Lula mantém apoio a Pacheco em MG mesmo após derrota de Messias
Lula decide manter o apoio à candidatura de Rodrigo Pacheco ao governo de Minas Gerais nas eleições de 2026, apesar da crise aberta pela rejeição de Jorge Messias ao Supremo Tribunal Federal. A orientação é passada a aliados em reuniões no Palácio do Alvorada, entre o fim de abril e o início de maio, em meio à montagem dos palanques estaduais para a disputa presidencial.
Líderes desconfiados, presidente pragmático
A derrota de Jorge Messias no Senado expõe rachaduras na base governista e alimenta a desconfiança de setores do PT em relação a Pacheco. O advogado-geral da União precisava de ao menos 41 votos para chegar ao STF e recebe apenas 34, em 29 de abril, num recado direto ao Palácio do Planalto. A leitura de parte do entorno de Lula é que Davi Alcolumbre articula a rejeição em retaliação ao fato de o presidente não ter escolhido Pacheco para a vaga.
Integrantes do grupo mais próximo de Lula acusam o ex-presidente do Senado de ter ajudado Alcolumbre a arregimentar votos contra Messias, mesmo depois de acenos públicos ao indicado. A suspeita circula entre petistas mineiros e chega ao Alvorada logo após a derrota. Lula escuta o relato e corta a desconfiança. Afirma que Pacheco segue sendo o candidato do grupo em Minas e que a votação no Senado, por mais ruidosa que seja, não entra na conta da campanha estadual de 2026.
O gesto é interpretado como um recado duplo. De um lado, o presidente tenta conter a irritação da militância e de dirigentes do PT mineiro, que veem traição na condução da votação. De outro, preserva um nome que considera estratégico para montar um palanque robusto no segundo maior colégio eleitoral do país. Minas concentra milhões de votos e decide eleições presidenciais há mais de sete décadas; a última vitória nacional sem maioria mineira ocorre em 1950, com Getúlio Vargas.
Pacheco se torna personagem central da crise justamente por ser, até pouco antes da indicação de Messias, o favorito de Alcolumbre e de parte do Senado para o STF. Quando Lula escolhe o advogado-geral da União e deixa o mineiro de fora, o presidente do Senado rompe com o Planalto e passa a trabalhar ativamente contra o indicado. A implosão da relação entre os dois líderes desmonta, ao menos temporariamente, o desenho eleitoral que vinha sendo construído em Minas.
Minas no centro da estratégia de reeleição
O cálculo de Lula é simples e duro. Em 2022, ele vence Jair Bolsonaro em Minas por margem mínima: 50,2% a 49,8% no segundo turno, diferença de poucos milhares de votos num universo de mais de 16 milhões de eleitores. Nacionalmente, o petista fecha a disputa com 50,9% contra 49,1%, e sai convencido de que, em 2026, o estado precisa entregar uma vantagem mais confortável. Hoje, pesquisas internas mostram o presidente empatado com o senador Flávio Bolsonaro em cenários de segundo turno, o que reforça a pressão por um palanque forte.
Nesse desenho, Pacheco ocupa posição central. Lula passa meses, desde 2023, tentando convencer o senador a disputar o governo mineiro. Vê no ex-presidente do Senado um aliado moderado, com trânsito entre partidos e empresários, capaz de atrair eleitores hoje refratários ao PT. A filiação de Pacheco ao PSB, em movimento patrocinado pelo Planalto, sinaliza disposição para a disputa, mas o senador evita um gesto definitivo e mantém a candidatura condicionada à “viabilidade política e eleitoral”.
A rejeição de Messias ameaça esse equilíbrio frágil. Dirigentes petistas ouvidos reservadamente falam em constrangimento crescente e cobram explicações sobre a atuação de Pacheco na votação. Alguns assessores do Planalto dizem ter segurança de que o senador ajuda a tirar votos do indicado. Apontam também o fato de ele não participar da sessão que derruba o veto de Lula à redução de penas de condenados por atos golpistas, em 30 de abril, como mais um sinal de distanciamento em um momento decisivo.
