Esportes

Corre RS leva cinco comunicadores à Maratona de Porto Alegre

Cinco comunicadores do Grupo RBS encaram, neste fim de semana, a 41ª Maratona Internacional de Porto Alegre. A preparação, exibida no projeto Corre RS, transforma rotina, corpo e cabeça diante das câmeras.

Da tela para a rua: quando a maratona vira história pessoal

As ruas de Porto Alegre recebem, neste fim de maio de 2026, milhares de corredores para a tradicional prova que chega à 41ª edição. Entre anônimos e atletas de elite, sobressaem rostos bem conhecidos dos gaúchos: Cristina Ranzolin, Marco Matos, Mateus Trindade, Arildo Palermo e o comunicador da Atlântida Gordo Léo. O quinteto troca bancada, microfone e estúdio por tênis, relógio de treino e quilometragem acumulada ao longo de semanas.

A jornada começa meses antes, longe do glamour da transmissão ao vivo. O Globo Esporte lança o projeto Corre RS com um objetivo simples e exigente ao mesmo tempo: acompanhar, com transparência, o processo de preparação de cinco comunicadores até a largada na capital gaúcha. Não se trata de buscar índice, recorde ou pódio, mas de expor a rotina real de quem equilibra reportagem, viagens, plantões e família com treinos de madrugada, mudanças de alimentação e consultas médicas.

Cada personagem chega à pista com uma história distinta. Cristina, ícone do Jornal do Almoço, lida com uma hérnia de disco que a obriga a pisar com cuidado. Marco, também apresentador do telejornal, tenta conciliar as longas jornadas de estúdio com a construção gradual de resistência. Os repórteres Mateus Trindade e Arildo Palermo, acostumados a contar histórias de atletas, agora ocupam o outro lado da câmera. Já Gordo Léo encara não só a corrida, mas a própria balança e um processo radical de mudança de hábitos.

O resultado aparece na televisão em episódios curtos, exibidos ao longo de semanas no Globo Esporte. Nos bastidores, porém, cada quilômetro cobra renúncias concretas. Em um dos relatos mais fortes, Gordo Léo resume o tamanho da virada que vive desde novembro do ano anterior. “Perdi quase 50 quilos em nove meses. Foi praticamente uma pessoa que tirei de dentro de mim”, conta, com bom humor e alívio, enquanto descreve a volta à academia depois de quase uma década afastado.

Autoconhecimento, ritmo próprio e uma cidade como cenário

O projeto ganha força justamente porque não edita o esforço. Nas cenas exibidas na RBS TV, aparecem suor, frustração e pequenas vitórias, sempre ancoradas na ideia de que a corrida serve como ferramenta de autoconhecimento. Mateus Trindade, repórter esportivo acostumado a cobrir jogos em sequência, admite que o desafio não está apenas na planilha. “Foi preciso vencer a própria cabeça para treinar e conciliar as longas distâncias com a rotina cheia de viagens e horários imprevisíveis”, relata.

Ele descreve a armadilha da comparação nas redes sociais e o efeito que isso tem sobre quem está começando. “Antes, eu corria rápido demais, me comparava com corredores das redes sociais e acabava frustrado. Quando passei a respeitar meu tempo, tudo ficou mais leve”, afirma. A mudança de mentalidade altera também a forma como ele enxerga a própria profissão. Ao entender que “só vale a pena se comparar consigo mesmo”, o repórter leva para a maratona a mesma disciplina que aplica na cobertura diária.

Arildo Palermo, que volta a treinar com mais constância desde dezembro, reforça o poder simbólico da corrida no cotidiano. “Nunca vi ninguém voltar triste de uma corrida. A gente volta cansado, claro, mas feliz e satisfeito”, diz. Aos 4h da manhã, enquanto a cidade ainda acorda, ele já está na rua. A decisão de parar de beber, reorganizar o sono e encaixar os treinos na agenda rende efeitos práticos: mais concentração no trabalho, mais energia nas pautas, mais disposição para lidar com o improviso típico da reportagem.

A relação com Porto Alegre aparece como personagem silencioso dessa história. As imagens exibidas no Corre RS percorrem orla, parques e ruas históricas, em um roteiro que reforça o vínculo afetivo dos comunicadores com a capital. Para Arildo, correr pela cidade onde nasceu e trabalha cria uma camada extra de motivação. A maratona deixa de ser apenas uma prova de 42 quilômetros e se transforma em um passeio intenso pela própria biografia, em passos medidos por tempo e batimentos cardíacos.

Cristina Ranzolin, uma das figuras mais reconhecidas da TV gaúcha, encara o desafio com a serenidade de quem já conhece bem o corpo. Ela gosta de correr, mas não esconde a preferência pelos treinos em relação às provas cheias. Na preparação para a maratona, a hérnia de disco cobra sua conta. “Quando tentei apertar um pouco o ritmo, precisei parar. Só retomei agora”, relata. A dúvida sobre como o corpo vai reagir na largada se mistura ao desejo de manter a disciplina que a acompanha há anos no jornalismo diário.

