Países em desenvolvimento lideram agenda pós-petróleo em conferência na Colômbia
Em maio de 2026, 56 países se reúnem em Santa Marta, na Colômbia, para discutir como romper a dependência do petróleo e outros combustíveis fósseis. O encontro, fora do sistema da ONU, marca a primeira Conferência da Transição para Longe dos Combustíveis Fósseis e reposiciona as economias em desenvolvimento no centro da diplomacia climática.
Uma mudança de cena na política do clima
O que costuma ser um tema sensível nas conferências do clima da ONU entra pela porta da frente em Santa Marta. Em vez de disputar palavras em textos negociados madrugada adentro, representantes de países vulneráveis sentam em salas fechadas para relatar, sem rodeios, quanto suas economias ainda dependem do petróleo e o que estão dispostos a fazer para mudar esse quadro.
A ausência dos maiores emissores do mundo — Estados Unidos, China, União Europeia e até o Brasil, que envia delegação de baixo escalão e não leva ministro nem o presidente da COP30 — abre espaço para outro tipo de protagonismo. Quem dita o tom são países como Nigéria, Malauí, Guatemala, Senegal, Vanuatu e Tuvalu. São Estados que pouco aparecem nas manchetes globais, mas vivem na pele a combinação de crise climática, instabilidade fiscal e dependência de exportações de combustíveis fósseis.
A Nigéria, um dos grandes produtores de petróleo da África, apresenta um plano com onze medidas para diversificar a economia e cortar a dependência fiscal do óleo. O Malauí, pequeno país africano que ainda não explora suas reservas de carvão, defende um salto direto para a energia renovável, sem repetir a trajetória poluente dos países ricos. Guatemala, Malásia, Etiópia e outras nações em desenvolvimento exibem esforços nacionais e pedem que a cooperação internacional acompanhe esse movimento.
“É porque nós somos os que mais precisamos”, resume o vice-ministro de clima da Guatemala, Edwin Castellanos. Ele lembra que os países ricos já avançam na transição com recursos próprios. “As nações mais ricas já estão adiantadas nessa transição, conseguem investir por conta própria e sair à frente; nós precisamos de cooperação”, completa.
Os dados reforçam a sensação de atraso estrutural. Um estudo da Ember mostra que os 38 países da OCDE já atingem o pico de uso de combustíveis fósseis na eletricidade em 2007, quando eles respondem por 63% da matriz. Em 2025, essa fatia cai para 48%, puxada pelo avanço da energia solar e eólica. Para muitos países presentes em Santa Marta, esse ponto de virada ainda parece distante.
Transição energética sem negociação formal, mas com disputas reais
Os organizadores da conferência dão um passo fora da liturgia da ONU. Não há rascunho de tratado, nem sessão plenária para aprovar parágrafos entre colchetes. O desenho é outro: três blocos de conversa, a portas fechadas, sobre como reduzir a dependência econômica dos fósseis, reorganizar a oferta e a demanda de energia e construir uma nova cooperação internacional em torno do tema.
Nessas salas, o tom se afasta da retórica das culpas cruzadas. Em um dos debates, sobre redirecionar subsídios de combustíveis fósseis para energias renováveis, um país desenvolvido admite que erra ao subsidiar a compra de carros elétricos sem recorte social. A medida vira alvo da crítica popular, tachada de benefício para ricos. O governo só reconquista apoio depois de ajustar o desenho e direcionar os incentivos para famílias de menor renda. Outros governos relatam dilemas semelhantes, ao tentar conciliar metas de descarbonização com tarifas de energia e transporte acessíveis.
As conversas também expõem obstáculos que raramente aparecem nos discursos oficiais. A cláusula ISDS, mecanismo presente em diversos acordos bilaterais, permite que empresas processem Estados em tribunais internacionais quando se sentem prejudicadas por novas políticas. Vários países em desenvolvimento relatam uma sequência de ações de petroleiras contra leis climáticas e medidas de transição energética, o que congela reformas e assusta governos que não querem enfrentar batalhas judiciais bilionárias.
O pano de fundo é um paradoxo conhecido. O petróleo, por décadas vendido como “ouro negro”, sustenta orçamentos públicos, empregos e balanças comerciais. Ao mesmo tempo, alimenta o aquecimento global, gera volatilidade de preços e expõe países a choques geopolíticos. Em economias que já começam a perder receita com a queda da demanda por combustíveis fósseis, a transição energética deixa de ser um debate abstrato e vira questão de sobrevivência fiscal e social.
