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Cabana na mata revela nova pista sobre crianças desaparecidas no MA

Crianças desaparecidas em Bacabal passaram noite em cabana abandonada

Allan, de 4 anos, e Ágatha, de 6, permanecem desaparecidos há 12 dias no quilombo de São Sebastião dos Pretos, em Bacabal (MA). A polícia confirma que as crianças passam pelo menos uma noite em uma cabana abandonada na mata, identificada a partir do relato do primo Anderson Kauan, de 8 anos, encontrado três dias após o sumiço.

Reconstituição do trajeto na mata muda rumo das buscas

A confirmação da passagem das crianças pela cabana, conhecida por moradores como “casa caída”, redefine o mapa das buscas em uma área de mata fechada e terrenos alagados. A informação é detalhada nesta quinta-feira, 15 de janeiro, pelo secretário de Segurança Pública do Maranhão, Maurício Martins, durante coletiva em Bacabal. Segundo ele, a equipe reconstrói o caminho percorrido pelas crianças a partir das indicações de Anderson, que desaparece com os primos em 4 de janeiro e é encontrado em 7 de janeiro, desidratado, mas consciente.

Os investigadores caminham com o menino por trilhas usadas por moradores do quilombo, cruzam cercas, riachos e clareiras até que ele aponta a estrutura de madeira e palha parcialmente destruída. Cães farejadores confirmam a passagem recente de crianças pelo local. “A partir dos relatos do Anderson, foi feita a reconstituição do trajeto e, com o apoio dos cães, conseguimos localizar essa cabana”, afirma Martins. A confirmação da “casa caída” como ponto de parada indica que os irmãos avançam mais fundo na mata do que se imaginava nos primeiros dias.

Operação ganha mergulhadores, tecnologia e pressão do tempo

A partir dessa nova referência, a operação se expande em círculo ao redor da cabana, com equipes a pé, em viaturas e em barcos. O governo estadual mobiliza bombeiros, policiais militares, policiais civis e cães farejadores, além de reforçar o apoio logístico com drones e equipamentos de comunicação. “As buscas vão continuar até que as crianças sejam localizadas”, diz o secretário. Ele confirma que a estratégia inclui varreduras subaquáticas em rios e áreas alagadas que cortam o território quilombola, zonas consideradas críticas em razão da correnteza e da vegetação densa.

As condições do terreno aceleram a urgência. O verão amazônico traz calor intenso, chuvas intermitentes e aumento do nível dos rios. Cada dia a mais na mata reduz as margens de segurança para crianças tão pequenas. Moradores relatam que, em alguns trechos, o mato supera dois metros de altura e dificulta a passagem de adultos experientes. Para Allan e Ágatha, o cenário representa risco de exaustão, exposição a animais peçonhentos e dificuldade de acesso a água potável ou abrigo adequado.

Quilombo mobilizado e hipóteses em investigação

No quilombo de São Sebastião dos Pretos, a rotina gira em torno das buscas. Lavradores, pescadores e líderes comunitários deixam o trabalho para vasculhar trilhas, igarapés e roçados. O desaparecimento das crianças causa comoção em uma comunidade que preserva laços familiares estreitos e depende da cooperação diária para sobreviver. Casas se tornam pontos de apoio para distribuição de água, comida e abrigo aos voluntários que chegam de outras áreas de Bacabal. A cada novo dia, famílias se reúnem em frente à pequena igreja local à espera de notícias.

A polícia mantém sob sigilo detalhes da investigação, mas admite que trabalha com múltiplos cenários. Entre as hipóteses estão a possibilidade de afastamento voluntário a partir de uma brincadeira que sai de controle, eventuais crimes contra as crianças e acidentes na mata ou nos rios próximos. “Estamos investigando todas as linhas com a mesma seriedade. Não descartamos nenhuma hipótese neste momento”, afirma Martins. O secretário evita cravar um enredo para o desaparecimento e reforça que o depoimento de Anderson é peça-chave, mas ainda precisa ser confrontado com outras provas e testemunhos.

Vulnerabilidade infantil em áreas rurais entra em foco

O caso expõe a vulnerabilidade de crianças em áreas rurais e quilombolas, onde o contato direto com a mata faz parte da rotina, mas nem sempre é acompanhado de supervisão constante. Em São Sebastião dos Pretos, como em muitos povoados do interior do Maranhão, trajetos a pé por trilhas e estradas de terra ligam casas, roças, igarapés e escolas. A fronteira entre o quintal e a mata é difusa. Essa proximidade com o ambiente natural, vista como parte da infância local, se converte em risco quando a comunidade não dispõe de políticas estruturadas de proteção e prevenção.

Especialistas em direitos da infância ouvidos por autoridades estaduais desde o início da operação apontam que o desaparecimento de Allan e Ágatha deve entrar no radar de políticas públicas voltadas a comunidades tradicionais. Quilombos, aldeias indígenas e povoados ribeirinhos geralmente enfrentam carência de iluminação pública, transporte regular, presença constante de conselhos tutelares e acesso rápido a forças de segurança. A distância entre o fato e a resposta institucional, medida em horas ou dias, pode definir o desfecho em casos de desaparecimento infantil.

O que ainda falta responder

As autoridades admitem que ainda não conseguem explicar o que leva as três crianças a se afastarem tanto das casas no dia 4 de janeiro. O depoimento de Anderson, que volta para a família em 7 de janeiro, ajuda a traçar parte do caminho, mas deixa lacunas. Investigadores tentam entender se houve influência de adultos, promessa de passeio, tentativa de alcançar algum ponto específico da região ou simples desorientação em meio à mata. A localização da cabana abandona a ideia de um desaparecimento restrito ao entorno imediato do quilombo e amplia o raio de incerteza.

As próximas horas seguem decisivas. Equipes mantêm as buscas por terra e água em regime ininterrupto, com revezamento de agentes e apoio da comunidade. A cada novo perímetro vasculhado, cresce a pressão por respostas e se renova a pergunta que orienta a operação desde 4 de janeiro: onde estão Allan e Ágatha e quanto tempo ainda resta para encontrá-las com vida?

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