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Lula não irá ao Paraguai para assinatura do acordo UE-Mercosul

Lula não participará da assinatura do acordo UE-Mercosul, no Paraguai

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva não participará da cerimônia de assinatura do acordo comercial entre Mercosul e União Europeia, marcada para sábado 17, no Paraguai. A Presidência alega convite tardio para um evento que, até poucos dias atrás, estava desenhado como reunião em nível ministerial.

Convite de última hora muda desenho político da cerimônia

A decisão de Lula contrasta com o protagonismo que o presidente assume desde 2023 na tentativa de destravar o tratado birregional, negociado há cerca de 25 anos. A ausência, confirmada por fonte do Planalto à agência AFP, altera o peso político da cerimônia em Assunção, que passa a ser conduzida sem o chefe de Estado do maior parceiro econômico do bloco sul-americano.

O governo brasileiro sustenta que o desenho original da assinatura previa a presença de chanceleres e ministros, não de presidentes. Segundo essa versão, o Paraguai decidiu convidar os chefes de Estado “de última hora”, quando a agenda de Lula já estava fechada. A avaliação no entorno presidencial é que um acordo dessa dimensão não se organiza em clima de improviso protocolar.

O anfitrião Santiago Peña, presidente do Paraguai, confirma presença, assim como o uruguaio Yamandú Orsi. Também é esperada a ida do argentino Javier Milei, que desde a campanha se coloca como defensor de maior abertura comercial. O contraste com a ausência de Lula tende a alimentar interpretações diferentes na região sobre o grau de engajamento de cada governo na reta final das negociações.

Lula permanece no Brasil e, em vez de viajar a Assunção, recebe no Rio de Janeiro, na sexta-feira 16, a presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, e o presidente do Conselho Europeu, António Costa. Os dois fazem escala no país antes de seguir para o Paraguai, em gesto que o Planalto lê como reconhecimento do papel brasileiro na costura política do pacto.

Acordo de 25 anos cria mercado estratégico de 700 milhões de pessoas

O tratado entre Mercosul e União Europeia prevê a formação de uma zona de livre comércio que pode se tornar uma das maiores do planeta. Juntos, os dois blocos representam cerca de 30% do Produto Interno Bruto mundial e reúnem mais de 700 milhões de consumidores. O texto reduz tarifas de importação e exportação ao longo de prazos que variam, em alguns casos, de 10 a 15 anos, com cronogramas específicos por setor.

Para o Brasil, o agronegócio enxerga o acordo como porta de entrada ampliada para mercados de alto poder de compra, sobretudo em carnes, grãos, frutas e produtos industrializados de base agrícola. A expectativa é de ganhos bilionários em exportações ao longo da próxima década, em um cenário de maior previsibilidade regulatória e de abertura gradual do mercado europeu. Ao mesmo tempo, a indústria nacional monitora com cautela a concorrência reforçada de bens manufaturados europeus, que podem chegar ao Mercosul com tarifas reduzidas.

Na Europa, o movimento é inverso. Agricultores e pecuaristas pressionam governos e instituições comunitárias contra o pacto, alegando risco de concorrência desleal com produtores sul-americanos, que operam com custos mais baixos e normas ambientais vistas como menos rígidas. Protestos recentes em países como França, Bélgica e Alemanha expõem a resistência de parte do setor rural europeu diante da perspectiva de maior fluxo de carne, soja e etanol vindos do Cone Sul.

Dentro do governo brasileiro, a leitura é que o acordo, tal como fechado, equilibra ganhos e concessões. O vice-presidente Geraldo Alckmin, que também acumula a pasta da Indústria e Comércio, afirma que Lula tem papel decisivo na fase final das tratativas. “Foi ele quem fez todo o trabalho. Sua liderança e a sua perseverança foram fundamentais para um acordo que há 25 anos é trabalhado, mas nunca saía”, diz, em entrevista concedida nesta quinta-feira 15 a uma emissora local.

Ausência em Assunção e disputa por narrativa diplomática

A decisão de não ir ao Paraguai abre espaço para leituras distintas, dentro e fora do país. Adversários de Lula tendem a apontar incoerência entre o esforço retórico em defesa do acordo e a ausência na cerimônia de assinatura. Aliados, por outro lado, argumentam que o presidente consolida sua influência ao receber, em casa, o alto comando político da União Europeia na véspera da formalização.

No Itamaraty, diplomatas minimizam qualquer ruído e classificam a escolha como ajuste de agenda, não como gesto de distanciamento. A aposta é que a foto de Lula ao lado de Ursula von der Leyen e António Costa, no Rio, falará mais alto do que a cadeira vazia em Assunção. A narrativa que o governo deseja consolidar é a de que Brasília continua no centro da engrenagem diplomática entre os dois blocos.

A cerimônia no Paraguai, porém, dá a Peña, Orsi e Milei uma vitrine que até recentemente se projetava sobre Lula, quando o Brasil presidia o Mercosul. Em dezembro, em Foz do Iguaçu, o presidente tenta chegar à assinatura final do tratado, mas esbarra em resistências europeias e em ajustes de última hora no texto. O acordo não se conclui naquele momento, e o desfecho acaba deslocado para o início de 2026, já sob presidência paraguaia do bloco.

Os próximos meses indicam uma nova fase: depois da foto oficial, virá a disputa nos parlamentos. O texto ainda precisa passar pelos Congressos dos países do Mercosul e pelo Parlamento Europeu, além de câmaras nacionais em vários membros da União Europeia. Pressões de setores produtivos, exigências ambientais adicionais e o calendário eleitoral em diferentes países podem atrasar a plena entrada em vigor das regras.

O que está em jogo para o Brasil após a assinatura

No curto prazo, nada muda de um dia para o outro nas prateleiras dos supermercados ou no preço dos produtos. O impacto se dá em prazos mais longos, com cortes graduais de tarifas e adaptação de cadeias produtivas. Exportadores brasileiros correm para mapear nichos e ajustar padrões sanitários e ambientais exigidos pelos europeus, enquanto indústrias locais pressionam por políticas de inovação e crédito para manter competitividade.

O governo tenta vender o acordo como peça de uma estratégia maior de reindustrialização verde, com ênfase em tecnologia, energias renováveis e agregação de valor a produtos agrícolas. A chave, admitem auxiliares de Lula, será transformar o acesso ampliado ao mercado europeu em investimentos em pesquisa, qualificação profissional e modernização fabril. Sem isso, o risco é reforçar o papel do país como mero fornecedor de commodities.

A ausência de Lula na cerimônia em Assunção não altera o texto assinado, mas influencia a percepção de liderança regional e o jogo simbólico que acompanha grandes decisões comerciais. O presidente prefere apostar na diplomacia exercida em território brasileiro, na conversa reservada com as autoridades europeias, a se submeter a um convite considerado tardio. A fotografia que ficará para a história do acordo UE-Mercosul se faz no Paraguai; a influência sobre o rumo que ele tomará, porém, passa inevitavelmente por Brasília.

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