Mourinho vê Brasil de Ancelotti favorito e ataca novo formato da Copa
José Mourinho aponta o Brasil de Carlo Ancelotti como um dos favoritos ao título da Copa do Mundo de 2026 e dispara contra o novo formato do torneio, em entrevista concedida em abril à emissora italiana Sportsmediaset.
Brasil em destaque e confiança em Ancelotti
O técnico português, hoje no Benfica após passagem recente pelo Fenerbahce, não esconde a empolgação com o impacto de Carlo Ancelotti na seleção brasileira. Ao falar sobre os candidatos ao título do Mundial que começa em 11 de junho, com México x África do Sul, ele faz uma separação clara entre o antes e o depois do italiano no comando do Brasil.
“Ancelotti é Ancelotti. Ainda que muitas pessoas não acreditem, o Brasil pode conseguir. Uma coisa é o Brasil sem Ancelotti e outra coisa é o Brasil com Ancelotti”, afirma Mourinho, em entrevista à Sportsmediaset. O Brasil estreia no dia 13 de junho, contra Marrocos, e depois encara Haiti e Escócia na fase de grupos.
O elogio não é casual. Ancelotti, multicampeão por clubes como Milan e Real Madrid, assume em 2026 a missão de recolocar a seleção brasileira no topo após duas Copas frustrantes, em 2018 e 2022, ambas encerradas nas quartas de final. Mourinho enxerga nesse comando estrangeiro um fator capaz de mudar a percepção mundial sobre a força do Brasil.
Ao mesmo tempo em que coloca a seleção canarinho no primeiro pelotão, Mourinho admite o próprio favoritismo sentimental de torcedor. “Claro que eu vou torcer para Portugal, e tem potencial”, diz. A frase explica o equilíbrio entre a análise fria do treinador e o envolvimento afetivo com o país que tenta seu primeiro título mundial desde 2016, quando conquistou a Eurocopa, e desde 2019, com o título da Liga das Nações.
Quarteto de favoritos e crítica ao inchaço do Mundial
Mourinho não restringe a lista de candidatos ao Brasil. Ele inclui Argentina, França e Inglaterra como seleções que chegam mais fortes à Copa do Mundo de 2026, primeira edição com 48 equipes distribuídas por três países-sede: Estados Unidos, México e Canadá.
“A Argentina é a atual campeã do mundo e me parece um verdadeiro time, um time muito unido e compacto, com sentimentos de jogar pela seleção. Depois, tem a França com pelo menos três times que podem competir. A Inglaterra uma hora ou outra vai chegar”, avalia. Na leitura de Mourinho, o título de 2022 solidifica a Argentina em um patamar de confiança que o Brasil não experimenta desde 2002, sua última conquista mundial.
O respeito à potência técnica francesa também aparece na comparação com seleções que, segundo ele, ainda buscam afirmação. Com elenco capaz de montar “pelo menos três times”, como ressalta, a França segue no radar como protagonista de qualquer grande torneio desde 2016, quando alcança a final da Euro, e 2018, quando ergue a taça na Rússia. A Inglaterra, que bate na trave em Mundiais e Euros recentes, surge para Mourinho como uma seleção à beira do salto definitivo.
O entusiasmo em analisar os favoritos, porém, contrasta com a dureza do discurso sobre o novo formato da Copa. “É fantástico do ponto de vista social, é uma festa, um fenômeno social incrível, mas se falamos unicamente de futebol, são seleções que vão apenas para passear”, provoca. A crítica atinge o modelo aprovado pela Fifa em 2017 e colocado em prática agora, com 16 grupos de três times e um total de 104 partidas, um aumento de 40 jogos em relação ao formato de 32 seleções.
Mourinho ironiza o início do torneio e afirma que pretende “tirar férias até as quartas de final”. “São muitas seleções e algumas vão lá só para perder. Nas quartas de final que vai começar a festa”, dispara. A frase sintetiza um temor recorrente entre técnicos e analistas: a possibilidade de que a fase inicial se torne previsível, com mais jogos sem equilíbrio e pouca margem para surpresas esportivas.
Debate sobre competitividade e pressão sobre favoritos
As declarações de Mourinho alimentam um debate que ganha força conforme a Copa de 2026 se aproxima. A ampliação para 48 seleções é vendida pela Fifa como medida de inclusão global e aumento de receitas, mas parte do meio esportivo teme queda de nível técnico e desgaste do produto principal da entidade, responsável por mais de 80% de sua arrecadação em ciclos recentes.
Ao dizer que “nas quartas de final vai começar a festa”, Mourinho sugere que a verdadeira disputa pelo título tende a se concentrar nos confrontos entre potências tradicionais. Na prática, isso significa projetar menos peso para a fase de grupos, hoje crucial tanto esportiva quanto financeiramente, já que movimenta bilhões em direitos de transmissão, patrocínios e publicidade.
Para o Brasil, o pacote de elogios e cobranças embutido nas palavras do técnico português se transforma em pressão adicional. A presença de Ancelotti intensifica a expectativa de reação depois de quase três décadas sem erguer a taça. Com estreias marcadas contra Marrocos, Haiti e Escócia, a seleção entra em um grupo que, na teoria, não a ameaça, cenário que reforça a narrativa de que o torneio só “engata” quando cruzamentos eliminatórios aproximam gigantes.
As falas do treinador também ecoam nos bastidores de federações e confederações. Dirigentes veem na ampliação de vagas uma oportunidade de levar mais países à vitrine mundial, o que significa novos mercados, patrocínios locais e exposição para atletas. Mourinho olha para o outro lado da balança: o risco de transformar parte da Copa em vitrine passageira para seleções que, nas palavras dele, “vão lá só para perder”.
O contraste entre o olhar social e o olhar estritamente esportivo percorre toda a entrevista. Ao reconhecer o Mundial como “fenômeno social incrível”, ele não ignora o impacto de espalhar jogos por três países da América do Norte, com estádios gigantes e estrutura voltada a megaeventos. Ao mesmo tempo, avisa que, da perspectiva de quem pensa em alto rendimento, o filtro da elite parece adiado para a segunda metade do torneio.
O que esperar da Copa de 2026 após o recado de Mourinho
As palavras do técnico do Benfica não mudam o regulamento da Copa, já definido pela Fifa, mas ajudam a moldar o clima que cerca a competição. Ao colocar Brasil, Argentina, França e Inglaterra como referências claras, Mourinho oferece uma leitura que tende a ser repetida em prévias, debates televisivos e análises táticas até o apito inicial de México x África do Sul, em 11 de junho.
A Copa que estreia com 48 seleções, três países-sede e 104 jogos começa sob o desafio de provar que o inchaço não desvaloriza o que acontece em campo. O Brasil de Ancelotti entra nesse cenário como símbolo da aposta em renovação técnica e em comando estrangeiro, enquanto nomes como Messi, Mbappé e a nova geração inglesa tentam confirmar, ou romper, o roteiro previsto por Mourinho. A resposta definitiva virá na grama, jogo a jogo, quando o Mundial mostrar se as primeiras rodadas serão apenas prólogo ou parte central da história de 2026.
