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MSF acusa Israel de usar água como arma de guerra em Gaza

A organização Médicos Sem Fronteiras acusa Israel de transformar o acesso à água, saneamento e higiene em arma de guerra contra civis em Gaza. O alerta está em relatório divulgado nesta terça-feira (28), que descreve destruição sistemática da infraestrutura hídrica e bloqueios à ajuda humanitária desde o início do conflito, em outubro de 2023.

Destruição em massa e bloqueio de suprimentos

No documento intitulado “Água como Arma”, a MSF afirma que as forças israelenses colocam em risco “toda a população em Gaza” ao desestruturar a rede de abastecimento e impedir a entrada de equipamentos essenciais. A ONG aponta três frentes principais: ataques diretos à infraestrutura hídrica, deslocamentos forçados que inviabilizam o trabalho humanitário e bloqueio ou atraso sistemático de materiais básicos para potabilizar água e garantir saneamento mínimo.

Dados compilados pela organização a partir de fontes como Banco Mundial, União Europeia e ONU estimam que ao menos 89% das infraestruturas ligadas a água e esgoto em Gaza estão destruídas ou danificadas. Poços, estações de bombeamento, redes de tratamento e unidades de dessalinização aparecem entre os alvos atingidos. “Grande parte da rede de abastecimento e tratamento de água, incluindo poços e instalações de dessalinização, foi destruída ou ficou inacessível”, registra o relatório.

A MSF atua na faixa palestina antes de 7 de outubro de 2023, quando o ataque do grupo Hamas a Israel desencadeia dois anos de guerra e um cerco ainda mais rígido ao território. As equipes internacionais da ONG permanecem em Gaza mesmo diante de ordens sucessivas de retirada emitidas pelos militares israelenses. A organização afirma que, desde o cessar-fogo em vigor desde outubro de 2025, atendeu ao menos 15 mil casos de trauma físico apenas em dois hospitais de campanha.

Segundo a MSF, foram realizados mais de 40 mil curativos em feridos por tiros, explosões e outros tipos de violência nesse período. A crise de água, relata a ONG, atravessa esses atendimentos do primeiro ao último minuto: pacientes chegam desidratados, submetem-se a cirurgias em condições precárias de higiene e retornam para abrigos sem banheiros adequados nem água suficiente para lavar as mãos ou limpar feridas.

Doenças, colapso sanitário e punição coletiva

O relatório se baseia em dados médicos dos centros de atenção primária em Khan Yunis, no sul de Gaza, combinados a registros de segurança, abastecimento e operação dos pontos de distribuição de água que a MSF administra no território. A partir de 1.073 entrevistas feitas entre maio e agosto de 2025, após uma trégua de janeiro a março, a ONG identifica salto expressivo em doenças ligadas ao saneamento precário.

De acordo com o levantamento, ao menos 23% dos entrevistados relatam ter enfrentado algum tipo de doença gastrointestinal no mês anterior à pesquisa. A MSF afirma que, durante o período de cessar-fogo, essas enfermidades atingem parcela bem menor da população. Infecções respiratórias altas, ligadas à superlotação e à falta de ventilação adequada, atingem cerca de 22% dos domicílios de maio a agosto e 27% entre o fim de janeiro e março.

Para a organização, o quadro reflete o colapso quase completo do sistema de água e esgoto. “Como os sistemas de saneamento entraram efetivamente em colapso, os banheiros improvisados também levam à infiltração de resíduos humanos, incluindo fezes, nas águas subterrâneas, tornando a água dos poços da região imprópria para consumo”, descreve o relatório. A MSF sustenta que a combinação entre destruição física e bloqueio político configura uma “punição coletiva da população de Gaza”.

Antes da guerra, a faixa dispunha de uma “indústria bem desenvolvida” de produção de água potável, com unidades de osmose reversa capazes de transformar água salobra em água de consumo. Desde o início dos ataques, a ONG afirma tentar, sem sucesso sistemático, a entrada de novos equipamentos e materiais para recompor parte dessa capacidade. Em diversos casos, segundo o documento, as forças israelenses negam ou atrasam autorizações de forma “arbitrária”, sem justificativas técnicas plausíveis.

