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Brasil

61% dos brasileiros fazem bicos para complementar a renda, revela pesquisa

Com o aumento do custo de vida, trabalhadores recorrem a diferentes atividades para equilibrar o orçamento; especialista alerta para os riscos da sobrecarga e da dependência de ganhos extras

61% dos brasileiros fazem bicos para complementar a renda, revela pesquisa

Com o aumento do custo de vida e o peso das despesas essenciais no orçamento familiar, a busca por fontes alternativas de renda tem se tornado uma realidade para trabalhadores de diferentes profissões no Brasil. Gastos com alimentação, transporte e contas domésticas estão entre os fatores que levam parte da população a procurar uma segunda atividade para complementar os ganhos mensais.

Seja vendendo doces, preparando marmitas, prestando serviços ou trabalhando nos fins de semana, os chamados “bicos” passaram a fazer parte da rotina de quem busca equilibrar as finanças e ampliar a renda familiar.

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Uma pesquisa do Instituto Cidades Sustentáveis (ICS), em parceria com a Ipsos-Ipec, revela que 61% dos entrevistados em dez capitais brasileiras realizaram alguma atividade extra nos últimos 12 meses para complementar ou obter renda. O percentual representa um crescimento de cinco pontos em relação ao levantamento anterior, quando 56% afirmaram ter recorrido a esse tipo de trabalho.

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Renda extra vira alternativa para enfrentar o custo de vida

Entre as atividades mais procuradas pelos entrevistados estão serviços gerais, como faxina, manutenção e jardinagem, mencionados por 18% dos participantes. A venda de roupas e objetos usados aparece com 13%, enquanto a produção de alimentos para comercialização representa 11%.

A necessidade de complementar o orçamento é especialmente significativa entre as pessoas das classes D e E, grupo no qual 67% afirmaram ter realizado alguma atividade adicional. Entre famílias com renda de até dois salários mínimos, o índice chega a 69%.

A pesquisa também revela que 31% dos entrevistados perceberam uma redução na renda nos últimos 12 meses, enquanto 45% disseram que seus ganhos permaneceram estáveis. Outros 18% relataram aumento.

A alimentação aparece como uma das principais preocupações financeiras, citada por 87% dos participantes. Saúde e moradia também pressionam o orçamento, ambas mencionadas por 57%.

Para o planejador financeiro e especialista em investimentos Jeff Patzlaff, a inflação tem efeitos diferentes sobre as famílias brasileiras. Embora o país não enfrente atualmente os mesmos níveis de descontrole de preços registrados no passado, o aumento do custo de vida continua comprometendo o poder de compra, principalmente entre aqueles que recebem menos.

“A inflação, ela é um exemplo muito prático de como o custo de vida do brasileiro vem aumentando. Essa inflação, esse aumento de preços, ele é diferente de acordo com a classe social. Geralmente, quem tem rendas mais baixas sofre mais com a inflação, porque os itens básicos de alimentação e transporte, eles costumam pesar muito nesses orçamentos e eles são indispensáveis”, comenta Patzlaff.

Segundo Jeff Patzlaff, planejador financeiro e especialista em investimentos, a inflação tem efeitos diferentes sobre as famílias brasileiras – Foto: NC News

Ainda segundo o especialista, despesas essenciais oferecem pouca margem para cortes. Diferentemente de gastos que podem ser adiados, alimentação e deslocamento para o trabalho precisam continuar fazendo parte do orçamento, mesmo quando os preços aumentam.

Renda extra se torna alternativa para reforçar o orçamento

A balconista de farmácia Andréia Fernandes conhece de perto essa realidade. Além do trabalho na farmácia, ela atua como confeiteira autônoma, produzindo bolos, cestas e presentes personalizados para aumentar a renda familiar.

Mãe de duas crianças, Andréia explica que a remuneração da profissão principal não acompanha todas as necessidades da família. Por isso, encontrou na confeitaria uma maneira de garantir recursos adicionais, principalmente diante das despesas com alimentação, escola, roupas e contas domésticas.

Em entrevista, ela contou que a alta dos alimentos e o salário recebido na categoria foram determinantes para buscar uma segunda fonte de renda.

“Alta dos alimentos, o salário também da minha categoria, a gente visa e espera um pouco mais, mas o Brasil não permite isso, né, porque é o piso da categoria. E pra complementação, porque eu tenho duas crianças, às vezes a pessoa paga aluguel, no momento eu não estou pagando, mas quem paga aluguel, água, luz, internet, escola, sapato, alimentação, roupa, então tudo isso aperta o orçamento do fim do mês”, afirma Andréia.

Além do trabalho na farmácia, Andréia atua também como confeiteira autônoma para aumentar a renda familiar – Foto: NC News

Para Andréia, o dinheiro das encomendas faz uma grande diferença no fechamento das contas. Datas comemorativas, como a Páscoa, também representam oportunidades para ampliar as vendas e diversificar os produtos oferecidos.

Apesar das dificuldades financeiras, ela destaca que o trabalho complementar também permite descobrir novas habilidades e desenvolver o potencial profissional em outras áreas.

Designer gráfico troca o computador pelo trabalho em bares e restaurantes

A necessidade de complementar o salário também faz parte da rotina de Giovanni Dumont. Designer gráfico, ele aproveita oportunidades fora da profissão principal para trabalhar como barman, garçom e auxiliar de cozinha.

