Gol, homenagem e disputa por Depay: a noite que muda Zakaria no Corinthians
Zakaria Labyad marca o primeiro gol pelo Corinthians e garante o 1 a 1 com o Peñarol, nesta quinta (21), em Montevidéu, pela Libertadores. O meia comemora com o gesto de Memphis Depay, amigo e padrinho de sua chegada ao clube, e entra de vez na disputa por espaço no time de Fernando Diniz.
De “amigo do Memphis” a protagonista em Montevidéu
O relógio marca 17 minutos do segundo tempo quando a bola sobra, limpa, na pequena área do estádio Campeón del Siglo. Pedro Raul para em Aguerre, o goleiro uruguaio, e a sobra encontra o pé direito de Zakaria. O marroquino não pensa, apenas finaliza. A rede balança, o Corinthians empata e assegura a liderança do Grupo E com uma rodada de antecedência.
Zakaria corre para o canto, leva as mãos às orelhas e fecha os olhos, gesto já familiar à torcida corintiana. A comemoração pertence a Memphis Depay, fora de combate há quase dois meses por lesão. O gol é do meia de 33 anos, mas o recado mira também o amigo e a diretoria.
O empate por 1 a 1 em Montevidéu, nesta quinta-feira, vale ao Corinthians a manutenção da primeira posição na chave e, sobretudo, insere Zakaria em um novo patamar dentro do elenco. Até aqui, ele vive à sombra de Depay, rotulado como “indicação do Memphis” desde a assinatura do contrato. A atuação contra o Peñarol marca o ponto de virada dessa narrativa.
Escalado pela primeira vez como titular desde que chegou ao clube, o meia-atacante responde com números e protagonismo. Cria quatro chances claras de gol, participa de outra jogada perigosa, acerta 90% dos passes e se oferece como linha de passe constante pelo lado esquerdo. Ao deixar o gramado, poucos minutos após o apito final, mistura alívio e frustração.
“Foi uma grande sensação marcar o gol do 1 a 1. Eu acho que deveríamos ter vencido o jogo”, afirma Zakaria, ainda no corredor que leva ao vestiário visitante. A leitura traduz o cenário. O Corinthians cumpre o objetivo matemático da noite, mas produz o suficiente para voltar ao Brasil com algo além de um ponto.
A construção de um novo nome no elenco de Diniz
A trajetória de Zakaria em São Paulo não começa com a mesma segurança vista agora em Montevidéu. Nos primeiros treinos no CT, ainda sob o comando de Dorival Júnior, o marroquino soa deslocado. Falta ritmo, sobram dúvidas sobre como encaixá-lo em um elenco já pesado no setor ofensivo. Ele participa de três dos seis jogos da equipe naquele período, um aproveitamento de 50% de presença, e em geral entra nos minutos finais.
A chegada de Fernando Diniz altera a equação. O treinador enxerga em Zakaria algo que valoriza desde os primeiros trabalhos de campo: versatilidade. O meia pode atuar aberto pelos lados, como faz diante do Peñarol, mas também centralizado na armação e até recuado como segundo volante, ajudando na saída de bola. Com Diniz, ele passa a ser relacionado em todas as 12 partidas em que está à disposição e entra em campo em oito delas, aumentando a taxa de participação para 66%.
O salto não se dá apenas por necessidade de elenco. Internamente, a avaliação é de evolução constante, sobretudo física. A cada semana, Zakaria parece mais leve, mais rápido, mais próximo da versão que atraiu Depay e o convenceu a interceder pela contratação. O desconforto no joelho direito, que o tira da viagem para enfrentar o Botafogo no último domingo, vira mais um ponto de interrogação que ele precisa apagar em Montevidéu.
Diante do Peñarol, a resposta vem já nos primeiros toques na bola. O marroquino se aproxima de Allan para organizar a saída, se junta a Matheus Pereira na criação e busca o lado esquerdo para oferecer amplitude ao ataque. Não se esconde quando o time erra, cobra escanteios, orienta a movimentação de Kaio César e André. Em um Corinthians misto, com apenas três titulares habituais em campo desde o início, a bola parece procurar o camisa marroquino.