A MSF relata episódios em que caminhões-pipa e poços identificados com o emblema da organização são atacados durante a distribuição de água. Em Rafah, no sul de Gaza, a entidade diz ter reabilitado um poço e instalado uma unidade de osmose reversa capaz de abastecer quase 16 mil pessoas por dia. Como de costume, compartilha com os militares israelenses as coordenadas e a finalidade do projeto, registrado nos sistemas de comando. Em março de 2025, a equipe é obrigada a abandonar a área, que passa ao controle israelense.

“Imagens de satélite mostram que a infraestrutura hídrica da MSF foi completamente destruída, e a região, devastada”, narra o relatório. Em notas divulgadas em ocasiões anteriores, as Forças Armadas de Israel negam ter civis como alvo e afirmam mirar instalações e estruturas usadas pelo Hamas. As declarações mais recentes citam o uso de prédios civis por grupos armados como justificativa para as operações terrestres e aéreas.

Superlotação extrema e disputa diplomática

O documento da MSF se soma a uma série de alertas de agências da ONU e de outras entidades humanitárias sobre a situação em Gaza desde 2023. Nos meses finais da guerra, Israel ordena deslocamentos sucessivos da população, empurrando famílias inteiras de um bairro a outro sob a justificativa de abrir espaço para operações militares. Em agosto de 2025, o governo de Binyamin Netanyahu aprova um plano de ocupação da Cidade de Gaza, área já comprimida por abrigar quase metade dos 2,1 milhões de habitantes do território.

O plano prevê uma “zona humanitária” destinada a concentrar civis fora das áreas de combate, acompanhada, segundo Tel Aviv, de fornecimento de ajuda básica. Na prática, aponta a MSF, a nova zona equivale a 43,3 km² para toda a população do enclave, uma densidade de 48,5 mil pessoas por quilômetro quadrado. A comparação com São Paulo, cuja densidade gira em torno de 7.500 habitantes por quilômetro quadrado, ilustra o grau de compressão.

À época, o secretário-geral da ONU, António Guterres, diz estar “gravemente alarmado” com a estratégia israelense e alerta para uma “escalada perigosa”. No relatório agora divulgado, a MSF argumenta que essa combinação de superlotação extrema com colapso de água e esgoto amplia o risco de surtos de diarreia, hepatite e outras infecções, ao mesmo tempo em que corrói a dignidade básica da vida em abrigo.

Em sua conclusão, a organização volta ao direito internacional humanitário. “Israel é obrigado, nos termos do direito internacional humanitário, na qualidade de potência ocupante, a garantir que as necessidades básicas da população sejam atendidas e a proteger a infraestrutura civil”, afirma o texto. A ONG indica que a destruição de poços, estações de tratamento e caminhões de água não pode ser tratada como efeito colateral inevitável de bombardeios, mas como parte de uma estratégia que precisa ser investigada.

Pressão internacional e reconstrução em disputa

A publicação de “Água como Arma” reforça a pressão sobre Israel em foros multilaterais e tribunais internacionais, num momento em que governos discutem o volume e as condições da ajuda à reconstrução de Gaza. A MSF pede a suspensão do bloqueio à entrada de equipamentos de água e saneamento, a facilitação do trabalho de equipes humanitárias e o fim dos deslocamentos forçados que desorganizam pontos de atendimento. Aos Estados-membros da ONU, a ONG solicita apoio político nas negociações com Israel e aumento de doações destinadas a infraestruturas essenciais.

Os pedidos se somam a debates mais amplos sobre responsabilização por crimes de guerra e sobre o alcance do dever de proteção de uma potência ocupante. Governos europeus e árabes discutem fundos específicos para redesenhar o sistema de água e esgoto de Gaza, enquanto agências técnicas calculam o custo de reconstrução em bilhões de dólares ao longo de vários anos.

No campo diplomático, a denúncia de que água, saneamento e higiene se tornam instrumentos de coerção amplia o grau de constrangimento para aliados de Israel e alimenta iniciativas por resoluções mais duras no Conselho de Segurança. A questão central, apontam diplomatas ouvidos em off por agências internacionais, é se a pressão será suficiente para alterar a lógica do bloqueio em vigor desde 2007.

Nas ruas esburacadas de Gaza, a resposta ainda não aparece. Enquanto governos negociam corredores humanitários e listas de caminhões autorizados, famílias disputam cada litro que sai de torneiras intermitentes ou caminhões raros. Para a MSF, a forma como o mundo reage agora dirá se a água seguirá sendo arma de guerra ou voltará a ser um direito básico para os 2,1 milhões de habitantes do enclave.

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