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Shopping Tijuca reabre duas semanas após incêndio que matou brigadistas

O Shopping Tijuca reabre as portas nesta sexta-feira (16), no Rio, duas semanas após o incêndio no subsolo que matou dois brigadistas. O retorno das atividades ocorre em meio a luto, cheiro de fumaça e desconfiança sobre a segurança. Funcionários voltam ao trabalho enquanto as famílias das vítimas ainda aguardam respostas oficiais.

Reabertura sob luto e fiscalização reforçada

Logo nas primeiras horas da manhã, parte dos cerca de 3 mil funcionários começa a chegar em silêncio pelas entradas laterais do shopping. O clima é diferente de uma sexta-feira típica de janeiro na Tijuca, bairro de classe média na zona norte do Rio. As vitrines se acendem, mas o movimento ainda é contido. Em muitos corredores, o assunto segue sendo o incêndio que começou no subsolo e tirou a vida de dois brigadistas que atuavam no combate às chamas.

O centro comercial ficou fechado por 14 dias consecutivos para reparos estruturais, revisão de sistemas elétricos e inspeções nas rotas de fuga. Técnicos do Corpo de Bombeiros e da Prefeitura percorrem o prédio nas últimas 48 horas antes da reabertura. A liberação acontece depois de uma sequência de vistorias, ajustes em equipamentos de combate ao fogo e simulações internas de evacuação, segundo relatos de lojistas e funcionários. Relatório completo sobre as causas do incêndio ainda não é divulgado.

Em frente a uma das entradas principais, um pequeno painel improvisado reúne flores, duas fotos impressas dos brigadistas mortos e bilhetes de agradecimento. Lojistas se referem a eles como “os heróis do subsolo”. Colegas que trabalharam ao lado dos dois contam que a equipe de brigada vinha passando por treinamentos regulares, mas admitem que muitos funcionários desconheciam em detalhes os procedimentos para emergências. “A gente participa de simulado uma vez ou outra, mas nunca acha que vai acontecer de verdade”, diz uma vendedora de 26 anos, que pede para não ter o nome divulgado.

Medo, rotina pressionada e debate sobre segurança

O incêndio expõe fragilidades na gestão de risco em grandes centros de compras, um setor que concentra milhares de pessoas em espaços fechados diariamente. O caso no Shopping Tijuca reacende lembranças de outras tragédias no país e pressiona autoridades por uma revisão mais dura das regras de prevenção contra fogo. Vistorias em série em shoppings, cinemas e casas de espetáculo passam a ser discutidas em reuniões entre governo estadual, prefeitura e Corpo de Bombeiros, segundo interlocutores envolvidos nas conversas.

Lojistas calculam prejuízos com o fechamento de duas semanas em pleno verão, período importante para o varejo. Em algumas redes, a perda de faturamento chega a 30% no intervalo em que o shopping permanece fechado, segundo estimativas internas. O impacto, porém, convive com o constrangimento em falar de dinheiro diante das mortes. “A loja perdeu vendas, claro, mas nada se compara à dor das famílias. O que a gente espera agora é trabalho sério para que isso não se repita”, afirma um gerente de uma grande rede de roupas.

O shopping reforça a presença de seguranças e brigadistas ao longo dos corredores e instala novos extintores e sinalizações luminosas de saída. Em alguns pontos, faixas indicam áreas ainda interditadas no subsolo, onde peritos trabalham. Frequentadores relatam cheiro residual de queimado próximo a dutos de ventilação em algumas alas. “Dá um aperto de entrar sabendo que dois trabalhadores morreram aqui embaixo. A gente entra, mas entra olhando para as saídas”, diz uma cliente de 42 anos, moradora da Tijuca, que frequenta o local há mais de uma década.

As mortes dos brigadistas mobilizam sindicatos, associações de trabalhadores de shopping e entidades de segurança do trabalho. Advogados que acompanham o caso falam em possíveis ações civis e trabalhistas para garantir indenizações às famílias e cobrar responsabilidades de empresas terceirizadas e da administração do centro comercial. O Ministério Público acompanha a apuração técnica para decidir se abre investigação própria sobre eventuais falhas em normas de segurança e manutenção.

Pressão por transparência e mudanças duradouras

Em paralelo à reabertura, cresce a cobrança por transparência nas informações sobre o que aconteceu no subsolo. Familiares das vítimas querem saber quanto tempo os brigadistas permanecem expostos à fumaça, se os equipamentos funcionam adequadamente e se rotas de fuga estão desobstruídas. A administração do shopping afirma, por meio de nota, que colabora com as autoridades e que todas as medidas exigidas pelos órgãos de fiscalização são adotadas, incluindo reforço no treinamento de equipes e atualização de equipamentos.

Especialistas em segurança contra incêndios defendem revisão abrangente das normas aplicadas a grandes centros comerciais, com cronograma definido para adaptações. A discussão inclui mais treinamentos obrigatórios por ano, ampliando a carga horária mínima hoje exigida para brigadas internas, e simulações com participação efetiva de clientes. Projetos em análise nas esferas municipal e estadual miram aumento de multas para quem descumprir regras, além de possibilidade de interdição imediata em caso de irregularidades graves.

A comunidade do entorno, formada por moradores de prédios residenciais e escolas da região, cobra participação nas discussões sobre segurança. Conselhos comunitários de segurança pública na Tijuca passam a incluir o tema na pauta fixa de reuniões mensais. Moradores pedem planos claros de evacuação não apenas dentro do shopping, mas em todo o quarteirão, em caso de novos incidentes de grande porte. “A gente não quer só ser informado depois da tragédia. Quer saber antes o que está sendo feito”, diz um representante de associação de moradores.

Nos próximos meses, a velocidade e a profundidade das mudanças vão testar a confiança de clientes e trabalhadores. A reabertura desta sexta-feira marca o retorno da rotina comercial, mas não encerra a crise. A forma como o caso do Shopping Tijuca será tratado por autoridades, empresas e sociedade tende a se tornar referência para outros empreendimentos no país. Enquanto as investigações avançam, uma pergunta permanece sem resposta: os ajustes em curso serão suficientes para evitar que um incêndio em um subsolo volte a transformar um dia comum em tragédia?

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