Eleiçao na Colombia decide fôlego da esquerda e teste para Lula
Os colombianos vão às urnas neste domingo de 2026 para decidir quem comandará o país até 2030. A disputa opõe um herdeiro político de Gustavo Petro, uma direita tradicional em queda e um candidato de extrema direita em ascensão. O resultado redefine o peso da esquerda na América do Sul e serve de ensaio para a eleição brasileira de daqui a quatro meses.
Campanha sob violência e escolha entre segurança e negociação
A eleição acontece em um clima de pressão de segurança sem paralelo recente. Até o fim de abril, o Indepaz registra 49 massacres em 2026, com 205 mortos, o maior número em pelo menos dez anos. Nos dias anteriores à votação, ataques com drones e explosivos contra civis em áreas rurais, atribuídos às dissidências das Farc comandadas por Iván Mordisco, empurram o debate para um eixo rígido: segurança ou negociação.
O cenário obriga os candidatos a se definir diante da violência. Iván Cepeda, de 63 anos, senador e figura emblemática da esquerda, tenta manter vivo o projeto iniciado por Petro em 2022. Conhecido como herdeiro político do presidente dentro do Pacto Histórico, ele apresenta a própria biografia como prova de compromisso com direitos humanos e justiça. Filho de Manuel Cepeda Vargas, dirigente comunista assassinado em 9 de agosto de 1994 em crime envolvendo agentes do Estado e paramilitares, o candidato mistura trajetória pessoal e programa de governo.
Do outro lado do espectro, o advogado penalista Abelardo de la Espriella, o El Tigre, concentra o voto da extrema direita. Fundador de um grande escritório criminal, ele promete fim imediato das negociações com grupos armados, construção de megapresídios de segurança máxima, bombardeio de acampamentos guerrilheiros e uma aliança estreita com Estados Unidos e Israel no combate ao narcotráfico. “No meu governo, todo bandido que não se submeter à justiça será eliminado”, afirma, em tom de rompimento com a política de paz negociada dos últimos anos.
O contraste entre a retórica de lei e ordem e o histórico profissional do candidato é um dos pontos mais explorados na campanha. Sua carteira de clientes inclui ex-congressistas condenados por envolvimento com paramilitares, figuras centrais em escândalos de corrupção em contratos públicos e nomes ligados ao caso DMG, relacionado a esquemas financeiros ilegais. A revelação mais explosiva recai sobre sua atuação para Alex Saab, operador financeiro do chavismo: documentos tornados públicos a poucos dias da votação apontam mais de US$ 370 mil em transferências para contas ligadas ao seu escritório, entre 2013 e 2019, oriundas de empresas usadas por Saab em negócios ilícitos na Venezuela.
Na direita tradicional, a advogada e ex-docente universitária María Fernanda Valencia tenta resgatar o legado do ex-presidente Álvaro Uribe. Aos 48 anos, ela vence com folga as primárias da direita em 8 de março, mas não consegue transformar a vitória interna em tração nacional. As pesquisas mais recentes colocam Cepeda com 33,4%, De la Espriella com 30,9% e Valencia distante, com 12,6%, cenário que indica uma migração gradual do eleitorado conservador para o candidato independente de extrema direita.
Mapa da esquerda sul-americana em jogo
O que está em disputa vai além do controle do Palácio de Nariño entre 2026 e 2030. A vitória de Cepeda mantém dois dos três maiores PIBs da América do Sul sob governos de esquerda, ao lado do Brasil de Luiz Inácio Lula da Silva. Nesse caso, o eixo Brasília-Bogotá permanece como referência de articulação progressista regional, com impacto direto em temas como meio ambiente, política de drogas e integração energética.
Uma derrota da esquerda colombiana, com vitória de De la Espriella ou uma improvável arrancada de Valencia, redesenha o mapa. Lula permanece como último representante relevante desse campo na região, mais isolado em um momento em que se prepara para enfrentar a eleição mais dura desde seu retorno ao poder. Em Brasília, auxiliares reconhecem em privado que cada revés de aliados na América do Sul alimenta o discurso de adversários internos.
Entre eles, o senador Flávio Bolsonaro, do PL, repete em entrevistas que a “virada regional é inevitável” e que o Brasil “vai na direção errada” ao insistir em políticas de esquerda. Se Bogotá trocar de campo, o argumento ganha uma peça concreta: o fim de uma onda progressista que, em seu auge, incluiu Argentina, Chile, Colômbia, Bolívia e Peru, em graus diferentes.
Os números das pesquisas reforçam o caráter aberto da disputa. A diferença entre Cepeda e De la Espriella está dentro da margem de erro. Valencia tende a ficar fora do segundo turno, mas o destino de seus 12,6% é a principal incógnita. A candidata promete apoiar El Tigre se for eliminada. Líderes de centro como Sergio Fajardo e Claudia López afirmam que não subirão no palanque de Cepeda. Nenhuma dessas declarações, no entanto, garante transferência automática de votos.
O senador de esquerda depende de conquistar o eleitor de centro que desconfia tanto da radicalização da direita quanto do desempenho do governo Petro em temas como segurança e emprego. De la Espriella, por sua vez, tenta convencer o eleitorado urbano moderado de que sua agenda de confronto frontal com grupos armados não mergulhará o país em uma nova espiral de violência estatal.
Segundo turno, efeito Brasil e a pergunta sem resposta
A reta final da campanha já mira a segunda rodada, marcada para poucas semanas após a votação deste domingo. A negociação de alianças, apoios formais e gestos simbólicos entre primeiro e segundo turno tende a definir o desfecho real da eleição. Em um cenário de confronto entre Cepeda e De la Espriella, o comportamento dos eleitores de Valencia, Fajardo e Claudia López se torna decisivo para o equilíbrio de forças.
No Brasil, o Palácio do Planalto acompanha cada movimento. Uma vitória de Cepeda oferece a Lula uma vitrine externa em meio à própria batalha interna e reduz o isolamento da esquerda no continente. Um triunfo de De la Espriella, ou uma guinada conservadora mais ampla na Colômbia, fortalece o discurso da oposição bolsonarista de que o país está fora de sintonia com o resto da região.
A campanha colombiana também serve como alerta sobre os limites da agenda progressista em contextos de insegurança crescente. Os 49 massacres registrados até abril, os ataques com drones em áreas rurais e a atuação de dissidências armadas mostram um ambiente em que promessas de diálogo enfrentam desconfiança e medo. Candidatos brasileiros observam como o eleitor reage, na prática, a plataformas de segurança mais duras ou mais conciliadoras.
Depois da contagem de votos, Bogotá redesenha não só sua própria política, mas o tabuleiro sul-americano. O país escolhe se renova o mandato simbólico do ciclo de esquerda ou se antecipa a uma possível virada conservadora que pode chegar a Brasília em poucos meses. A pergunta que sobra, na Colômbia e no Brasil, é se a onda progressista ainda tem fôlego para atravessar mais uma eleição decisiva.