Marco Matos traduz o espírito do projeto ao tratar o desafio como gesto de amor-próprio. Para ele, se colocar em situação de desconforto controlado muda a forma como se enxerga a própria capacidade. “Acho que se desafiar é um dos maiores atos de amor-próprio”, resume. Entre transmissões ao vivo e entradas de última hora, ele aprende que a constância, mais que a intensidade, é o que garante evolução. Respeitar o próprio ritmo, diz, é o que permite chegar “mais inteiro” à linha de chegada.

Impacto fora da TV e o efeito multiplicador do exemplo

A aposta da RBS em transformar a preparação em série para TV e redes sociais vai além do entretenimento esportivo. O Corre RS funciona como vitrine de saúde pública em horário nobre. Ao mostrar, em blocos de poucos minutos, o passo a passo de pessoas conhecidas encarando treinos de 5, 10, 21 e 42 quilômetros, a emissora reforça mensagens simples e difíceis de aplicar: constância, disciplina e paciência.

Os depoimentos exibidos no Globo Esporte já produzem efeito mensurável nas redes dos próprios comunicadores. A cada episódio, chegam relatos de telespectadores que retomam caminhadas, marcam consulta médica ou voltam para a academia depois de anos parados. No caso de Gordo Léo, o impacto visual da perda de quase 50 quilos em nove meses vira gatilho para quem também enfrenta a balança. Ele resume o aprendizado em uma frase que ecoa entre iniciantes: “Ainda estou longe do ideal, mas muito melhor do que no começo do Corre RS”.

O projeto também reforça a identidade esportiva de Porto Alegre. A maratona, criada nos anos 1980, consolida-se como um dos eventos de rua mais tradicionais do país e estimula a economia local. Hotéis lotam, restaurantes estendem horários, lojas esportivas registram alta de vendas às vésperas da prova. A presença de comunicadores conhecidos amplia a exposição da corrida, atrai curiosos e ajuda a transformar espectadores em participantes, mesmo que a primeira meta seja apenas completar 5 quilômetros.

As histórias expostas na TV desmontam a ideia de que a corrida é território exclusivo de atletas de alto rendimento. Longe disso. Ao mostrar dores, tropeços, exames, alongamentos e treinos que não saem como o planejado, o Corre RS legitima o ritmo de quem começa tarde, trabalha em pé o dia inteiro ou carrega lesões acumuladas. Em tempos de excesso de imagens editadas e corpos perfeitos, ver um apresentador de telejornal admitir medo, cansaço e insegurança em rede aberta tem um peso específico.

Nesse contexto, o gesto de Gordo Léo ao encarar seus primeiros 5 quilômetros, o de Mateus ao encontrar o ritmo, o de Arildo ao acordar às 4h, o de Cristina ao respeitar a coluna e o de Marco ao valorizar o amor-próprio compõem uma espécie de manual prático de superação. Não há promessa de transformação instantânea. Há, sim, registro de processos lentos, marcados por dias de frio, chuva e preguiça. “Teve dia em que eu não queria treinar, mas, no fim, sempre valia a pena”, confidencia um dos participantes, reproduzindo o sentimento comum dos cinco.

Depois da linha de chegada, o que fica

O último episódio da série vai ao ar na próxima terça-feira, 2 de junho, no Globo Esporte, e encerra oficialmente a temporada do Corre RS na TV. Na prática, porém, a jornada dos cinco comunicadores está longe de terminar. Eles chegam ao fim de maio com um acúmulo de quilômetros que não se mede apenas em planilhas. A largada da maratona simboliza o fechamento de um ciclo de preparação e o início de outro, em que a manutenção dos hábitos saudáveis será o verdadeiro teste.

Gordo Léo já fala em novos objetivos, agora mirando distâncias maiores. “Hoje estou treinando para os 21km e isso ainda dá um frio na barriga, mas é um desafio muito gostoso”, diz. A meta, compartilhada com a endocrinologista e com os professores de academia, projeta pelo menos mais alguns meses de disciplina. Em paralelo, Cristina avalia como o corpo reage à prova e decide, com orientação médica, de que forma seguirá correndo sem agravar a hérnia. Marco, Mateus e Arildo observam o comportamento da audiência para entender até que ponto o exemplo deles pode render desdobramentos em novos projetos editoriais.

A 41ª Maratona Internacional de Porto Alegre termina em algumas horas, mas deixa rastros que atravessam o fim de semana. Nas ruas, quem corre pela primeira vez descobre que completar 5 ou 10 quilômetros pode significar muito mais do que um tempo registrado no relógio. Na tela, o público acompanha comunicadores conhecidos em situações de vulnerabilidade física e emocional, algo raro em tempos de imagens milimetricamente controladas.

A pergunta que fica, depois da linha de chegada e do último episódio da série, é simples e incômoda: quantas pessoas vão transformar a inspiração do Corre RS em prática diária, longe das câmeras, quando o barulho da maratona se dissolver e Porto Alegre voltar ao ritmo de uma segunda-feira comum?

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