Vídeo mostra morador salvando criança arrastada por enxurrada em MG

Um morador de Pouso Alegre, no Sul de Minas, resgata uma criança arrastada por uma enxurrada durante temporal na tarde desta quinta-feira (15/1). As imagens, registradas por câmera de segurança, circulam nas redes sociais enquanto equipes seguem em busca de outra criança, de 7 anos, ainda desaparecida.
Temporal transforma rua em correnteza e mobiliza cidade
A chuva começa no meio da tarde e, em poucos minutos, muda a rotina de um trecho de Pouso Alegre, cidade de cerca de 160 mil habitantes no Sul de Minas. A enxurrada toma conta da via próxima à Mina do João Paulo, região conhecida pelos moradores, e arrasta tudo o que encontra, inclusive duas crianças que brincam perto da água.
Uma câmera de segurança registra a sequência que, em poucos segundos, separa um passeio comum de uma situação de risco extremo. Na gravação, uma das crianças aparece sendo levada pela força da água e grita por socorro. Um morador corre, entra na enxurrada e consegue alcançar a vítima, agarrando o corpo pequeno antes que ele seja sugado pela galeria que liga a Rua Comendador ao Rio Mandu, canal por onde a água escoa com grande volume durante temporais.
Testemunhas relatam que o resgate ocorre em meio ao pânico. A água sobe rápido e invade a rua, formando um corredor marrom e turbulento. Vizinhos se aproximam, tentam ajudar e gritam orientações enquanto o homem luta contra a correnteza para manter a criança acima da linha d’água. “Ele arriscou a própria vida”, conta uma moradora à TV local, em depoimento reproduzido nas redes. “Se ele demora mais um pouco, ninguém sabe o que teria acontecido.”
Depois de ser puxada para um ponto mais seguro, a vítima é amparada por outras pessoas e levada para atendimento médico. A prefeitura confirma que a criança é encaminhada a uma unidade de saúde, mas não informa seu estado detalhado. A outra criança, de 7 anos, também arrastada pela enxurrada, desaparece no mesmo episódio e passa a ser o foco de uma força-tarefa de buscas.
Força-tarefa vasculha galerias e leito do Rio Mandu
O Corpo de Bombeiros Militar de Minas Gerais monta uma operação conjunta com a Defesa Civil municipal e a Polícia Militar assim que recebe o chamado. As equipes percorrem o curso d’água e as estruturas subterrâneas que drenam a chuva, num trabalho que se estende até a noite. A baixa visibilidade, porém, obriga a interrupção temporária da busca direta no local onde a criança desaparece.
Segundo a TV Alterosa Sul de Minas, a Prefeitura de Pouso Alegre informa que as buscas se concentram na região da galeria que liga a Rua Comendador ao Rio Mandu. Bombeiros abrem bueiros, inspecionam tampas de boca de lobo e vasculham diferentes trechos do córrego, atentos à possibilidade de que o corpo tenha sido levado para pontos mais distantes pela correnteza. Há monitoramento contínuo do leito do rio, tanto em áreas urbanas quanto em pontos mais isolados.
As condições do terreno dificultam o trabalho. O volume de água ainda é alto em vários pontos e a chuva dos últimos dias deixa o solo encharcado. A prefeitura confirma que, por segurança, parte das buscas em áreas fechadas é suspensa durante a noite desta quinta-feira e retomada na manhã de sexta-feira (16/1). “Não há como avançar sem colocar as equipes em risco”, relata um integrante da Defesa Civil, sob condição de anonimato.
Moradores acompanham a movimentação à distância, muitos ainda abalados pela cena da enxurrada. Nas redes sociais, vídeos do resgate e do temporal ganham milhares de visualizações e alimentam a cobrança por respostas sobre a estrutura de drenagem da cidade. Pouso Alegre vem enfrentando, nos últimos anos, episódios recorrentes de alagamentos em dias de chuva intensa, situação que se repete em outros municípios do Sul de Minas.
Chuvas expõem riscos e cobram investimento em prevenção
O episódio abre mais um capítulo da relação de Pouso Alegre com as chuvas fortes que marcam o verão na região. Entre dezembro e fevereiro, temporais concentram grande parte do volume anual de precipitação no Sul de Minas. Em muitos bairros, galerias antigas e córregos canalizados não dão conta da água adicional, o que transforma ruas em corredores de enxurrada em poucos minutos.
Especialistas em defesa civil lembram que áreas próximas a cursos d’água canalizados exigem atenção redobrada, sobretudo quando há presença de crianças. A combinação de bueiros abertos, bocas de lobo sem grade e galerias profundas cria armadilhas invisíveis sob a água turva. Em situações como a registrada em Pouso Alegre, uma pessoa é arrastada com facilidade por correntezas que atingem poucos quilômetros por hora, mas concentram força suficiente para derrubar um adulto.
Moradores relatam que o trecho perto da Mina do João Paulo já enfrenta alagamentos em outros temporais. A prefeitura ainda não divulga um diagnóstico atualizado da região, mas o caso reacende a cobrança por investimento em obras de drenagem, revisão de galerias e ações educativas, principalmente com crianças e adolescentes. A tragédia em curso se soma a uma estatística nacional de desastres ligados à chuva que, ano após ano, expõe falhas de planejamento urbano.
O ato do morador que se lança à água e salva a criança ganha contornos de heroísmo em meio ao cenário de vulnerabilidade. A coragem individual, porém, não resolve o problema de fundo. Sem mudanças estruturais, a cidade segue exposta a novos episódios de risco, e famílias continuam dependendo da sorte e do improviso de quem está por perto quando a chuva cai forte demais.
Buscas continuam e cidade espera por respostas
As equipes retomam as buscas pela criança desaparecida na manhã desta sexta-feira, com apoio de novas frentes de vistoria ao longo do curso do Rio Mandu. A força-tarefa deve incluir mergulhadores e ampliar o perímetro de varredura, seguindo a lógica de que, em poucas horas, a correnteza pode arrastar uma vítima por centenas de metros, sobretudo em trechos canalizados.
A Prefeitura de Pouso Alegre diz acompanhar a operação e promete divulgar atualizações ao longo do dia. A rotina na cidade, porém, não volta ao normal. Moradores reforçam o cuidado com crianças em áreas de risco e esperam que o caso resulte em medidas concretas, como obras de drenagem, desobstrução de galerias e planos de emergência mais claros para períodos de chuva extrema.
Enquanto o resgate da primeira criança simboliza um gesto de solidariedade em meio ao temporal, o desaparecimento da segunda mantém a cidade em estado de alerta. As imagens da enxurrada e do salvamento seguem como lembrança de que, a cada verão, a combinação de chuva intensa e infraestrutura frágil coloca vidas em jogo. A resposta que Pouso Alegre dará depois deste episódio definirá se a cena registrada pela câmera será exceção dramática ou prenúncio de novos desastres.
