Esportes

Atlético poupa titulares e leva base a 3.400 m para duelo com Cienciano

O Atlético entra em campo com um time alternativo e recheado de jovens, nesta quarta-feira (29), em Cusco, para enfrentar o Cienciano pela Copa Sul-Americana. A decisão de Eduardo Domínguez preserva 11 jogadores importantes em Belo Horizonte, de olho no clássico contra o Cruzeiro, sábado (2), pelo Campeonato Brasileiro.

Estratégia em meio ao calendário apertado

Eduardo Domínguez leva ao Peru um elenco bem diferente do habitual. O Atlético disputa a terceira rodada da fase de grupos com 12 jogadores oriundos das categorias de base, algo raro em jogos oficiais internacionais do clube. A escolha não é improviso de última hora. A comissão técnica trabalha há semanas com a ideia de rodar o elenco em partidas fora de casa na Sul-Americana, sobretudo em viagens longas e em condições físicas mais duras, como os 3.400 metros de altitude de Cusco.

O treinador argentino sabe que o clássico de sábado, às 21h, contra o Cruzeiro, no Mineirão, pesa tanto na tabela quanto no ambiente do clube. Uma vitória no Brasileiro, logo no início da competição, pode dar fôlego a um projeto que ainda busca identidade. Domínguez compra esse custo agora, ao abrir mão de quase toda a espinha dorsal do time titular na noite continental. Ficam em Belo Horizonte os zagueiros Lyanco, Vitor Hugo e Ruan; os laterais Renan Lodi e Natanael; os meio-campistas Alan Franco, Cissé, Maycon e Victor Hugo; e os atacantes Tomás Cuello e Cassierra. No papel, é praticamente um time inteiro de fora.

A escalação provável em Cusco traz Everson no gol; uma linha defensiva com Preciado, Román, Alonso e Pascini; meio-campo formado por Pérez, Alexsander e Igor Gomes; e um setor ofensivo com Gustavo Scarpa, Dudu e Reinier. Ao redor desse bloco mais experiente, os jovens completam o grupo e ganham minutagem num cenário pouco comum: estreia ou consolidação em competição continental, em altitude e longe de casa. Em qualquer clube grande, esse tipo de teste costuma separar quem está pronto de quem ainda precisa de tempo.

Nos bastidores, a aposta é tratada como um movimento calculado. A Sul-Americana é vista como oportunidade real de título, mas a diretoria entende que o time não pode chegar esgotado a um clássico que mexe com torcida, conselho e patrocinadores. O departamento de preparação física indica carga elevada nas últimas semanas, com viagens, jogos em sequência e pouco tempo de treino. O recado interno é claro: proteger o elenco principal agora para não pagar em lesões e queda de rendimento nos próximos meses.

Risco esportivo e chance de renovação

A escolha de priorizar o Cruzeiro afeta diretamente o presente do Atlético na Sul-Americana. Um tropeço em Cusco pode embolar o grupo e tirar o clube da zona de conforto na briga pela classificação às oitavas. Em cenário de seis rodadas, cada ponto pesa, sobretudo fora de casa. Domínguez, porém, entende que o torneio ainda oferece margem de recuperação, enquanto um revés no clássico impacta de imediato a confiança e o humor da torcida. Na balança, a comissão técnica considera aceitável correr o risco de um resultado adverso no Peru.

O movimento abre espaço para uma leitura oposta: a partida vira vitrine para a base. Se um ou dois jovens se destacam em Cusco, o ganho esportivo e financeiro pode ser grande. Jogadores formados em casa, com salário mais baixo e potencial de revenda, interessam à diretoria e ao mercado. Um bom desempenho em altitude, diante de um Cienciano acostumado ao ambiente, vira cartão de visitas, inclusive para futuras convocações às seleções de base. A experiência internacional em 90 minutos vale, muitas vezes, mais do que semanas de treino na Cidade do Galo.

A decisão também testa o relacionamento com a torcida. Parte dos atleticanos tende a cobrar postura mais agressiva na Sul-Americana, com força máxima sempre que possível. Outra parcela enxerga no rodízio de elenco um caminho para chegar forte às fases decisivas das duas frentes principais em 2026: o Brasileiro e a competição continental. Em tempos de calendário saturado, com jogos às quartas e sábados praticamente todo mês, técnicos passaram a escolher onde concentrar energia. A opção de Domínguez se encaixa nessa nova lógica, ainda que provoque debate.

A situação de Cissé reforça a cautela. O meio-campista, com lesão muscular na coxa esquerda, já é desfalque certo e serve de alerta sobre o risco de forçar o elenco. O Atlético tenta evitar um efeito cascata de problemas físicos às vésperas de uma sequência dura de jogos nacionais. A preservação de nomes como Maycon, Alan Franco e Cassierra, fundamentais no setor ofensivo e na construção de jogo, traduz essa preocupação em decisão prática. A ideia é ter todos disponíveis e em boas condições para encarar o Cruzeiro, em um estádio que deve receber mais de 50 mil pessoas.

Pressão em duas frentes e o que vem a seguir

O jogo em Cusco funciona como medidor da profundidade do elenco atleticano. Se o time alternativo segura o resultado, Domínguez ganha argumento forte para repetir a estratégia em outras viagens longas da Sul-Americana. A diretoria também passa a enxergar com mais segurança a participação dos garotos em partidas decisivas, o que facilita eventuais vendas e reduz a necessidade de contratações de emergência na janela do meio do ano. A resposta em campo, mais do que o placar isolado, influencia decisões de médio prazo.

O clássico de sábado concentra a maior parte das atenções na Cidade do Galo. Uma vitória sobre o Cruzeiro, somada a um desempenho competitivo diante do Cienciano, reforça a ideia de que o Atlético consegue administrar a maratona sem abrir mão de nenhum objetivo. Um tropeço duplo, por outro lado, alimenta o discurso de que a equipe errou na mão ao mexer demais na escalação. A fronteira entre ousadia tática e imprudência, em semanas como esta, é sempre fina.

O calendário não promete alívio. Em maio, o clube segue com jogos pela fase de grupos da Sul-Americana e pelo Brasileirão, com viagens e pouco tempo de recuperação. A forma como o grupo reage em Cusco e no Mineirão ajuda a definir o tom das próximas decisões de Domínguez. Se a aposta na base e na preservação dos titulares se mostra correta, o Atlético ganha um modelo de gestão de elenco para repetir. Se falhar, a pressão por mudanças rápidas aumenta, e o treinador terá de responder não só em campo, mas também diante de uma torcida que não costuma ter muita paciência.

Entre altitude, garotos em busca de espaço e titulares protegidos para o clássico, o clube coloca em jogo mais do que três pontos na Sul-Americana. O que sai desta semana em Cusco e em Belo Horizonte pode indicar até onde o Atlético consegue ir em 2026.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *