Oceano Pacífico acende alerta para possível super El Niño em 2026
Uma gigantesca onda de água quente cruza o Pacífico equatorial desde maio e acende o alerta de cientistas da MetSul e da NOAA para um possível super El Niño ainda em 2026. A anomalia submarina, com até 8°C acima da média histórica, já encosta na costa do Peru e do Equador e começa a alterar o clima global.
Engrenagem ocêanica se move em silêncio desde o fundo do mar
No mapa silencioso do fundo do Pacífico, uma “piscina” de água excepcionalmente quente viaja há meses de Oeste para Leste, abaixo da superfície, na altura da linha do Equador. Essa massa é a chamada Onda Kelvin, uma corrente subsuperficial que, impulsionada por ventos, carrega calor acumulado perto da Indonésia rumo à América do Sul. Desta vez, os números fogem do padrão: em trechos entre a superfície e 500 metros, sensores registram até 8°C acima da média histórica, um desvio raro em um oceano que costuma esquentar devagar.
As análises da MetSul Meteorologia mostram, em cortes verticais de janeiro a abril de 2026, a evolução dessa língua de água superaquecida. Em janeiro, o núcleo quente ainda se concentra no Pacífico Oeste. Em fevereiro e março, a Onda Kelvin avança para o Centro do oceano. No fim de abril, a estrutura já quase toca a costa da América do Sul. No fim de maio, começa a emergir na superfície junto ao Peru e ao Equador, na mesma faixa equatorial que historicamente abriga os episódios mais intensos de El Niño.
A agência americana NOAA enxerga no padrão atual um eco direto de 1997, ano que antecede um dos El Niños mais fortes do século passado. Em maio de 1997, a anomalia da superfície do mar no Pacífico Centro-Leste, medida pelo índice ONI, era de +0,3°C, dentro da neutralidade. Hoje, na metade de maio de 2026, o mesmo setor já registra cerca de +0,9°C, um valor próximo da faixa limítrofe para El Niño fraco. Em 1997, o aquecimento acelera entre o fim de maio e junho, e a anomalia chega a +1,0°C no fim de junho. A dúvida entre pesquisadores não é mais se o oceano aquece, mas até onde irá.
Do vento à superfície: como a Onda Kelvin prepara o El Niño
O processo atual ganha força quando os ventos alísios, que costumam soprar de Leste para Oeste ao longo do Pacífico equatorial, enfraquecem de forma persistente. Em abril, um episódio intenso de “estouro de vento de Oeste” inverte temporariamente o padrão, empurrando as águas superficiais quentes do Pacífico Oeste em direção ao Centro e ao Leste. Ciclones tropicais na região reforçam esse empurrão, aprofundando e acelerando a Onda Kelvin que viaja nas profundezas.
À medida que essa massa superaquecida avança, ela empurra para baixo a termoclina, camada que separa a água quente de superfície da água fria de profundidade. Com a termoclina mais profunda perto da costa oeste da América do Sul, diminui a ressurgência de água fria que normalmente sobe do fundo para a superfície. O resultado é direto: o espelho d’água diante do Peru e do Equador começa a esquentar de forma anormal, criando o cenário clássico de El Niño no Pacífico Central e Leste.
O oceano altera a atmosfera logo em seguida. Zonas de tempestades tropicais, que costumam se concentrar mais a oeste, migram para áreas mais centrais do Pacífico. O ar sobe onde a água está mais quente, reorganiza nuvens, chuvas e ventos em larga escala e distorce a circulação atmosférica que, em anos normais, distribui a chuva sobre continentes inteiros. “Quando o Pacífico muda, o clima do planeta inteiro responde”, resume em análises públicas a meteorologista Estael Sias, sócia-diretora da MetSul.
O pano de fundo é um planeta mais quente. Oceanos globais batem recordes de temperatura há vários anos, impulsionados pelo aquecimento climático. Especialistas apontam que um El Niño forte agora não atua sobre um cenário neutro, mas sobre uma atmosfera já carregada de calor e umidade adicionais. Esse acoplamento aumenta a chance de extremos, de ondas de calor prolongadas a tempestades mais intensas.
