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Diácono interrompe gritos por políticos em missa na Barbalha

O diácono permanente Rafhael Hernandez interrompe, neste domingo (31), gritos a favor de políticos dentro da Igreja Matriz de Barbalha, no Cariri cearense. A reprimenda ocorre ao fim da Missa de Santo Antônio e expõe, em pleno altar, a disputa eleitoral que opõe governo e oposição no Ceará em 2026.

Tensão política irrompe em meio à celebração religiosa

A cena acontece no fim da celebração mais tradicional do município, que reúne milhares de fiéis todos os anos. Após a bênção final, parte do público começa a entoar, em coro, nomes de lideranças como o governador Elmano de Freitas (PT), o senador Camilo Santana (PT) e o ex-ministro Ciro Gomes (PSDB). O ambiente, até então marcado por cantos religiosos, se transforma em arena de torcida eleitoral.

Hernandez reage em voz alta, de microfone em mãos, diante da nave lotada. “Povo de Deus, vocês não estão em casa, vocês estão na casa de Deus. Casa de Deus é a casa de Deus. Igreja não é lugar para politicagem”, afirma, sob silêncio crescente dos bancos. O pedido de cessar os gritos vem em seguida, direto: “Peço em nome da Igreja, cesse, por favor. Respeito a Deus acima de tudo, de todos e de qualquer homem”.

O episódio marca o ponto mais evidente da tensão que atravessa o Ceará às vésperas das eleições de 2026. Em lados opostos, dois projetos se enfrentam: de um lado, Elmano de Freitas busca a reeleição com apoio do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e do senador Cid Gomes (PSB). Do outro, Ciro Gomes tenta voltar ao centro da disputa estadual com o respaldo do União Brasil e, mais recentemente, do PL.

A missa reúne parte expressiva desses grupos. No bloco governista, estão a vice-governadora Jade Romero (PT), o ministro das Relações Institucionais, José Guimarães (PT), deputados federais como Eduardo Bismarck (PV) e Eunício Oliveira (MDB), além de parlamentares estaduais do PT e do PSB. Participam também o presidente da Assembleia Legislativa, Romeu Aldigueri (PSB), e prefeitos como Guilherme Saraiva (PT), de Barbalha, e Janaína Farias (PT), de Crateús.

À direita do altar, em um banco destacado, se acomoda a ala de oposição. Estão ali o ex-prefeito de Fortaleza Roberto Cláudio (União Brasil), o ex-deputado Capitão Wagner (União Brasil), a deputada estadual Emilia Pessoa (PSDB), o deputado estadual Carmelo Neto (PL), a vereadora de Fortaleza Bella Carmelo (PL), o presidente da Câmara Municipal de Juazeiro do Norte, Felipe Vasques (PSDB), e o ex-prefeito de Barbalha Argemiro Sampaio (PSDB).

Disputa de 2026 invade espaços de fé

A divisão física entre as comitivas ajuda a traduzir o racha político que se aprofunda desde 2022, quando o rompimento entre PT e PDT opõe, de um lado, Cid Gomes, e de outro, o irmão Ciro. Desde então, trocas de acusações e ataques públicos se tornam rotina, inclusive em redes sociais e eventos partidários. Em 2026, esse conflito se consolida nas urnas, com Cid esperado pelos aliados para disputar novamente o Senado na chapa governista e Ciro assumindo a cabeça de chapa da oposição ao governo estadual.

Quando o coro com nomes de políticos ganha força dentro da igreja, a linha entre devoção e disputa de poder se desfaz. A reação do diácono funciona como freio imediato a uma escalada que, segundo religiosos, ameaça transformar um momento de fé em ato de campanha antecipada. A mensagem alcança tanto governistas quanto oposicionistas, sem distinção. Ao insistir que “Igreja não é lugar para politicagem”, Hernandez sinaliza desconforto com a presença ostensiva de palanques informais em rituais católicos.

Lideranças religiosas ouvidas após o episódio veem na cena um alerta. A preocupação é que missas, romarias e festas de padroeiro, que mobilizam cidades inteiras no interior do Ceará, passem a ser usadas como vitrines de candidatos e legendas. Em anos recentes, a presença de autoridades em celebrações católicas aumenta, assim como o volume de imagens postadas em redes sociais com padres, bispos e ícones religiosos.

No Cariri, região que reúne pouco mais de 1 milhão de habitantes e concentra municípios como Juazeiro do Norte, Crato e Barbalha, a fé católica se mistura há décadas com a política local. A Romaria de Padre Cícero, em Juazeiro, já se torna palco para discursos e aparições de candidatos desde pelo menos os anos 1990. A diferença agora, apontam analistas, está na intensidade da polarização, que divide até famílias e comunidades paroquiais.

O choque registrado dentro da Matriz de Barbalha também evidencia o cálculo das campanhas para 2026. Com um eleitorado de mais de 6,8 milhões de pessoas no Ceará, segundo dados de 2024 da Justiça Eleitoral, cada gesto público em espaços de grande apelo simbólico entra no radar de marqueteiros e assessores. A presença simultânea de figuras como Elmano, Camilo, Ciro e Roberto Cláudio numa mesma missa ilustra o peso eleitoral do evento religioso.

Igreja, campanha e o que está em jogo até 2026

A reação de Rafhael Hernandez tende a fortalecer, dentro da Igreja Católica no Ceará, a defesa de limites mais claros entre liturgia e campanha. Bispos e padres ouvidos reservadamente consideram que episódios como o deste domingo aceleram discussões internas sobre orientações mais rígidas a paróquias, sobretudo em festas que atraem políticos de diferentes legendas. A pauta inclui desde o uso de púlpitos para cumprimentos protocolares até o registro de imagens dentro dos templos para fins eleitorais.

Para o governo estadual, a exposição de aliados ao constrangimento público em Barbalha obriga um ajuste de rota. A equipe de Elmano de Freitas precisa equilibrar presença em agendas religiosas de massa com o risco de nova reação negativa de religiosos e fiéis. A oposição, ancorada na figura de Ciro Gomes e em partidos como União Brasil, PSDB e PL, também se vê pressionada a calibrar aparições em igrejas, sob pena de alimentar o discurso de que instrumentaliza a fé.

Na prática, o episódio cria um campo de disputa adicional: o da narrativa moral. Quem conseguir se apresentar como mais respeitoso aos espaços de culto pode ganhar vantagem simbólica num estado em que mais de 70% da população se declara cristã, segundo levantamentos recentes do IBGE. A postura de padres, diáconos e bispos, até aqui discreta em relação a candidatos específicos, pode ganhar maior peso nos próximos meses, ainda que de forma indireta.

A festa de Santo Antônio em Barbalha abre, todos os anos, o calendário de grandes eventos religiosos do segundo semestre no Cariri. Em 2026, essa agenda se sobrepõe à escalada da campanha, que entra em sua fase mais aguda a partir de agosto, quando o calendário eleitoral permite comícios e propaganda mais intensa. O que acontece dentro da Matriz, na manhã de 31 de maio, funciona como ensaio do que pode se repetir em outras cidades, com diferentes protagonistas e plateias.

A resposta institucional da Igreja cearense, caso venha em forma de nota, orientação oficial ou silêncio calculado, deve sinalizar o tom dos próximos meses. A política, por sua vez, testa os limites entre presença legítima e exploração da fé. Até outubro de 2026, a pergunta permanece aberta: até onde a corrida pelo voto vai pressionar as fronteiras entre altar e palanque no Ceará?

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