Na outra ponta, países europeus tentam calibrar o papel da nova conferência. O ministro do Meio Ambiente da Itália, Gilberto Fratin, diz em plenária que “não há o que negociar; viemos aqui comunicar”. Ele defende que o encontro se torne uma plataforma diplomática ampla, aberta também aos grandes emissores, mas sem ambição de criar um novo tratado. França e Eslovênia ecoam a posição e reforçam que o processo deve fortalecer, não substituir, as COPs da ONU.
A postura contrasta com a estratégia da iniciativa Tratado de Não-Proliferação de Combustíveis Fósseis, que lidera a organização da conferência e trabalha justamente para transformar esse movimento em um compromisso formal, legalmente vinculante. A disputa sobre o formato ainda está em aberto, mas o simples fato de dezenas de governos discutirem abertamente “como” abandonar os fósseis, e não “se” isso deve acontecer, já muda o eixo da conversa climática global.
Impactos, riscos e o que está em jogo até a próxima década
A 1ª Conferência da Transição para Longe dos Combustíveis Fósseis, que agora adota o nome de Processo de Santa Marta, tenta responder a questões imediatas. Uma delas é como proteger trabalhadores e regiões inteiras que vivem da extração de petróleo, gás e carvão. O avanço de metas climáticas sem políticas de requalificação profissional pode aprofundar desigualdades e alimentar resistência social à transição.
Os relatos em Santa Marta indicam que subsídios mal desenhados, focados apenas em tecnologia de ponta, tendem a ampliar a sensação de injustiça. Quando o benefício se concentra na compra de veículos elétricos caros, por exemplo, a impressão de privilégio para as classes médias urbanas se impõe. Ajustar esse foco para transporte público limpo, programas de eficiência energética em casas populares e acesso à energia solar distribuída aparece como um caminho mais palpável para grandes parcelas da população.
Outro ponto em discussão é a arquitetura do comércio internacional. A conferência planeja mapear pontos cegos das cadeias de valor dos combustíveis fósseis e estudar um sistema de comércio livre deles. Na prática, isso significa revisar desde contratos de fornecimento de petróleo até regras de incentivo a investimentos, com impacto direto em refinarias, termelétricas, portos e empresas de transporte.
Os efeitos podem ser profundos em países cuja arrecadação pública ainda depende majoritariamente de royalties e impostos sobre a produção de petróleo. Sem um plano de diversificação econômica claro, a queda da demanda global pode corroer receitas em poucos anos, forçando cortes em políticas sociais e investimentos básicos. Ao antecipar esse debate, Santa Marta tenta evitar que a transição energética repita o roteiro de outras mudanças econômicas abruptas, marcadas por desemprego em massa e colapso de cidades inteiras.
O encontro também joga luz sobre a fragmentação das estratégias climáticas globais. A ausência de Estados Unidos, China, União Europeia e Brasil escancara que os principais emissores ainda preferem negociar dentro do guarda-chuva da ONU, com todas as amarras do consenso entre 195 países. Ao mesmo tempo, abre espaço para que coalizões de vulneráveis e emergentes testem formatos mais ágeis de cooperação e reconstruam, aos poucos, a confiança abalada nas últimas COPs.
Do Processo de Santa Marta à COP31: o que vem pela frente
Ao fim da conferência, a coalizão decide transformar o encontro em processo permanente. O Processo de Santa Marta prevê copresidência mista, sempre com um país em desenvolvimento ao lado de um desenvolvido. A primeira edição é conduzida por Colômbia e Holanda. A próxima, já acertada para acontecer em Tuvalu, no Pacífico, será liderada por Tuvalu e Irlanda, com expectativa de reunião até 2027.
Até lá, a organização promete avançar em pelo menos duas frentes: o mapeamento detalhado de riscos e brechas nas cadeias de valor dos combustíveis fósseis e o desenho inicial de um sistema de comércio livre de fósseis. A ambição é chegar às próximas conferências da ONU com propostas concretas, capazes de influenciar a discussão oficial e pressionar os grandes emissores.
A COP31, no fim do ano, reúne novamente os 195 signatários do Acordo de Paris. Depois de Santa Marta, a margem para empurrar o debate sobre petróleo, gás e carvão para notas de rodapé fica ainda menor. “Já temos a decisão da COP28 de transitar para longe dos combustíveis fósseis, então isso já está dado”, lembra Ana Toni, CEO da COP30. A disputa agora se desloca para o ritmo, a justiça dessa transição e quem paga a conta.
Ao assumir uma conversa que muitos governos preferem adiar, países em desenvolvimento tentam deixar de ser apenas vítimas da crise climática para ocupar também o papel de arquitetos da saída dos fósseis. A próxima década dirá se o Processo de Santa Marta se consolida como nova peça do tabuleiro diplomático ou se ficará como uma experiência ousada em um momento em que o mundo já não tem margem para desperdício de tempo.