Brasil entra na rota de secas, enchentes e perdas econômicas
O histórico de grandes El Niños serve como aviso. O episódio de 1997-1998 deixa um rastro de prejuízos globais de dezenas de bilhões de dólares, com enchentes devastadoras em alguns países e secas severas em outros. O super El Niño de 1877-1878 entra para os registros como um dos mais agressivos já observados, associado a crises alimentares e mortes em massa em diferentes regiões. O cenário de 2026 não repete necessariamente esses capítulos, mas reacende o temor de impactos sociais e econômicos amplos.
No Brasil, o padrão médio de resposta está bem documentado. No Norte, especialmente no Norte e Leste da Amazônia, El Niño costuma suprimir a chuva. A floresta entra em período mais seco e quente, o solo perde umidade e o fogo encontra combustível abundante. Queimadas e incêndios florestais, que aumentam em anos neutros, tendem a explodir em temporadas de El Niño intenso, pressionando sistemas de saúde com fumaça e episódios de ar irrespirável.
No Nordeste, a preocupação principal é a seca. Reduções acentuadas de precipitação em anos de El Niño forte levam a reservatórios baixos, racionamento em cidades médias e prejuízos pesados para a agricultura familiar e para grandes produtores. Seca em sequência, mesmo em poucos meses decisivos, pode comprometer safras de milho, feijão e algodão e provocar perdas multimilionárias para o agronegócio regional.
No Centro-Oeste, o efeito tende a ser mais difuso. Há episódios de chuva um pouco acima da média em algumas áreas, mas acompanhados de calor mais intenso, sobretudo entre o fim do inverno e a primavera. A combinação de calor extremo, baixa umidade relativa e manejo de pasto e lavoura favorece queimadas no Cerrado e no Pantanal, com impacto direto no turismo, na pecuária e em rodovias cobertas de fumaça.
No Sudeste, o sinal mais consistente é o aumento da temperatura média. Dias e noites mais quentes se tornam mais frequentes, ondas de calor ganham duração maior e pressionam o consumo de energia elétrica, com recordes de demanda em grandes capitais. O regime de chuva varia muito entre episódios de El Niño, o que mantém em aberto o risco tanto de estiagens localizadas quanto de temporais concentrados.
No Sul do país, o alerta é mais direto. Episódios de El Niño costumam elevar de forma clara o volume de chuva, em especial no inverno e na primavera do primeiro ano do fenômeno e no outono seguinte. Bacias hidrográficas ficam mais sensíveis, rios sobem rápido e enchentes se tornam mais prováveis em áreas urbanas e rurais. Ciclones extratropicais mais frequentes, alguns intensos, ampliam o potencial destrutivo de ventos e ressacas.
Monitoramento intensivo e incertezas sobre a força final do evento
Centros de monitoramento indicam hoje alta probabilidade de um El Niño de moderado a forte no segundo semestre de 2026, com chance não desprezível de um episódio muito forte. A comparação com 1997, feita por especialistas da NOAA, reforça essa leitura. Ao mesmo tempo, meteorologistas lembram que “nenhum El Niño é igual ao outro” e que fatores paralelos na atmosfera podem atenuar ou amplificar impactos regionais.
Governos estaduais e federal começam a receber alertas para planejamento de contingência. Reservatórios do Nordeste e do Sudeste entram no radar de gestores de água e energia, enquanto secretarias de agricultura avaliam o risco para safras de grãos, café e cana. Defesa Civil monitora áreas de encosta e várzeas no Sul, onde chuvas acima da média podem repetir o cenário de enchentes vistas em outros anos de El Niño forte.
As próximas semanas são decisivas para medir a intensidade do aquecimento no Pacífico Centro-Leste e o acoplamento com a atmosfera. Se a anomalia de temperatura de superfície cruzar com folga a faixa de +1,5°C e se mantiver até o verão, o mundo pode enfrentar um dos episódios mais fortes da história recente. A pergunta que move cientistas, governos e setores econômicos é se o país vai reagir à altura dos alertas ou assistir, mais uma vez, ao clima ditar sozinho o tamanho da conta.
