Ciencia e Tecnologia

Céu do Atacama perde escuridão e acende alerta entre astrônomos

Astrônomos que trabalham no Deserto do Atacama, no Chile, soam um alerta neste ano: o céu mais cobiçado da astronomia moderna começa a ficar mais claro. A expansão urbana e novos projetos de energia elevam a poluição luminosa na região, antes referência mundial em noites escuras e estáveis.

Crescimento no deserto encurta a noite dos telescópios

O Atacama reúne mais de 300 noites limpas por ano, ar seco e pouca interferência atmosférica. Essas condições transformam a região, a cerca de 1,6 mil quilômetros de Santiago, no principal laboratório a céu aberto da astronomia terrestre. Nos últimos anos, porém, a borda de luz das cidades vizinhas avança sobre o horizonte e altera a rotina dos observatórios instalados no platô desértico.

Mapas recentes de brilho do céu mostram aumento contínuo de luminosidade artificial em torno de cidades como Antofagasta, Calama e San Pedro de Atacama. A construção de condomínios, estradas mais iluminadas e parques de energia, inclusive solar e eólica, adiciona holofotes, refletores e torres sinalizadas. “O céu que em 2010 era praticamente negro agora tem um halo visível em várias direções”, afirma um pesquisador ligado a um grande observatório internacional na região.

Os grandes telescópios instalados em altitudes acima de 2,5 mil metros dependem de um fundo de céu o mais escuro possível para detectar objetos tênues, como galáxias distantes e exoplanetas. A luz extra espalhada na atmosfera funciona como um véu, que reduz o contraste das imagens e encurta o alcance dos instrumentos. Em noites de maior claridade, projetos que exigem longas exposições precisam ser interrompidos ou remarcados, o que encarece campanhas científicas já orçadas em milhões de dólares.

Pesquisadores relatam que, em alguns sítios, o brilho do céu aumentou o equivalente a dezenas de por cento em pouco mais de uma década, tendência que acompanha a expansão econômica do norte chileno. O deserto, antes visto como vazio, concentra hoje rotas turísticas, mineração em larga escala e um cinturão de infraestrutura energética que tenta responder à demanda crescente do país.

Cientistas veem risco a pesquisas e ao turismo científico

Os observatórios do Atacama operam com acordos internacionais que somam dezenas de países e bilhões de dólares em investimentos. O radiotelescópio ALMA, inaugurado em 2013, e o VLT, operado pelo Observatório Europeu do Sul, dependem da estabilidade do céu local para cumprir cronogramas de pesquisa que se estendem por décadas. “Cada ponto de luz desnecessária é uma informação do universo que se perde”, resume um astrônomo chileno que acompanha o tema.

A poluição luminosa não afeta apenas a física dos telescópios. O turismo astronômico, que levou San Pedro de Atacama a receber centenas de milhares de visitantes por ano antes da pandemia, se apoia na promessa de um céu estrelado sem concorrência. Guias relatam noites em que a Via Láctea aparece menos nítida e constelações ficam mais difíceis para olhos pouco acostumados à escuridão completa. A experiência que justifica pacotes de alto valor começa a mudar à medida que o horizonte se ilumina.

Especialistas alertam que a perda de qualidade do céu pode afastar novos investimentos em tecnologia e pesquisa. Com outros desertos no mundo disputando projetos de grande porte, qualquer degradação do Atacama pesa. “Quando um consórcio escolhe um local para instalar um telescópio que vai operar por 30 ou 40 anos, ele avalia se o céu de amanhã será tão bom quanto o de hoje”, diz outro pesquisador estrangeiro ouvido pela reportagem.

As consequências chegam ainda à fauna local. Insetos, aves e pequenos mamíferos ajustam seus ciclos à alternância de luz e escuridão. Estudos indicam que o excesso de iluminação artificial rompe rotas de migração e padrões de alimentação, embora esses impactos ainda recebam menos atenção que os efeitos sobre a astronomia. Para cientistas, a combinação de danos científicos, ambientais e econômicos dá urgência ao debate.

Pressão por regras mais rígidas e uso inteligente da luz

O Chile conta desde 2013 com normas específicas para proteger os céus do norte do país, incluindo o Atacama, mas astrônomos consideram que a legislação não acompanha o ritmo da expansão urbana e energética. Projetos recentes de iluminação pública e de parques de energia usam lâmpadas de LED mais eficientes, porém com espectros que, se mal regulados, espalham mais luz azul na atmosfera e ampliam a claridade do céu noturno.

Organizações científicas defendem limites mais duros para outdoors, fachadas e iluminação voltada para cima, além de horários de desligamento automático em áreas pouco movimentadas. A adoção de luzes âmbar, menos agressivas para a observação astronômica, surge como alternativa viável, com custo adicional considerado pequeno diante dos investimentos já realizados nos observatórios. Campanhas de conscientização pública tentam aproximar moradores da discussão e explicar que, ao reduzir o desperdício de luz, também se economiza energia.

Prefeitos da região enfrentam o dilema entre manter o ritmo de obras e responder à pressão internacional por proteção do céu. A cobrança tende a crescer à medida que novas medições de brilho do céu, previstas para os próximos anos, confirmem ou não a tendência de degradação. A possibilidade de o Atacama perder, em poucas décadas, o status de melhor lugar do mundo para observar o universo coloca o país diante de uma decisão estratégica.

O futuro do céu do deserto depende de escolhas tomadas agora em projetos de infraestrutura, planos diretores e políticas ambientais. Cientistas afirmam que ainda é possível reverter parte do dano com tecnologia e planejamento, mas admitem que a janela se estreita a cada novo poste aceso. A pergunta que fica, enquanto a noite encurta sobre os telescópios, é quanta luz a sociedade está disposta a apagar para continuar olhando para o escuro do universo.

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