Ultimas

Colômbia leva disputa entre extrema direita e esquerda a 2º turno

A Colômbia leva ao segundo turno, em 21 de junho de 2026, uma disputa aberta entre o advogado de extrema direita Abelardo de la Espriella e o senador governista Iván Cepeda. O embate opõe projetos antagônicos de segurança pública e de política social, após um primeiro turno apertado e marcado pela violência.

País dividido entre linha-dura e continuidade progressista

O advogado milionário Abelardo de la Espriella, 47, conhecido como “El Tigre”, lidera a corrida com 43,7% dos votos no primeiro turno, realizado neste domingo (31). O senador de esquerda Iván Cepeda, 63, aliado do presidente Gustavo Petro, vem logo atrás, com 40,9%, em uma virada sobre as pesquisas, que apontavam vantagem para o governista.

O resultado expõe o grau de polarização na Colômbia, que encara a pior onda de violência em dez anos. A campanha presidencial ocorre sob a sombra de carros-bomba, ataques com drones, o assassinato de um candidato em 2025 e ameaças a todos os presidenciáveis. É nesse ambiente que o país escolhe entre um programa de choque na segurança e a continuidade das reformas sociais iniciadas por Petro em 2022.

Em Barranquilla, sua base no Caribe, De la Espriella comemora a dianteira cercado por seguranças com escudos à prova de balas. Atrás de uma cápsula blindada, vestido com a camisa da seleção colombiana, ergue a voz para os apoiadores. “Aqui está o seu tigre que ruge e que morde! Vamos enfrentar, derrotar e castigar os inimigos da Colômbia”, grita. Em seguida promete: “Vamos mudar a história da Colômbia para sempre”.

Cepeda reage com cautela. Assim como o presidente Petro, questiona publicamente os resultados preliminares e diz que só comentará depois que as comissões de apuração “esclarecerem totalmente” os números. O sistema colombiano divulga uma contagem rápida logo no dia da votação, mas o resultado oficial depende da apuração definitiva, que costuma confirmar a tendência inicial.

Filho de um dirigente comunista assassinado por agentes estatais e paramilitares, Cepeda constrói sua trajetória como defensor de direitos humanos. Vota em um bairro popular de Bogotá, onde passou a infância antes do exílio na antiga Tchecoslováquia, na Bulgária e em Cuba. Mais cedo, ainda confiante nas pesquisas, afirma: “Vamos celebrar o segundo governo progressista na Colômbia”.

No interior café-cultor, a sensação é de incerteza. “Estamos nos extremos radicais. Que Deus nos proteja”, diz Gloria Terranova, 59, trabalhadora de uma fazenda de café. A frase resume o temor de uma parte do eleitorado diante do confronto entre um projeto de Estado mínimo e repressão máxima e a continuidade de uma agenda de inclusão social.

Segurança em choque com direitos humanos

De la Espriella se apresenta como outsider e promete virar a chave da política colombiana. Sem experiência em cargos públicos, já defende narcotraficantes e estrelas do futebol nos tribunais. Fã declarado de Donald Trump, adota discurso agressivo contra o que chama de “ameaça esquerdista” e tenta se diferenciar da direita tradicional, derrotada neste domingo.

Seu plano central é uma cruzada contra o crime organizado. O candidato propõe reduzir em 40% o tamanho do Estado para enfrentar a crise fiscal e atrair investimento privado. Fala em megapresídios, bombardeios intensificados e penas extremas para mafiosos. “Pena de morte ou prisão dez andares abaixo da terra”, promete em comícios, numa plataforma que desafia organismos de direitos humanos e o próprio acordo de paz com as Farc.

O advogado também promete extinguir o tribunal de justiça transicional criado a partir do acordo de paz de 2016, marco que encerra meio século de conflito com a principal guerrilha do país. A medida é vista por críticos como risco direto à reparação das vítimas e à responsabilização de agressores estatais e insurgentes.

Entre seus eleitores, o discurso duro encontra terreno fértil em meio à escalada de ataques armados. Nos colégios eleitorais, muitos vestem a camisa amarela da seleção, ecoando o apelo patriótico de “El Tigre”. “Vejo nele um homem decidido, de personalidade. A segurança é o que precisamos neste momento”, afirma Kelly Mayorga, 43, vendedora de flores em Bogotá.

Cepeda trilha o caminho oposto. Como um dos arquitetos da política de “Paz Total” de Petro, defende a retomada das negociações com grupos armados que permaneceram ativos após o acordo com as Farc. O projeto busca desarmar guerrilhas remanescentes, dissidências e organizações criminosas por meio de conversas e concessões graduais, estratégia que enfrenta resistência de setores conservadores e enfrenta resultados limitados até agora.

O senador promete aprofundar reformas sociais vistas como âncora do governo Petro: ampliação de programas de renda básica, defesa de comunidades indígenas e camponesas, proteção ambiental e revisão do modelo extrativista. Seu foco declarado é nos “excluídos” de um dos países mais desiguais do mundo, onde a renda se concentra em poucos grupos urbanos e a violência atinge com mais força áreas rurais e periferias.

A oposição o acusa de ingenuidade diante do crime organizado e o responsabiliza pelo avanço da violência recente. Críticos afirmam que a “Paz Total” dá espaço político a grupos armados sem resultado proporcional na redução de ataques, o que alimenta o discurso de De la Espriella de que apenas a força bruta conterá a criminalidade.

Alianças, incertezas e o peso do segundo turno

O apoio da direita tradicional a De la Espriella redesenha o mapa eleitoral para 21 de junho. A senadora Paloma Valencia, afilhada política do ex-presidente Álvaro Uribe, termina o primeiro turno em terceiro lugar, com 6,9% dos votos. Horas depois da divulgação parcial dos resultados, declara apoio explícito ao advogado. “Continuarei nesta batalha para derrotar Iván Cepeda”, afirma.

O endosso é considerado decisivo por analistas, porque aproxima o outsider de estruturas partidárias e redes locais que ainda pesam nas eleições colombianas. “É um resultado surpreendente, um resultado inesperado. As pesquisas sugeriam que seria o contrário”, avalia Felipe Botero, diretor de Ciência Política e Estudos Globais da Universidade dos Andes. Para ele, De la Espriella “coloca Cepeda em dificuldades porque ele contava com a possibilidade de avançar na liderança”.

Na sede de campanha de Cepeda em Bogotá, o segundo lugar causa abatimento. Militantes ligados a movimentos indígenas, camponeses e ambientais deixam o comitê em silêncio após a contagem preliminar. “Sim, é uma frustração”, resume Andrés Alba, 42, funcionário de uma cafeteria na capital.

O presidente Petro, impedido de disputar a reeleição, entra de vez no papel de cabo eleitoral. Ex-guerrilheiro que assina a paz em 1990, ele chega ao fim do mandato em conflito aberto com Congresso, tribunais, Procuradoria-Geral e Banco Central. A eleição vira, na prática, um plebiscito sobre sua gestão e sobre a possibilidade de um segundo governo progressista seguido.

Uma vitória de De la Espriella tende a realinhar o país com a direita regional, endurecer a legislação penal e revisar políticas de direitos humanos, com impacto direto em negociações de paz e em acordos internacionais. A chegada de Cepeda à Presidência, por outro lado, significaria mais quatro anos de reformas sociais e da tentativa de negociação com grupos armados, num cenário de resistência institucional e desgaste político acumulado.

O país entra agora em três semanas de campanha curta, sem a tradição de debates televisivos robustos, que os principais candidatos já evitam no primeiro turno. Em meio à escalada de atentados e ameaças, a segurança dos dois postulantes se torna prioridade máxima das autoridades eleitorais. Resta saber se, em 21 de junho, as urnas trarão um mandato para o punho de ferro prometido por “El Tigre” ou para a insistência de Cepeda em negociar com um país ainda em guerra consigo mesmo.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *