O que a perícia no celular de Vorcaro descobriu e por que isso pode afetar o Caso Master? Entenda
Laudo contratado pela defesa aponta arquivos com datas posteriores à apreensão do aparelho e falhas na documentação dos dados. Perito pede acesso ao material original para verificar a integridade das provas, mas não comprova adulteração deliberada.

A perícia contratada pela defesa de Daniel Vorcaro, fundador do Banco Master, identificou inconsistências nos arquivos extraídos do celular do ex-banqueiro e apontou falhas na documentação dos procedimentos de apreensão e análise do aparelho. O laudo, entregue em 26 de outubro, questiona se o material disponibilizado à defesa permite verificar a integridade e a totalidade dos dados utilizados nas investigações.
Entre os principais pontos levantados estão registros de criação e modificação de arquivos em datas posteriores à apreensão do celular, lacunas na documentação da cadeia de custódia e a falta de acesso aos arquivos brutos gerados pela extração forense.
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O documento foi elaborado pelo perito Marcos Monteiro, contratado pelos advogados de Vorcaro, e analisou um HD com arquivos fornecidos pelo Supremo Tribunal Federal (STF).
As conclusões podem abrir uma nova frente de questionamentos jurídicos no Caso Master, especialmente sobre a confiabilidade dos dados digitais e a possibilidade de a defesa verificar de forma independente o material utilizado nas investigações.
O laudo, porém, não comprova que houve adulteração deliberada das provas. O próprio perito afirma que os registros encontrados não permitem determinar se as alterações decorreram de intervenção humana ou de outros processos técnicos.
Perícia identifica arquivos modificados depois da apreensão
Um dos principais pontos do relatório é a existência de arquivos com registros de modificação posteriores à apreensão do celular de Vorcaro.
- Segundo o documento, foram identificados 657 arquivos com registros de modificação em 18 de novembro de 2025.
- Outros 999 arquivos apresentaram datas de modificação entre 18 de novembro de 2025 e 14 de maio de 2026.
- A análise também identificou 436 imagens com datas de modificação posteriores à apreensão, dentro de um conjunto de 2.151.257 arquivos de imagem.
- O perito apontou ainda 94 imagens no formato HEIC com registros de criação posteriores à apreensão do aparelho.
Os números, isoladamente, não demonstram que o conteúdo das imagens ou dos demais arquivos tenha sido adulterado. Para estabelecer o que ocorreu, seria necessário esclarecer a origem dos registros temporais e verificar os arquivos originais.
O laudo afirma que, sem informações técnicas adicionais, não é possível classificar essas alterações como resultado de uma ação humana deliberada, mas também não seria possível concluir que foram modificações automáticas e inofensivas.
A distinção é importante porque a data de criação ou modificação de um arquivo não comprova, por si só, que seu conteúdo tenha sido alterado de maneira fraudulenta.
Defesa questiona cadeia de custódia e acesso a dados do celular
A perícia contratada pela defesa de Daniel Vorcaro aponta possíveis falhas na cadeia de custódia do celular do ex-banqueiro. Segundo o laudo, o termo de apreensão não registra informações como números de série, IMEI, estado dos aparelhos e detalhes dos lacres utilizados. O documento também questiona a falta de registros sobre o armazenamento dos dispositivos e o rompimento dos lacres.
Outro ponto levantado é que as imagens usadas para identificar um iPhone 17 Pro e um iPad Pro aparentam ser iguais, o que, na avaliação do perito, dificulta a identificação individual dos equipamentos. As alegações, porém, precisam ser confrontadas com os registros oficiais para determinar se houve irregularidades capazes de comprometer as provas.
A defesa também pede acesso aos arquivos brutos da extração do celular, aos registros técnicos e aos logs do software GrayKey, utilizado pela Polícia Federal (PF). O objetivo é comparar o material original com os arquivos disponibilizados e verificar se houve divergências relevantes.
Perito demonstra possibilidade de alteração em arquivo
No laudo, o perito relata um teste em que modificou uma mensagem em um arquivo chamado report.xml, associado a um relatório UFDR. Segundo ele, o conteúdo alterado apareceu no software de análise sem sinais evidentes de modificação em uma verificação superficial.
O experimento busca demonstrar que arquivos desse tipo podem ser editados. Isso, entretanto, não comprova que os dados do celular de Vorcaro tenham sido adulterados. A defesa ainda precisa esclarecer se as inconsistências identificadas ocorreram no material utilizado na investigação.
O que pode mudar no Caso Master?
Se forem confirmadas falhas relevantes na preservação ou na integridade dos dados, a defesa poderá solicitar esclarecimentos, novas perícias ou questionar o uso de provas específicas. Isso não significa que toda a investigação será comprometida: cada elemento deverá ser avaliado individualmente, considerando sua relevância e a existência de outras provas.
O caso envolve suspeitas de fraude em operações de R$ 17,5 bilhões em créditos do Banco Master vendidos ao Banco de Brasília (BRB). Em 28 de outubro, a PF indiciou Vorcaro, o ex-presidente do BRB Paulo Henrique Costa e outras 13 pessoas. O indiciamento não equivale a uma condenação.
O que acontece agora?
A defesa busca acesso integral aos dados originais e à documentação técnica da extração para permitir uma análise independente. Até que os questionamentos sejam verificados, o laudo representa as conclusões do perito contratado pelos advogados, e não uma comprovação de fraude na investigação.