O gol coroa a atuação e redefine o lugar de Zakaria na hierarquia de Diniz. O treinador, conhecido por alternar peças de meio e ataque conforme a dinâmica dos jogos, ganha um recurso com características específicas: experiência internacional, leitura rápida de espaços e execução simples, sem firulas. Aos 33 anos, o meia oferece algo que o Corinthians de 2026 passa a valorizar mais a cada mata-mata que se aproxima.
Depay em suspenso e o recado de dentro do vestiário
A homenagem na comemoração vai além do gesto reproduzido na pequena área uruguaia. Zakaria usa o microfone para reforçar o nome do amigo no momento em que a permanência de Depay no clube entra em zona de incerteza. O contrato do holandês termina em 20 de julho, e a lesão, que já o afasta há dois meses, adiciona cautela às conversas sobre renovação.
“Para o clube dar o próximo passo, acho que é muito importante que ele fique. Nós vemos o que ele fez nos últimos dois anos pelo clube, pelos jogadores, ganhando três troféus, ajudando-os a não serem rebaixados no fim da temporada. Eu acho que fez um grande trabalho pelo clube, pelo time. Para nós, jogadores, amaríamos se ele ficasse”, diz Zakaria, ainda em Montevidéu.
O discurso ressoa na diretoria e no vestiário. Depay é mais do que um titular técnico. Lidera um grupo que, em dois anos, atravessa uma luta contra o rebaixamento no Campeonato Brasileiro e levanta três taças, em um raro período de estabilidade competitiva recente. A dúvida sobre sua continuidade não é apenas financeira; é também esportiva e simbólica.
Zakaria, nesse contexto, ocupa um papel duplo. De um lado, se apresenta como alternativa confiável em campo, com desempenho que reduz a dependência imediata do holandês. De outro, atua como voz ativa a favor da permanência do amigo. A mensagem embutida na noite de Montevidéu é clara: o Corinthians consegue se reinventar em campo sem perder suas principais referências de grupo.
A liderança do Grupo E, garantida fora de casa, dá ao clube margem para planejar os confrontos de mata-mata com mais calma. Jogar o segundo duelo em casa, na Neo Química Arena, vira prioridade declarada pela comissão técnica. O gol de Zakaria vale posição na tabela, mas também mexe com a engenharia interna de minutos, escalações e negociações no Parque São Jorge.
Mais espaço, disputa por vaga e um futuro em aberto
A partir desta quinta, a tendência é clara: Zakaria passa a disputar titularidade real em jogos de maior peso. Diniz observa um meia que, em 90 minutos, entrega leitura tática, execução de bola parada, cruzamentos — foram nove na partida — e presença de área. O combo é raro em um elenco que, por vezes, sofre para conectar meio e ataque.
O impacto atinge também outros setores do elenco. Jogadores como Matheus Pereira, Rodrigo Garro e Jesse Lingard enxergam um novo concorrente direto em bom momento físico e técnico. A rotação de Diniz, que já distribui minutos para segurar um calendário apertado de Libertadores, Brasileiro e Copa do Brasil, ganha mais uma variável. Em um elenco com faixas salariais elevadas e pouco espaço para apostas longas, desempenho imediato pesa.
Para a torcida, o primeiro gol funciona como senha de identificação. O jogador que chega como “indicação do Depay” começa a ganhar canto próprio nas arquibancadas e espaço nas conversas de bar. O torcedor comum não fala em percentuais de posse ou mapas de calor, mas enxerga um meia que aparece para decidir um jogo de Libertadores fora de casa e não se esconde após o apito final.
O calendário oferece ao marroquino uma sequência de testes. O Corinthians volta a campo pela Libertadores na próxima quarta, na Neo Química Arena, e ainda tem pela frente duelos diretos no Brasileiro. Cada atuação de Zakaria entra na conta da comissão técnica quando a diretoria se senta para discutir renovação com Depay e ajustes pontuais no elenco para a janela do meio do ano.
A noite de Montevidéu não resolve todas as dúvidas, mas muda o ponto de partida. Zakaria deixa de ser coadjuvante importado e passa a peça relevante em um Corinthians que mira quartas de final de Libertadores, estabilidade no Brasileiro e, mais adiante, um desenho de time em que a permanência de Memphis Depay pode ser bônus, não dependência. A resposta definitiva virá nos próximos sessenta dias, na mesma medida em que a bola continuar, ou não, procurando o pé direito do marroquino em jogos grandes.