As atividades são diferentes do trabalho com design, mas representam uma alternativa para aumentar os ganhos. Segundo Giovanni, o dinheiro recebido nesses serviços ajuda a pagar despesas que surgem ao longo do mês e a reforçar as compras de supermercado. O profissional explicou como organiza essa segunda atividade:

“Além de trabalhar como designer gráfico, também trabalho como barman e, às vezes, como garçom ou auxiliar de cozinha, para complementar a renda e ter uma graninha a mais no fim do mês”, diz Dumont.

Para Giovanni Dumont, o dinheiro recebido pelos serviços extras ajuda a pagar despesas que surgem ao longo do mês – Foto: NC News

Giovanni conta ainda que a escolha também tem relação com sua preferência pelo período noturno, o que facilita a realização de serviços em bares e estabelecimentos gastronômicos.

Para ele, mesmo quando o valor recebido não é destinado a uma despesa específica, ter uma quantia adicional disponível proporciona maior flexibilidade financeira.

Os relatos de Andréia e Giovanni mostram que a busca por renda extra não está restrita a uma profissão. Trabalhadores de diferentes setores encontram alternativas para ampliar os ganhos, seja por necessidade imediata ou pelo desejo de melhorar o orçamento.

Escolaridade aumenta, mas renda não acompanha o mesmo ritmo

Outro resultado da pesquisa chama atenção para a relação entre educação e condições financeiras. Embora 73% dos entrevistados tenham alcançado escolaridade superior à dos pais, apenas 46% afirmaram receber mais do que a geração anterior quando comparados na mesma idade.

Os dados mostram que o avanço educacional não necessariamente se traduz em crescimento equivalente da renda, evidenciando dificuldades enfrentadas por parte da população para melhorar suas condições econômicas.

O levantamento também identificou mudanças nos hábitos alimentares. Entre os participantes, 41% disseram ter reduzido o consumo de carnes, 34% diminuíram a compra de laticínios e 30% passaram a consumir menos frutas, legumes e verduras.

Ao mesmo tempo, 35% relataram aumento na compra de ovos, produto que pode funcionar como alternativa a outras fontes de proteína na alimentação.

Essas mudanças ajudam a dimensionar como as pressões sobre o orçamento ultrapassam a necessidade de buscar um segundo trabalho e chegam às decisões mais básicas do consumo familiar.

Especialista alerta para os riscos de depender dos bicos todos os meses

Embora a renda extra possa representar uma solução importante para aliviar o orçamento, Jeff Patzlaff alerta que a dependência permanente desses ganhos merece atenção.

Segundo o planejador financeiro, atividades ocasionais podem ser positivas quando ajudam a alcançar objetivos ou ampliar a segurança financeira. O problema surge quando o trabalhador precisa contar obrigatoriamente com esse dinheiro para pagar despesas fixas.

Isso acontece porque os ganhos de trabalhos extras podem variar de um mês para outro, enquanto contas como alimentação, energia elétrica e moradia continuam chegando regularmente.

“De uma forma saudável, não vemos problema nesse tipo de estratégia. O problema é quando você precisa incorporar essa renda, que é uma renda sazonal, que é uma renda pontual, dentro do seu orçamento de todos os meses. Se você precisar todos os meses de renda extra para cobrir os seus gastos, você vai ter um problema logo ali na frente, porque outras coisas virão junto”, diz Patzlaff.

O especialista também chama atenção para as consequências da sobrecarga de trabalho. A tentativa de aumentar continuamente os ganhos pode reduzir o tempo disponível para descanso, convivência familiar e cuidados pessoais.

Na avaliação de Patzlaff, o acúmulo de jornadas pode elevar o estresse e contribuir para problemas de saúde, especialmente quando o trabalhador não encontra espaço para recuperar as energias.

A preocupação é que uma estratégia inicialmente utilizada para melhorar a situação financeira acabe criando outras dificuldades, inclusive despesas relacionadas à saúde e à qualidade de vida.

Como evitar que a renda extra se transforme em uma necessidade permanente

Para quem depende de atividades complementares, uma medida importante é conhecer o custo mensal da família e separar os ganhos regulares daqueles que variam conforme a quantidade de serviços realizados.

Também é necessário considerar os custos envolvidos no próprio trabalho extra. Quem vende alimentos, por exemplo, precisa descontar ingredientes, embalagens, transporte e outras despesas antes de calcular quanto realmente ganhou.

Outra precaução é evitar assumir compromissos financeiros fixos com base em receitas que não são garantidas. Dessa forma, um mês com menos encomendas ou oportunidades de trabalho não compromete automaticamente o pagamento das contas essenciais.

A organização financeira, no entanto, não elimina as dificuldades de quem recebe uma remuneração insuficiente para cobrir as necessidades básicas. Para essas famílias, ampliar a renda muitas vezes deixa de ser uma escolha e passa a representar uma necessidade.

O crescimento da chamada economia dos bicos revela justamente esse contraste: enquanto as atividades extras podem abrir oportunidades de empreendedorismo e desenvolvimento profissional, também mostram como parte dos trabalhadores precisa ampliar a própria jornada para conseguir manter o orçamento.

Entre bolos preparados por encomenda, turnos em bares e serviços realizados fora do expediente, a busca por renda extra ganha diferentes formas, mas carrega um objetivo comum: fazer o dinheiro chegar até o fim do mês.

Metodologia

Realizada pelo Instituto Cidades Sustentáveis (ICS), em parceria com a Ipsos-Ipec, a pesquisa ouviu 3.500 internautas com 16 anos ou mais em dez capitais brasileiras: Goiânia, São Paulo, Rio de Janeiro, Belo Horizonte, Salvador, Recife, Fortaleza, Belém, Manaus e Porto Alegre. O levantamento mostra que a busca por fontes alternativas de renda é ainda mais frequente entre as famílias de baixa renda.

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