Trump diz que guerras no Irã e na Ucrânia podem terminar juntas
Donald Trump afirma que os conflitos no Irã e na Ucrânia podem seguir “cronogramas semelhantes” para terminar, após uma longa ligação com Vladimir Putin em 29 de abril de 2026.
Trump vê saída rápida e liga pressão militar à mesa de negociação
O presidente dos Estados Unidos fala em público como se enxergasse o fim de duas guerras diferentes dentro de uma mesma janela de tempo. Em entrevista à CNN, Trump é questionado sobre qual conflito acabaria antes. Ele responde sem hesitar: “Qual guerra terminaria primeiro? Talvez elas estejam em um cronograma semelhante”.
A declaração vem poucas horas depois de uma conversa por telefone de mais de 1h30 com o presidente russo, Vladimir Putin, iniciada pelo Kremlin. Os dois discutem o cessar-fogo em vigor com o Irã e um possível armistício na Ucrânia, que está em guerra desde 2022. O contato é o primeiro telefonema anunciado entre os líderes desde 9 de março, nove dias após o início da ofensiva dos EUA e de Israel contra o Irã, em 28 de fevereiro.
Trump tenta construir a imagem de comandante em controle da situação militar. Ele insiste que, no campo de batalha, a posição norte-americana diante do Irã é confortável. “Você não saberia disso lendo as notícias falsas, mas militarmente, veja bem, há 159 navios – todos os navios estão submersos agora, o que é bastante bom… seria difícil para eles recuperarem sua força naval agora”, afirma. Na sequência, provoca: “Você acha que eles estão bem, sem marinha, sem força aérea, sem armamento antiaéreo?”
Ao comentar o equilíbrio de forças, Trump tropeça nas palavras e diz que “a Ucrânia, militarmente, está derrotada”, frase que sua própria equipe trata como um erro de fala. Nos bastidores, auxiliares explicam que ele se refere ao Irã, alvo direto dos bombardeios conduzidos pelos EUA e por Israel desde o fim de fevereiro. O governo evita admitir qualquer desgaste ucraniano, aliado central de Washington contra Moscou.
O presidente recorda a previsão que faz no início da campanha contra Teerã: a guerra, segundo ele, duraria de quatro a seis semanas. Passados dois meses desde 28 de fevereiro, essa estimativa começa a ser testada contra a realidade de um cessar-fogo frágil e de negociações que ainda andam por telefone. “Acho que vamos chegar a uma solução relativamente rápido”, diz Trump. “Espero, e acho que gostaríamos de ver uma solução que seja boa.”
Telefonema com Putin amarra Irã e Ucrânia no mesmo tabuleiro
O que Trump fala em público é moldado pela conversa reservada com Putin. Segundo o porta-voz do Kremlin, Yury Ushakov, a ligação é “franca e objetiva” e parte de Moscou. O tema central, de acordo com o assessor, é a Ucrânia, mas o cessar-fogo com o Irã ocupa parte importante da agenda.
Ushakov relata que Putin apoia a decisão de Trump de estender o cessar-fogo. “Vladimir Putin acredita que a decisão de Donald Trump de estender o cessar-fogo com o Irã é correta; isso deve fornecer uma oportunidade para negociações e, de maneira geral, ajudar a estabilizar a situação”, afirma. O russo, porém, faz um alerta duro. Ele fala em “consequências inevitáveis e extremamente graves, não apenas para o Irã e seus vizinhos, mas para toda a comunidade internacional, caso os EUA e Israel recaiam novamente sobre o uso da força”.
O Kremlin não detalha que propostas concretas Putin coloca à mesa. Moscou já havia oferecido, em ocasiões anteriores, retirar parte do urânio enriquecido do Irã, numa tentativa de reforçar garantias de que o programa nuclear do país não se converte em arma atômica. Agora, o cessar-fogo prolongado abre espaço para retomar esse tipo de iniciativa com apoio de europeus e de agências internacionais.
