Ultimas

PF devolve credenciais e reduz tensão com EUA após expulsões

A Polícia Federal devolve nesta segunda-feira (27) as credenciais de um agente dos Estados Unidos lotado em Brasília. A medida marca uma inflexão na crise diplomática aberta após a expulsão, pelos EUA, do delegado brasileiro Marcelo Ivo, acusado de irregularidades no pedido de extradição do ex-deputado Alexandre Ramagem.

Governo recua de escalada e busca reequilíbrio

O recuo é decidido após avaliação conjunta de Polícia Federal, Itamaraty e Palácio do Planalto. A leitura é de que o princípio da reciprocidade, usado para responder à expulsão do delegado brasileiro, já está atendido. No cálculo político e diplomático, manter duas sanções simultâneas contra representantes do governo do presidente Donald Trump ampliaria o desgaste com Washington sem trazer ganhos concretos.

O agente que volta a circular na sede da PF em Brasília teve as credenciais suspensas pouco depois de o governo norte-americano ordenar a saída de Marcelo Ivo dos Estados Unidos. O nome do servidor não é divulgado por autoridades brasileiras, em linha com a prática de preservar identidades de policiais estrangeiros destacados em missões de cooperação.

O caso ganha peso porque expõe as zonas de atrito da colaboração policial entre os dois países, construída ao longo de décadas em torno de temas como imigração, combate ao tráfico e lavagem de dinheiro. Em vez de encerrar a parceria, o governo brasileiro prefere ajustar o tom e sinalizar que a resposta tem limite claro.

Da expulsão ao recuo: bastidores da crise

A crise começa quando autoridades dos Estados Unidos ordenam a retirada de Marcelo Ivo, delegado da PF que atuava como oficial de ligação junto ao Serviço de Imigração e Controle de Aduanas (ICE) em Miami. A justificativa é grave: o delegado teria manipulado o trâmite do pedido de extradição de Alexandre Ramagem, condenado pelo Supremo Tribunal Federal a 16 anos de prisão por participação em tentativa de golpe de Estado e considerado foragido da Justiça brasileira.

Ramagem é detido em território norte-americano após uma infração de trânsito. A abordagem revela o uso de documentos falsos. Na sequência, a defesa apresenta pedido de asilo. A prisão é revogada, e o ex-deputado passa a aguardar em liberdade a decisão do governo dos EUA entre aceitar a extradição ou conceder refúgio político. A pressão de Brasília aumenta conforme o processo avança e o risco de prescrição de prazos internos é discutido em reservado.

Em reação à expulsão de Marcelo Ivo, o governo brasileiro retira as credenciais de um agente dos Estados Unidos que atuava junto à PF em Brasília e adota medida ainda mais dura: o Itamaraty determina a expulsão de Michael William Myers, integrante do Serviço de Imigração e Controle de Alfândega (ICE) no Brasil. Myers deixa o país na quinta-feira, 23, fechando uma primeira rodada de retaliações cruzadas.

Aliados do governo defendem a resposta firme. Para eles, a atitude norte-americana é desproporcional e fere a relação de confiança entre órgãos de investigação. Integrantes da área diplomática, porém, alertam para o risco de um ciclo de punições sucessivas. Em conversas reservadas, um diplomata resume o dilema: “Reciprocidade é regra, mas precisa ter freio. Se ninguém parar, a cooperação desmorona”.

Impacto na cooperação e no jogo político

A devolução das credenciais evita que o contencioso avance sobre outras áreas sensíveis da relação bilateral. Investigações de crimes transnacionais dependem de compartilhamento de dados em tempo quase real. Em 2025, por exemplo, operações conjuntas de Brasil e Estados Unidos resultam na prisão de dezenas de suspeitos de tráfico internacional e no bloqueio de milhões de dólares em ativos. Esse tipo de trabalho fica vulnerável quando o ambiente político se contamina.

A moderação também busca conter efeitos colaterais internos. A extradição de Alexandre Ramagem se transforma em tema de disputa entre governo e oposição, que acusa o Planalto de “politizar” a cooperação com os EUA. O episódio da expulsão de Marcelo Ivo alimenta teorias de interferência externa em julgamentos do STF e reacende discursos de perseguição. Ao reduzir o tom da resposta, o governo tenta isolar o caso específico da disputa mais ampla em torno da responsabilização de aliados do antigo governo.

Na esfera diplomática, a decisão é lida como tentativa de preservar espaço de negociação em outros campos, como comércio, meio ambiente e defesa. Negociadores brasileiros lembram que contenciosos pontuais costumam ser usados como justificativa para travar agendas maiores. “Quando a área de segurança trava, tudo o mais anda mais devagar”, admite um interlocutor envolvido nas conversas.

O que vem a seguir nas relações Brasil-EUA

Com a devolução das credenciais, o agente norte-americano volta a ter acesso regular às dependências da PF em Brasília, inclusive a reuniões de coordenação de operações conjuntas. Internamente, a corporação discute novas salvaguardas para tramitar pedidos de cooperação que envolvam figuras públicas brasileiras, numa tentativa de blindar processos técnicos de pressões políticas de ambos os lados.

No plano diplomático, a ordem agora é conter danos e reconstruir confiança em etapas. A extradição de Alexandre Ramagem permanece como ponto sensível e deve testar até onde vai a disposição de Washington em atender aos pedidos de Brasília. A forma como esse caso será resolvido tende a definir, pelos próximos anos, o grau de profundidade da cooperação jurídica entre os dois países, hoje atravessada por disputas políticas que nenhum dos lados admite em público, mas que pesam em cada decisão de bastidor.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *