Militar, Centro Tático Aéreo (CTA), Perícia Oficial, Exército Brasileiro e dezenas de voluntários. Helicópteros sobrevoam a região, drones cruzam áreas de difícil acesso e mergulhadores realizam incursões subaquáticas em açudes, lagoas e trechos mais profundos de rios e igarapés.
Os cães farejadores retornam várias vezes a pontos-chave, como a ribanceira que leva a um lago próximo da casa caída. Ali, os animais confirmam o rastro das crianças, mas não identificam sinais de presença recente de adultos, restos de alimento ou objetos que indiquem permanência prolongada. “Resquícios de alimento, água, passagens de adultos: nada, nada, nada”, resume Martins.
O silêncio de pistas alimenta dúvidas e pressiona ainda mais a investigação. Na coletiva desta quinta-feira, o secretário reafirma que a prioridade é localizar Ágatha e Allan com vida, mas reconhece que o caso já exige múltiplos cenários. “Não vamos descartar nenhuma linha de investigação, por mais absurda que seja. E também não vamos deixar de lado as buscas, nós vamos ampliar a área de busca. Nós vamos localizar essas crianças, custe o que custar”, afirma.
Enquanto o cerco se amplia na mata, o único sobrevivente direto do dia do desaparecimento permanece sob atenção médica. Anderson Kauã segue internado no Hospital Geral de Bacabal, acompanhado por equipes de saúde e psicólogos. Exames periciais descartam violência sexual, segundo a SSP-MA, e a escuta especializada do menino é conduzida pelo Instituto de Perícias para Crianças e Adolescentes (IPCA).
Comunidade em alerta e pressão por respostas
A ausência de sinais concretos mobiliza a população da região e ecoa nas redes sociais, onde o caso ganha projeção nacional. Moradores de povoados vizinhos, como São Sebastião dos Pretos e Santa Rosa, se organizam para apoiar as equipes com alimentação, hospedagem improvisada e informações sobre trilhas e pontos pouco conhecidos na mata.
Prefeituras da região reforçam o apoio logístico com transporte, estruturas de base e alimentação para as equipes, que se revezam dia e noite em campo. A rotina de quem vive perto da área de buscas muda. Pais passam a restringir a circulação de crianças, atividades rurais sofrem ajustes e o clima de apreensão se torna parte do cotidiano.
Autoridades insistem na necessidade de cautela. O alerta principal é para que moradores evitem entrar sozinhos na mata em busca das crianças, o que poderia criar novas situações de risco. A recomendação é que qualquer informação sobre movimentação estranha, veículos desconhecidos ou trilhas recentes seja repassada diretamente às forças de segurança.
A cada dia sem novidades, aumentam a cobrança por respostas e a pressão sobre as investigações. Em público, o secretário tenta equilibrar prudência e esperança. “É possível que tenham chegado lá sozinhas. Inclusive o Kauã nega a participação de terceiros nesta caminhada. As três crianças saíram do povoado e se perderam na mata. Esse é o ponto inicial que nós estamos tratando”, afirma Martins, sempre repetindo que nenhuma hipótese é descartada.
Próximos passos em busca de um desfecho
A SSP-MA anuncia que as buscas serão intensificadas nos próximos dias, com ampliação da área de varredura além dos 54 quilômetros quadrados já mapeados. A estratégia inclui novas incursões subaquáticas, reforço do patrulhamento terrestre, uso ampliado de drones de longo alcance e manutenção do apoio aéreo com helicópteros do CTA.
Equipes técnicas avaliam imagens de satélite e cruzam informações de GPS dos celulares dos agentes em campo para identificar pontos ainda pouco explorados. O trabalho, segundo investigadores, combina tecnologia e conhecimento local de moradores mais antigos, que ajudam a redesenhar mapas de trilhas e caminhos usados há décadas.
Enquanto isso, a investigação formal segue com todas as linhas abertas. A Polícia Civil aprofunda a análise de depoimentos, checa eventuais denúncias anônimas e tenta reconstruir com precisão os passos dos irmãos no dia 4 de janeiro. Nenhuma autoridade, até agora, fala em prazo para encerrar a fase de buscas na mata.
No povoado, a espera se transforma em uma rotina de vigília silenciosa. Cada movimento de helicóptero, cada sirene na estrada, cada viatura que passa reacende expectativas e medos. O desfecho do caso, ainda desconhecido, vai testar a capacidade do Estado de dar respostas rápidas em áreas rurais isoladas e a resistência de uma comunidade que, por enquanto, se apega a uma única certeza possível: as buscas não podem parar.
