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Filho de bilionário indiano oferece refúgio a 80 hipopótamos da Colômbia

Anant Ambani, herdeiro do grupo Reliance, se oferece para receber cerca de 80 hipopótamos colombianos ameaçados de eutanásia a partir de 2026, em seu zoológico privado na Índia. A proposta tenta evitar o abate de parte do polêmico rebanho descendente dos animais trazidos por Pablo Escobar.

Oferta indiana tenta barrar eutanásia em massa

O filho do bilionário Mukesh Ambani, o homem mais rico da Ásia, coloca seu nome em um dos dilemas ambientais mais espinhosos da Colômbia. A partir de 2026, cerca de 80 hipopótamos classificados como espécie invasora devem ser sacrificados por ordem das autoridades ambientais, após anos de tentativas fracassadas de controle populacional.

Ambani afirma estar “disposto a receber e cuidar” dos animais em Vantara, zoológico privado em Jamnagar, no estado de Gujarat, que ocupa mais de 1,4 mil hectares e abriga cerca de 2 mil espécies. A oferta surge quando o governo colombiano decide pela eutanásia, depois de apostar em métodos como castração cirúrgica e químicas, que não conseguem conter o avanço do grupo.

O caso ganha contornos simbólicos. De um lado, ambientalistas alertam para o impacto devastador dos hipopótamos no ecossistema da Bacia do Rio Magdalena, onde não existem predadores naturais para o animal. De outro, cresce a pressão internacional contra o abate de dezenas de mamíferos que hoje formam, segundo biólogos locais, o maior grupo de hipopótamos fora da África.

De herança de Escobar a crise ecológica

A história começa nos anos 1980, quando Pablo Escobar importa ilegalmente para sua fazenda, a Hacienda Nápoles, um macho e uma fêmea de hipopótamo. O narcotraficante, morto pela polícia colombiana em 1993, usa a propriedade de cerca de 250 quilômetros de Bogotá como vitrine de luxo, com animais exóticos espalhados pelo gramado.

Após a morte do chefão do cartel, o casal de hipopótamos permanece na região. Sem predadores e cercados por áreas alagadas férteis em Antioquia, os animais se adaptam com rapidez surpreendente. Em poucas décadas, a população se espalha ao longo do Rio Magdalena, o principal do país, e pressiona a fauna local por espaço e alimento.

Moradores de comunidades pesqueiras relatam ataques cada vez mais frequentes. Machos adultos podem pesar até três toneladas e figuram entre os maiores animais terrestres do planeta, o que transforma qualquer encontro em risco real. Especialistas colombianos classificam a espécie como invasora e afirmam que ela desloca jacarés, capivaras e outras espécies nativas, altera a dinâmica dos rios e ameaça a pesca de subsistência.

O governo testa, ao longo dos anos, diferentes estratégias. Cirurgias de castração se mostram complexas, caras e limitadas em alcance. Métodos químicos enfrentam resistência de parte da sociedade e apresentam resultados modestos. Sem redução consistente no ritmo de nascimentos, autoridades ambientais concluem que não há alternativa viável e adotam a eutanásia de aproximadamente 80 animais como medida extrema para conter o avanço do rebanho.

Nesse cenário, surge a carta enviada pelo diretor-executivo de Vantara à ministra do Meio Ambiente da Colômbia. O documento, divulgado no Instagram do zoológico, afirma que a instituição está pronta para oferecer “cuidados por toda a vida” ao grupo na Índia. “No centro desta proposta está a crença de Vantara de que toda vida importa e de que temos a responsabilidade compartilhada de proteger a vida sempre que possível”, diz o texto.

Conservação, interesses privados e dúvidas abertas

A oferta reacende o debate sobre como lidar com espécies invasoras sem recorrer ao abate em massa. A transferência de dezenas de animais de grande porte entre continentes exige uma operação cara e complexa, que envolve quarentenas, exames sanitários, transporte especial e autorização de autoridades ambientais de ambos os países, além do cumprimento de convenções internacionais.

Vantara, no entanto, não escapa de polêmicas. O zoológico se torna conhecido do público global em 2024, ao receber parte dos eventos luxuosos que antecedem o casamento de Anant Ambani, que domina manchetes pelo padrão extravagante de gastos. O projeto também é alvo de críticas de ativistas e conservacionistas, que questionam a adequação do clima quente e seco de Gujarat para algumas espécies mantidas ali, como elefantes e grandes felinos.

A chegada de cerca de 80 hipopótamos, animais habituados hoje a uma região tropical úmida na Colômbia, reabre essa discussão. Especialistas em bem-estar animal lembram que qualquer mudança brusca de ambiente pode causar estresse intenso, exigir adaptações de longo prazo e demandar investimentos elevados em lagos artificiais, sombreamento e manejo especializado.

O governo colombiano, até agora, não comenta publicamente a oferta. A ausência de resposta mantém no ar a dúvida sobre o peso que fatores políticos, econômicos e de imagem internacional terão na decisão. Aceitar a proposta pode aliviar parte da pressão de organizações de defesa dos animais, mas também pode ser criticado como terceirização de um problema ambiental interno para um empreendimento privado do outro lado do mundo.

Recusar a ajuda expõe a Colômbia ao desgaste de manter o plano de eutanásia de dezenas de hipopótamos, em um momento em que a opinião pública global se mostra cada vez mais sensível ao sofrimento animal. A discussão ultrapassa fronteiras e se transforma em teste para a capacidade de cooperação internacional em temas ambientais complexos, em que conservação da biodiversidade, bem-estar dos animais e interesses econômicos raramente caminham juntos.

Decisão colombiana pode definir novo padrão global

Especialistas em políticas ambientais veem no caso uma espécie de laboratório para futuros conflitos envolvendo espécies invasoras em outros países. A solução escolhida pela Colômbia, e o eventual papel da Índia nessa equação, podem criar precedente para movimentos semelhantes, em que zoológicos privados ou fundações bilionárias se oferecem para absorver animais considerados problema em seus habitats hoje.

Se a transferência for adiante, o desafio será acompanhar a adaptação dos hipopótamos em Gujarat e medir, com dados, se o deslocamento efetivamente melhora o bem-estar dos animais e reduz o impacto ambiental na Colômbia. Se a eutanásia prevalecer, o país terá de explicar ao mundo por que, diante de uma proposta de resgate internacional, opta por manter a rota mais dura. Em qualquer cenário, a decisão deve se tornar referência para gestores ambientais que, cada vez mais, se veem obrigados a escolher entre salvar indivíduos e preservar ecossistemas inteiros.

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