USP lidera painel global para acelerar transição energética até 2035
Um novo painel internacional de especialistas, liderado pela USP, é lançado em 24 de abril de 2026, em Santa Marta, na Colômbia, para acelerar o abandono dos combustíveis fósseis. A iniciativa mira o período entre 2026 e 2035 e pretende oferecer respostas rápidas a governos e organismos multilaterais sobre como fazer a transição para energias limpas.
Ciência em tempo real para uma década decisiva
O Painel Científico para a Transição Energética Global, conhecido pela sigla em inglês SPGET, nasce com uma ambição clara: encurtar a distância entre a ciência do clima e as decisões políticas sobre energia. Sob liderança brasileira, o grupo se apresenta como uma espécie de sala de situação permanente para o fim da era dos combustíveis fósseis, com atualizações anuais e foco em prazos curtos.
O comando do painel reúne três nomes centrais da diplomacia climática e da pesquisa em energia. O brasileiro Gilberto Jannuzzi, pesquisador da Unicamp, a economista camaronense Vera Songwe, copresidente do Painel de Especialistas de Alto Nível sobre Financiamento Climático, e o alemão Ottmar Edenhofer, diretor e economista-chefe do Instituto Potsdam para Pesquisa de Impacto Climático. O trio encara uma tarefa que muitos governos ainda evitam: desenhar caminhos concretos para deixar para trás petróleo, gás e carvão no ritmo que a ciência considera seguro.
A ideia do painel surge em Belém, durante as discussões da COP30, ainda em 2025. Naquele momento, Ana Toni, diretora-executiva da conferência, cobra de dois cientistas de referência, o brasileiro Carlos Nobre e o sueco Johan Rockström, um instrumento capaz de falar diretamente com ministros de energia e economia, e não apenas com negociadores climáticos. Meses depois, a proposta se materializa em Santa Marta com o lançamento oficial e a definição do Brasil como sede.
O SPGET se diferencia do IPCC, o painel do clima da ONU, não pelo rigor científico, mas pelo recorte. Em vez de analisar todo o sistema climático, concentra-se em uma pergunta incômoda e prática: como, em quanto tempo e a que custo o mundo consegue abrir mão dos combustíveis fósseis e substituí-los por energia limpa? Essa mudança de foco se traduz também em um ritmo mais acelerado, com relatórios anuais e estudos específicos, pensados para destravar pontos críticos em negociações e políticas nacionais.
Quatro frentes para enfrentar o lobby fóssil
O desenho do painel se apoia em quatro grupos de trabalho, que funcionam como engrenagens de uma mesma máquina. Um grupo se dedica aos caminhos da transição em si, mapeando quais setores precisam mudar primeiro, que infraestrutura é necessária e como lidar com a queda gradual da produção de petróleo, gás e carvão. Outro grupo foca em soluções tecnológicas, do barateamento da energia solar e eólica à modernização de redes elétricas e à substituição de combustíveis fósseis no transporte e na indústria pesada.
Um terceiro núcleo discute o desenho de políticas públicas. A missão é traduzir metas climáticas em leis, subsídios, metas de emissões e regulações que tenham chance real de aprovação em parlamentos sob forte pressão de empresas fósseis. O quarto grupo cuida das finanças, área em que o painel espera ter peso imediato. Nesse eixo, entram questões como redirecionar subsídios que hoje favorecem combustíveis fósseis, criar instrumentos de crédito para projetos renováveis e mobilizar bancos públicos e privados.
Vera Songwe e seus colegas partem de um diagnóstico direto: sem dinheiro novo e sem realocação de recursos, a promessa de transição energética fica presa em discursos. A meta do painel é organizar números, cenários de custos e riscos, e entregá-los de forma acessível a ministérios da Fazenda, bancos centrais e agências de fomento. O objetivo é antecipar resistências e desmontar argumentos de que abandonar o petróleo seria sinônimo de recessão.
Na conferência de Santa Marta, a ministra do Meio Ambiente e Desenvolvimento Sustentável da Colômbia, Irene Vélez-Torres, explicita a dimensão política dessa disputa. “Há muito lobby econômico e político que está, na verdade, desviando a lógica científica e a base da ciência na tomada de decisões, especialmente nas decisões governamentais”, afirma. A fala ajuda a explicar por que o painel nasce próximo, mas não subordinado, ao sistema da ONU.
Em carta lida durante o evento, André Corrêa do Lago, presidente da COP30, define o SPGET como uma ponte entre a ciência do IPCC e as análises de energia produzidas por agências como a AIE, a Agência Internacional de Energia, e a Irena, dedicada às renováveis. “Esperamos que as conclusões do painel também enriqueçam os debates multilaterais e possíveis deliberações, inclusive no âmbito da UNFCCC, e contribuam para o ecossistema científico e de políticas públicas mais amplo que apoia rodadas sucessivas de ambição no contexto do Acordo de Paris”, escreve.
Pressão sobre COP31 e disputa por financiamento
O calendário do painel começa apertado. O grupo promete entregar seus primeiros resultados já em novembro de 2026, durante a COP31, que será realizada em Antália, na Turquia, copresidida com a Austrália. Até lá, os coordenadores planejam participar de uma série de reuniões preparatórias, levando rascunhos de cenários e recomendações para delegações interessadas em acelerar a transição energética.
Os organizadores admitem que, por enquanto, nenhum país ou governo subnacional solicita formalmente apoio técnico. O SPGET também ainda busca fontes estáveis de financiamento, embora conte com recursos para a fase inicial. Essa lacuna financeira expõe uma contradição: enquanto subsídios a combustíveis fósseis somam centenas de bilhões de dólares por ano no mundo, painéis voltados à transição lutam por alguns milhões para manter equipes e pesquisas funcionando.
O pano de fundo político do encontro em Santa Marta ajuda a entender a estratégia. O termo mais ouvido nos corredores é “coalition of the willing”, a coalizão dos dispostos. A ideia é reunir países que querem avançar no abandono dos combustíveis fósseis, inclusive produtores de petróleo, como a própria Colômbia, sem ficar reféns da exigência de unanimidade das COPs. Esse formato explica por que grandes emissores como Estados Unidos, China e Rússia ficam de fora desta primeira rodada. A conferência espera receber representantes de 56 países, em busca de um núcleo de vanguarda climática.
A ambição é que, ao longo de 2026 a 2035, o painel contribua para consolidar uma aliança capaz de influenciar, por fora, as negociações oficiais regidas pela Convenção do Clima da ONU. A pressão não viria apenas de diplomatas, mas também de bancos de desenvolvimento, empresas de energia renovável, cidades e movimentos da sociedade civil munidos de dados, cenários e propostas de política pública.
Na prática, isso pode significar, por exemplo, metas mais duras para eliminação de usinas a carvão, prazos claros para o fim da venda de carros a combustão, exigências de transparência sobre subsídios aos fósseis e novos mecanismos de financiamento para países pobres que queiram pular direto para uma matriz renovável. O caminho não é simples, mas o lançamento do painel indica que a disputa pela direção da transição energética deixa de ser apenas uma questão técnica e assume de vez o centro da política internacional.
À medida que os primeiros relatórios forem publicados e confrontarem interesses estabelecidos, o peso real do SPGET ficará mais claro. A pergunta que acompanha o painel desde o nascimento é se, em uma década marcada por eventos extremos, secas prolongadas e avanço do nível do mar, a ciência organizada em torno da energia conseguirá falar mais alto do que o lobby fóssil nas mesas de negociação.
