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Recontagem no Ceará tira mandato de Dayany e efetiva Priscila Costa

O Tribunal Regional Eleitoral do Ceará reconta, nesta sexta-feira (29), os votos da eleição de 2022 para deputado federal e muda a bancada do Estado em Brasília. A vereadora Priscila Costa (PL) é efetivada deputada federal, enquanto Dayany Bittencourt (União) perde o mandato após a anulação dos votos de Heitor Freire pelo TSE.

Decisão judicial redesenha bancada cearense

A retotalização ocorre por ordem do Tribunal Superior Eleitoral, que em 21 de maio anula todos os votos de Heitor Freire por captação ilegal e gastos irregulares na campanha de 2022. O ex-parlamentar, hoje no Podemos, integrava a chapa do União Brasil como suplente, o que força a Justiça Eleitoral a refazer o cálculo das vagas proporcionais no Ceará.

No plenário do TRE-CE, em Fortaleza, a nova conta confirma o que a articulação política já tratava como certo: Priscila Costa deixa o posto de suplente e passa a ocupar de forma definitiva uma cadeira na Câmara dos Deputados. Dayany Bittencourt, eleita com 54.526 votos nas chamadas sobras, é afastada do mandato menos de cinco meses antes do início oficial da campanha municipal de 2026.

A sessão marca o desfecho de um processo que corre há mais de três anos e meio desde o pleito de outubro de 2022. A decisão do TSE, ao mirar irregularidades na prestação de contas de Freire, atinge em cheio a composição da bancada cearense e reabre o debate sobre o peso das punições eleitorais em eleições proporcionais.

Responsável pela condução da retotalização, o desembargador Emanuel Leite Albuquerque, corregedor e vice-presidente do TRE-CE, coordena o procedimento técnico no início da tarde. O cálculo usa o Sistema de Gerenciamento da Totalização (SISOT), o mesmo software lacrado e empregado na apuração oficial das eleições de 2022, agora alimentado com o novo cenário de candidaturas válidas.

Como a recontagem muda o tabuleiro político

A exclusão dos votos de Heitor Freire altera o quociente eleitoral e a distribuição das vagas entre os partidos que disputam a Câmara. Sem a contribuição do então suplente do União Brasil, a legenda perde força na divisão das sobras, e a configuração da chapa abre espaço para a entrada de Priscila Costa, do PL, em detrimento de Dayany.

Na prática, a mudança fortalece a presença bolsonarista na bancada federal do Ceará e reforça o protagonismo do PL no Estado. Priscila já exerce mandato como vereadora de Fortaleza e, em 2024, torna-se, segundo ela própria, “percentualmente a mulher mais votada do Brasil” para o cargo, o que a projeta como um dos principais nomes da direita cearense.

Ao deixar o plenário do TRE-CE, a nova deputada fala em recompensa política e em compromisso com o eleitorado. “Recebo essa notícia com grande alegria”, afirma. “Na minha vida política, o Ceará só me deu alegria. Em 2024, Fortaleza foi tão generosa comigo que no pleito para vereadora me tornou percentualmente a mulher mais votada do Brasil.”

Ela vincula a titularidade do mandato a um projeto mais ambicioso. “Meu desejo é chegar em Brasília e devolver isso como gratidão. Devolver todo o meu trabalho, todo o meu compromisso com os meus valores, com os meus princípios e, principalmente, pelo meu Ceará. Quero fazer valer o meu trabalho e a minha luta, todo o meu esforço”, diz. Em seguida, admite que a nova posição na Câmara é um “grande fortalecimento” para sua pré-candidatura ao Senado Federal.

A retotalização ocorre sob olhar atento de representantes partidários e da advocacia. Acompanham o procedimento o advogado Pedro Teixeira Cavalcante Neto, pelo PL, a advogada Clara Rachel Feitosa Petrola, pela presidência da OAB-CE, e o deputado federal André Fernandes, presidente estadual do PL. A presença do grupo evidencia o interesse direto da sigla em consolidar uma voz alinhada à direita religiosa e conservadora no Congresso.

