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Alcolumbre negocia com direita e Centrão apoio à reeleição no Senado

Davi Alcolumbre costura, neste 30 de abril de 2026, um acordo com direita e Centrão para garantir a reeleição à presidência do Senado no biênio 2027/2028. A articulação envolve cargos, emendas e influência direta sobre decisões do Supremo Tribunal Federal. O movimento consolida a guinada conservadora na Casa e isola ainda mais o governo Lula.

A costura que redefine o comando do Senado

No Salão Azul e em gabinetes pouco fotografados, a negociação avança em ritmo acelerado. Bancadas conservadoras, hoje maioria entre os 81 senadores, se organizam para manter o Senado sob controle da direita e do centro-direita a partir de 2027. O compromisso central é simples e poderoso: em troca do esforço para barrar indicações de Lula ao Supremo, Alcolumbre recebe o apoio explícito para mais dois anos no comando da Casa.

A equação envolve algo mais que o próximo biênio. O Senado é a única Casa com poder para sabatinar e aprovar ministros do STF e para analisar pedidos de impeachment contra magistrados. Ao se aproximar da direita, o presidente do Senado envia um recado duplo. Aos aliados de hoje, oferece blindagem e pauta alinhada. Ao Planalto, mostra que a maioria construída com 73 votos em sua eleição, em 2023, não se mantém de graça em um governo fragilizado por índices baixos de aprovação e risco concreto de derrota em 2026.

O atual mandato de Alcolumbre termina em fevereiro de 2027, mas a Constituição permite nova eleição porque se trata de outra legislatura. Ele já presidiu o Congresso duas vezes, entre 2019 e 2021 e, agora, desde 2023. Ao longo desses períodos, consolida a imagem de operador habilidoso, capaz de atender ao mesmo tempo partidos de esquerda, centro e direita. A lógica é conhecida no Senado: quanto melhor distribui cargos estratégicos e libera emendas, maior a chance de permanecer onde está.

Nos bastidores, senadores relatam que a articulação pela recondução ganha força depois da ofensiva da direita contra uma nova indicação de Lula ao Supremo. A promessa é explícita: derrotar o nome do governo e, em seguida, selar em plenário o acordo que garante Alcolumbre na presidência até 2028. A operação atende ao desejo de parte das siglas conservadoras de ampliar o controle sobre o Judiciário, em um momento em que discussões sobre impeachment de ministros do STF deixam de ser apenas discurso de palanque.

O próprio comportamento de Alcolumbre em relação a esses pedidos muda de tom. Nos primeiros anos à frente da Casa, ele segura todas as solicitações de impeachment contra ministros do Supremo, sem deixar que avancem. Agora, diante do novo arranjo, admite rever a estratégia e dar visibilidade a temas que, até aqui, permanecem engavetados. A mensagem é lida, entre aliados e adversários, como prova de que suas convicções são flexíveis quando o objetivo é sobreviver politicamente.

Força conservadora, fraqueza do governo

A reeleição de Alcolumbre interessa diretamente ao bloco que hoje dita o ritmo da agenda no Congresso. Com a direita e o centro-direita organizados, o Senado se torna um ponto de contenção permanente para iniciativas centrais do Planalto. Projetos caros ao governo, como mudanças tributárias adicionais, alterações em políticas sociais ou revisões no marco fiscal, passam a depender de um presidente de perfil pragmático, mas sintonizado com a base conservadora.

Na prática, quem ganha são as bancadas que dominam as comissões mais disputadas e controlam relatorias de projetos bilionários, da infraestrutura à política de segurança. Ao oferecer cargos em diretorias de estatais, espaços em autarquias e liberação acelerada de emendas de bancada e de comissão, Alcolumbre constrói um sistema de fidelidade que atravessa partidos. O método se apoia em números concretos: cada senador administra hoje, por emendas, centenas de milhões de reais por mandato, distribuídos a obras e programas em seus estados, o que amplia o poder de barganha.

O governo Lula aparece como o lado mais fraco dessa equação. Em 2023, o Planalto apoia a recondução de Alcolumbre e ajuda a formar a base de 73 votos que o elege para o atual mandato. Três anos depois, o cenário é outro. Com a reprovação em alta e a perspectiva de um segundo turno difícil em 2026, o Planalto se torna menos capaz de oferecer garantias de longo prazo. A direita, ao contrário, trabalha com o horizonte de comandar o Executivo a partir de 2027, o que torna ainda mais atrativo o compromisso de manter o Senado alinhado com esse campo.

A disputa em torno do STF reforça essa mudança de eixo. Desde 2023, o Senado analisa pedidos de impeachment contra ministros da Corte que não avançam por decisão direta da presidência da Casa. Esse controle, hoje nas mãos de Alcolumbre, vira moeda pesada na negociação. Uma cúpula do Senado afinada com a direita pode pressionar o Supremo em temas sensíveis, da criminalização da desinformação à revisão de decisões sobre a pandemia e atos antidemocráticos.

O movimento também repercute sobre outras pautas. A retomada, pelo presidente da Câmara, Hugo Motta (Republicanos-PB), da discussão da PEC que acaba com a jornada 6×1, após meses parada, sinaliza um Congresso disposto a revisar direitos trabalhistas e a responder a demandas empresariais. O alinhamento entre as duas Casas em torno de uma pauta mais conservadora e liberal na economia deixa o governo em posição defensiva e reduz a margem de manobra do Planalto para liderar a agenda nacional.

O que vem a seguir para o Senado, o STF e o Planalto

O próximo ano legislativo se torna o campo decisivo dessa disputa. A eleição interna para a presidência do Senado, em fevereiro de 2027, deve cristalizar o arranjo que hoje se costura em conversas reservadas. Se o acordo com a direita e o Centrão se mantém, Alcolumbre entra na sessão com vantagem confortável, apoiado por um bloco que já demonstra maioria numérica e capacidade de mobilização. A hipótese de uma candidatura alternativa de esquerda ou de centro, neste momento, parece remota, mas não desaparece do radar de senadores insatisfeitos com o grau de poder acumulado pela atual mesa diretora.

Os impactos se estendem para além de Brasília. A indicação de novos ministros para o STF, a análise de pedidos de impeachment de autoridades do Judiciário e o avanço ou travamento de projetos estruturais dependem de um Senado que hoje se move pela lógica da sobrevivência política e da ocupação de espaços. A reeleição de Alcolumbre não encerra essa disputa, apenas a organiza em torno de um nome familiar às velhas e novas maiorias da Casa. Resta saber se o eleitor, nas urnas de 2026, confirmará o cenário que se desenha nos gabinetes ou imporá ao Congresso uma correção de rota que hoje ninguém consegue projetar com clareza.

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