Rei Charles visita EUA em meio a tensão com Trump e crise no Oriente Médio
O rei Charles III inicia nesta segunda-feira (27) uma visita de Estado aos Estados Unidos, a mais importante de seu reinado. A agenda inclui encontro privado com Donald Trump, discurso ao Congresso e um jantar oficial na Casa Branca, sob forte esquema de segurança após um ataque a tiros em Washington.
Visita histórica em ambiente hostil
A viagem marca os 250 anos da declaração de independência americana do domínio britânico, em 1776, e recoloca em cena a chamada “relação especial” entre Londres e Washington. O rei de 77 anos, em tratamento contra um câncer, desembarca em um país em clima de alerta máximo, dois dias depois de um ataque a tiros durante o jantar da Associação de Correspondentes da Casa Branca, no sábado (25).
O atentado, que tinha o presidente e membros de sua administração como prováveis alvos, segundo o procurador-geral interino dos EUA, quase força uma revisão de toda a operação. Em Londres, assessores de Charles e técnicos de segurança dos dois lados passam o domingo medindo riscos, avaliando rotas alternativas, reforçando barreiras e revendo cada minuto do protocolo.
Mesmo assim, o Palácio de Buckingham decide manter a agenda. “O rei e a rainha estão extremamente gratos a todos que trabalharam com agilidade para garantir que isso continue acontecendo e aguardam ansiosamente o início da visita amanhã”, afirma um porta-voz no domingo (26). O recado é calculado: a monarquia procura sinalizar firmeza institucional em um momento em que a saúde do soberano e a volatilidade política dos EUA geram dúvidas.
Trump também faz questão de indicar normalidade. Autodeclarado fã da realeza britânica, ele costuma se referir a Charles como “um grande homem” e trata a recepção como vitrine de liderança em segurança e política externa, a menos de seis meses das eleições legislativas americanas. O chá privado na Casa Branca, primeiro compromisso da agenda, funciona como termômetro do clima entre os dois.
Diplomacia sob sombra da guerra e das Malvinas
A visita ocorre no pior momento das relações bilaterais desde a Crise de Suez, em 1956, segundo diplomatas britânicos. A guerra EUA-Israel contra o Irã expõe fissuras entre os aliados, depois que o governo de Keir Starmer evita endossar publicamente a ofensiva americana. Trump reage com irritação e pressiona Londres em declarações e conversas reservadas.
Nos bastidores, um e-mail interno do Pentágono, revelado por fontes do governo, sugere revisar a posição de Washington sobre a reivindicação britânica das Ilhas Malvinas como forma de punição pela falta de apoio na guerra. O simples fato de o documento circular já basta para acender alarmes em Downing Street e na embaixada britânica em Washington. A disputa com a Argentina pelo arquipélago, controlado por Londres desde o século XIX, é uma linha vermelha para qualquer governo britânico.
O embaixador Christian Turner tenta conter danos. Em entrevistas, fala em “história compartilhada, sacrifícios e valores comuns” e repete o mantra de que a resposta britânica é “manter a calma e seguir em frente”. O governo Starmer aposta em Charles como ativo diplomático: um chefe de Estado acima da disputa partidária, capaz de recolocar o foco em cultura, meio ambiente e memória histórica, longe da retórica bélica de Trump.
No Congresso, onde se torna apenas o segundo monarca britânico a discursar em mais de 200 anos de história da instituição, o rei deve defender cooperação climática, comércio e defesa. A fala, prevista para cerca de 30 minutos, é vista como oportunidade de selar um compromisso simbólico com parlamentares de ambos os partidos em temas que sobrevivem a trocas de governo.
Após a passagem por Washington, a comitiva segue a Nova York. No marco de quase 25 anos dos atentados de 11 de setembro de 2001, Charles presta homenagem às vítimas no Marco Zero, em Manhattan. A rainha participa de um evento paralelo para celebrar o centenário das primeiras histórias do Ursinho Pooh, criado em 1926, uma lembrança calculada da intersecção entre cultura britânica e infância americana.
Imagem da monarquia, Epstein e próximos passos
Os últimos compromissos ocorrem na Virgínia, onde o rei se encontra com cientistas e ativistas envolvidos em projetos de conservação ambiental. A equipe de Charles destaca que ele atua nessa área há mais de 50 anos, muito antes de o termo “crise climática” entrar no vocabulário político. O roteiro, que inclui visita a áreas de reflorestamento e projetos de agricultura regenerativa, pretende fixar a imagem de um monarca engajado em temas de longo prazo, não apenas em cerimônias de Estado.
O contexto, porém, não é isento de sombras pessoais. O Palácio de Buckingham confirma que não haverá encontros com vítimas do escândalo de Jeffrey Epstein, apesar de pedidos de entidades de direitos humanos. Assessores alegam risco de interferência em possíveis processos criminais em andamento. O irmão do rei, Andrew Mountbatten-Windsor, investigado pela polícia por suas ligações com o criminoso sexual americano, continua afastado da vida pública e nega qualquer irregularidade.
Para a monarquia, a visita funciona como teste de estresse. Mostra até que ponto é possível usar o prestígio do rei para amortecer choques políticos entre governos sem arrastar a instituição para o centro da disputa. Em Londres, aliados de Starmer esperam sair da semana com sinais concretos de estabilidade: uma declaração conjunta sobre clima, algum aceno de que o Pentágono não mexerá na posição sobre as Malvinas e fotos cuidadosamente coreografadas em Washington e Nova York.
Em Washington, a Casa Branca avalia ganhos e riscos. Um aceno público a Charles e ao Reino Unido ajuda Trump a exibir unidade com um parceiro histórico, em meio à guerra no Oriente Médio e à pressão por resultados na segurança interna após o ataque do dia 25. Qualquer incidente, por menor que seja, terá potencial para alimentar críticas da oposição sobre falhas no aparato de proteção presidencial.
Os próximos dias revelam se a aposta em manter a visita, mesmo com o rei em tratamento contra o câncer e diante de uma ameaça concreta à Casa Branca, reforça ou fragiliza a narrativa de confiança mútua. A imagem de Charles no Capitólio, falando a um Congresso polarizado, e a de Trump no salão de jantar da Casa Branca, brindando ao aliado que um dia foi inimigo colonial, ajudam a contar qual será o tom da relação anglo-americana nos próximos 250 anos.