O SISOT executa todas as etapas de forma automatizada: atualização do registro de candidaturas, processamento dos arquivos oficiais, nova totalização e emissão dos relatórios. Os documentos são anexados ao processo da eleição de 2022, desarquivado especificamente para permitir a recontagem. O TRE-CE anuncia o resultado ao final da sessão plenária, na própria sede da Justiça Eleitoral.

Mandato perdido, acusações de violência política e incertezas

Do outro lado, Dayany Bittencourt reage com indignação e classifica a decisão como violência política de gênero. Ela destaca que não é alvo de investigação eleitoral e que perde a cadeira por um ato atribuído a outro candidato da coligação. “Tiraram o meu mandato. Parece mentira, mas infelizmente é verdade. Depois de três anos e meio da eleição, a Justiça Eleitoral resolveu fazer uma recontagem de votos que vai me tirar da cadeira de deputada. Isso é violência política de gênero”, desabafa.

A ex-deputada enfatiza que não responde a nenhuma acusação. “Dói muito. Dói porque eu não fui acusada de nada. Dói porque eu não cometi nenhum erro”, afirma. O discurso ecoa em setores do União Brasil e se soma à narrativa de perseguição política construída por seu marido, o ex-deputado federal Capitão Wagner, uma das principais lideranças da oposição ao grupo governista no Ceará.

Wagner vê na decisão uma tentativa de enfraquecê-lo. Para ele, o desfecho é “perseguição política” e busca atingir sua trajetória porque, segundo diz, “nunca se rendeu ao sistema”. A interpretação amplia o alcance do caso para além das fronteiras jurídicas e insere a disputa no ambiente de polarização que marca as eleições locais desde 2022.

A discussão sobre violência política de gênero, por sua vez, ganha novo episódio. Embora a decisão do TSE tenha foco em irregularidades financeiras de campanha, a saída de uma mulher do Parlamento em razão de uma condenação que não a envolve diretamente abre espaço para questionamentos sobre como as regras eleitorais impactam candidaturas femininas em chapas coletivas.

O episódio reforça, também, o papel da fiscalização rigorosa em campanhas e o risco de efeitos colaterais sobre terceiros. A condenação de Heitor Freire, que atinge o mandato de Dayany, exemplifica como um erro individual em prestações de contas pode custar caro à formação inteira de uma bancada, anos depois da eleição e às vésperas de um novo ciclo eleitoral.

Repercussão em ano pré-eleitoral e próximos passos

A mudança na bancada ocorre em um momento de aquecimento das articulações para 2026 e mexe no equilíbrio entre governo e oposição no Ceará. O PL ganha fôlego com uma deputada alinhada ao projeto nacional do partido e disposta a usar a visibilidade em Brasília para turbinar uma possível candidatura ao Senado. O União Brasil, por sua vez, perde espaço e vê uma de suas principais representantes sair de cena sob protesto.

O caso tende a alimentar debates sobre transparência, ética eleitoral e o tempo de resposta da Justiça. A demora de mais de três anos entre a eleição e a recontagem alimenta críticas sobre segurança jurídica e previsibilidade para candidatos e eleitores. Ao mesmo tempo, a confirmação da punição sinaliza que irregularidades financeiras, mesmo de suplentes, podem redesenhar o mapa político estadual.

Em Brasília, a Mesa Diretora da Câmara deve apenas formalizar a nova composição da bancada cearense e ajustar a distribuição interna de comissões e espaços de liderança. Em Fortaleza, partidos calculam os efeitos da saída de Dayany e da ascensão de Priscila sobre alianças locais, especialmente nas negociações para chapas proporcionais e majoritárias em 2026.

A disputa jurídica em torno da decisão ainda pode render recursos e manifestações políticas, mas a recontagem anunciada pelo TRE-CE produz um fato consumado no curto prazo: o eleitor cearense verá um novo rosto representar o Estado na Câmara. Resta saber se a virada tardia no resultado de 2022 será lembrada como correção necessária ou como um ponto de fratura na confiança do eleitor nas regras do jogo.

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