Aliados de Pacheco reagem e classificam as suspeitas como injustas. Lembram que o senador leva Messias a um encontro na casa do ministro Cristiano Zanin, onde o advogado-geral conversa informalmente com Alcolumbre. Citam ainda o almoço com a bancada do PSB na véspera da sabatina, quando o partido divulga nota e foto de apoio ao indicado, ao lado do vice-presidente Geraldo Alckmin. Na sabatina, Pacheco abraça Messias diante das câmeras e, segundo esse grupo, atua para manter unido o apoio do próprio PSB.
Aliados pressionam, alternativas surgem no radar
O desgaste abre espaço para uma disputa silenciosa por alternativas. No PT mineiro, há quem defenda a ruptura com Pacheco e a construção de uma candidatura mais identificada com a sigla. A ex-prefeita de Contagem Marília Campos, que deve concorrer ao Senado na chapa de Lula no estado, tenta conter o movimento e faz a defesa pública da aliança. “Não se pode responsabilizá-lo pelo resultado. Eu ainda acho que ele é nosso candidato ao governo”, afirma.
Enquanto petistas discutem a permanência de Pacheco, novos nomes entram no radar. O empresário Josué Gomes da Silva, filho do ex-vice-presidente José Alencar e aliado histórico de Lula, se filia ao PSB e passa a ser visto como possível opção para o governo ou para o Senado em um rearranjo sem o senador. No campo aliado, o PDT lança a pré-candidatura do ex-prefeito de Belo Horizonte Alexandre Kalil, que apoiou Lula em 2022 e agora cobra reciprocidade em 2026.
O Planalto sabe que uma ruptura com Pacheco teria custos imediatos. A saída do senador obrigaria Lula a recomeçar a articulação em Minas, com menos de dois anos até a eleição, e poderia empurrar parte do PSB para uma posição mais autônoma no xadrez nacional. Uma aliança exclusiva com Kalil, por exemplo, exigiria negociações complexas com o PDT e redistribuição de espaços na chapa majoritária mineira. A entrada de Josué no jogo também mexeria com a correlação de forças entre PT e PSB no estado.
Para o campo petista, o risco é claro: sem um candidato competitivo ao governo, o palanque de Lula em Minas perde densidade e exposição. Governadores costumam liderar estruturas regionais de campanha, coordenar militâncias e atrair prefeitos e vereadores. Sem esse eixo, a candidatura presidencial tende a ficar dependente de redes locais fragmentadas, o que dificulta a mobilização em um estado geograficamente amplo e politicamente heterogêneo.
Definições adiadas e uma tensão permanente
A decisão de Lula de manter Pacheco como favorito, mesmo sob fogo amigo, adia um rompimento que muitos já veem como provável. O próprio senador diz a interlocutores que continua disposto a disputar o governo mineiro, mas deixa claro que não aceitará ser alvo de constrangimentos públicos do PT. Se o ambiente azedar, repete, recua da candidatura.
O presidente, por enquanto, escolhe o caminho do pragmatismo. Mantém o apoio, cobra gestos de lealdade e espera que o tempo reduza as feridas abertas pela derrota de Messias. Nos bastidores, porém, auxiliares mapeiam cenários alternativos, sondam quadros do PSB, do PT e de partidos aliados e testam arranjos que incluam Josué, Kalil ou um nome ainda fora do radar público.
Minas volta a ocupar o lugar que historicamente teve nas eleições nacionais. O estado onde Lula venceu Bolsonaro por uma margem de 0,4 ponto percentual em 2022 se transforma, mais uma vez, no laboratório da estratégia presidencial. A escolha do candidato ao governo dirá até onde o presidente está disposto a ir para preservar alianças, acomodar ressentimentos e tentar repetir, com alguma folga, a vitória apertada que o levou de volta ao Planalto.