Na Ucrânia, Putin leva a Trump uma ideia simbólica. O presidente russo fala em um cessar-fogo que coincida com o Dia da Vitória, em 9 de maio, data em que a Rússia celebra a derrota da Alemanha Nazista em 1945. A proposta, segundo Ushakov, recebe uma reação “positiva” da Casa Branca. Para Moscou, um armistício nessa data serviria tanto ao discurso interno quanto ao esforço para mostrar disposição negociadora diante de sanções que já duram mais de dois anos.
A guerra ucraniana, iniciada em fevereiro de 2022 com a invasão russa, entra em seu quarto ano sem um roteiro claro de encerramento. O país perde território, infraestrutura e população, enquanto a Rússia lida com isolamento diplomático e custos militares crescentes. A avaliação de Trump de que os conflitos podem terminar juntos sugere uma barganha mais ampla, na qual avanços em um front ajudam a destravar o outro.
O cálculo envolve não apenas diplomacia, mas também economia. Um cessar-fogo duradouro no Irã tende a reduzir o prêmio de risco sobre o petróleo, aliviar a pressão sobre preços globais de energia e dar algum fôlego a países importadores. Na Ucrânia, qualquer trégua consistente abre a possibilidade de reconstrução de infraestrutura crítica, como corredores de grãos e rotas ferroviárias ligadas ao Mar Negro, com impacto direto na inflação de alimentos em mercados emergentes, inclusive o Brasil.
Cronogramas alinhados mexem com mercados, alianças e expectativas
A aposta de Trump em “cronogramas semelhantes” altera as expectativas de governos, investidores e organismos multilaterais. Se as guerras caminham para cessar-fogos coordenados, a pressão por orçamentos militares bilionários pode ceder espaço a planos de reconstrução. Em Washington, parlamentares monitoram o impacto direto sobre o pacote de ajuda à Ucrânia e sobre o custo da operação naval que bloqueia o Irã desde 28 de fevereiro.
O próprio presidente sinaliza que o bloqueio não cai tão cedo. Trump diz que não pretende suspender o cordão naval até que Teerã aceite negociar de forma clara o programa nuclear. Isso mantém elevado o custo de seguro para navios na região e adia qualquer normalização plena do fluxo de petróleo iraniano. Para o Oriente Médio, a combinação de trégua e bloqueio cria um cenário híbrido, em que o risco de ataque diminui, mas a pressão econômica permanece.
No tabuleiro europeu, um cessar-fogo na Ucrânia no entorno de 9 de maio teria efeito direto sobre a política interna de países da Otan. Governos que enfrentam desgaste por causa de inflação e aumento de gastos militares podem apresentar aos eleitores uma perspectiva de alívio. Para Moscou, um entendimento temporário ajudaria a frear novas rodadas de sanções e abriria brechas para negociações sobre territórios ocupados.
Analistas veem na postura de Putin e Trump um teste para o sistema internacional. Se os dois maiores arsenais nucleares do planeta convergem para cessar-fogos simultâneos, cresce a pressão sobre atores regionais, como Israel, Teerã e Kiev, para que aceitem concessões difíceis. Ao mesmo tempo, o histórico de rompimento de acordos na região alimenta ceticismo. Em 2022 e 2023, sucessivas tentativas de trégua na Ucrânia fracassam em poucos dias.
Os próximos passos dependem de decisões tomadas longe das câmeras, em mesas de negociação que misturam diplomatas, militares e técnicos em energia e segurança nuclear. O que Trump antecipa em frases de efeito, como a imagem dos “159 navios submersos”, precisa agora se traduzir em cronogramas escritos, assinados e fiscalizados. Até que isso aconteça, a promessa de que Irã e Ucrânia caminham lado a lado rumo ao fim da guerra permanece mais como aposta política do que como certeza no campo de batalha.
