Rubio vê proposta iraniana sobre Ormuz como avanço, mas mantém veto nuclear
O secretário de Estado dos Estados Unidos, Marco Rubio, afirma nesta segunda-feira (27) que a nova proposta do Irã para reabrir o Estreito de Ormuz é “melhor do que o esperado”, mas alerta que o ponto decisivo continua sendo o programa nuclear de Teerã. Em entrevista à Fox News, ele reforça que Washington não aceita um acordo que alivie a pressão sobre a hidrovia estratégica e deixe para depois a discussão sobre a capacidade atômica iraniana.
Proposta agrada em Ormuz, mas emperra no dossiê nuclear
A avaliação de Rubio ocorre em meio a negociações intensas sobre o futuro do acordo nuclear com o Irã, retomadas após meses de impasse. A nova oferta iraniana, revelada por fontes ouvidas pela CNN, prevê a reabertura completa do Estreito de Ormuz, por onde circula cerca de 20% do petróleo comercializado no mundo, mas empurra para um segundo momento qualquer compromisso adicional sobre o programa nuclear. Para o chefe da diplomacia americana, essa separação é inaceitável.
“Basta dizer que a questão nuclear é o motivo pelo qual estamos nisso em primeiro lugar”, afirma Rubio. Diante da insistência da apresentadora sobre se o presidente Donald Trump poderia aceitar um entendimento parcial, ele recusa a especulação e remete a decisão à Casa Branca. Ainda assim, deixa claro o recado: “O programa nuclear iraniano continua sendo a questão central aqui”.
Rubio descreve uma mesa de negociação complexa, na qual os diplomatas dos Estados Unidos não se sentam apenas frente a frente com representantes iranianos. Segundo ele, os próprios enviados de Teerã precisam, a cada passo, voltar a consultar diferentes centros de poder dentro do regime. “Esses iranianos, por sua vez, precisam negociar com outros iranianos para descobrir o que podem aceitar, o que podem oferecer, o que estão dispostos a fazer e até mesmo com quem estão dispostos a se encontrar”, diz.
Esse labirinto político ajuda a explicar, na visão de Washington, a demora por respostas claras e a sucessão de propostas parciais. Rubio fala em uma estratégia calculada de Teerã para ganhar tempo. O Irã, lembra ele, domina há anos a tecnologia necessária para enriquecer urânio em níveis mais altos e já testou mísseis balísticos capazes de alcançar alvos a milhares de quilômetros. “Eles são negociadores muito experientes e precisamos garantir que qualquer acordo firmado os impeça definitivamente de correr em direção a uma arma nuclear em qualquer momento”, afirma.
O secretário acrescenta que ainda há dúvidas até sobre a autoria política da nova proposta. “Ainda há dúvidas sobre se a pessoa que apresentou a proposta tinha autoridade para fazê-lo… e o que ela significa”, aponta, sugerindo disputas internas no alto comando iraniano. Essa incerteza reforça o ceticismo de Washington, que teme assinar um documento que possa ser desautorizado em Teerã semanas depois.
Hidrovia vital, risco de escalada e impacto no bolso
O Estreito de Ormuz, estreita passagem entre o Golfo Pérsico e o Golfo de Omã, concentra há décadas o nervo exposto da segurança energética global. Em dias normais, algo entre 17 milhões e 20 milhões de barris de petróleo cru cruzam a área, segundo estimativas da Agência Internacional de Energia. Quando o Irã ameaça fechar ou restringir a hidrovia, o efeito aparece quase imediatamente nas cotações internacionais, nas bolsas e, semanas depois, no preço do combustível para o consumidor.
Nesse cenário, a proposta de reabertura total de Ormuz surge como um alívio tático para mercados já pressionados por conflitos regionais e instabilidade política. Navios-tanque aguardam sinal verde para retomar rotas regulares, seguradoras recalculam riscos e governos da Europa e da Ásia acompanham cada movimento em Washington e Teerã. A promessa de fluxo marítimo normal ajuda a reduzir a probabilidade de incidentes militares, mas, sem um freio claro ao programa nuclear, não elimina o risco de uma nova corrida armamentista no Oriente Médio.
Rubio faz questão de fixar uma linha vermelha. Para ele, é inconcebível transformar o Estreito de Ormuz em instrumento permanente de pressão econômica ou política. “Eles não podem normalizar, nem podemos tolerar que tentem normalizar, um sistema em que os iranianos decidem quem pode usar uma hidrovia internacional e quanto se deve pagar para usá-la”, diz. O secretário rejeita qualquer arranjo que legitime pedágios, inspeções seletivas ou ameaças de bloqueio como moeda de troca.
Nos bastidores, diplomatas americanos e europeus avaliam que um acordo limitado a Ormuz poderia ser visto em Teerã como sinal de fraqueza e estimular novos testes de limites, seja com mísseis, seja com avanços discretos no enriquecimento de urânio. A preocupação é compartilhada por aliados regionais, como Arábia Saudita, Emirados Árabes e Israel, que pressionam por garantias verificáveis de que o Irã não se aproximará da capacidade de produzir uma ogiva nuclear.
O debate se estende ao próprio núcleo do poder iraniano. Rubio afirma que os Estados Unidos têm indícios de que o líder supremo, Mojtaba Khamenei, está vivo e no comando, mas questiona “as credenciais clericais para de fato atuar como líder supremo”. A frase aponta para uma disputa menos visível, entre setores que defendem alguma acomodação com o Ocidente e grupos que veem qualquer concessão em Ormuz ou no dossiê nuclear como ameaça existencial ao regime.
Negociações em compasso tenso e incertezas pela frente
No curto prazo, a análise de Rubio tende a endurecer o tom da delegação americana nas conversas com Teerã. Qualquer rascunho de entendimento que chegue à mesa de Trump precisará mostrar números e prazos claros para limitar o programa nuclear iraniano, com inspeções internacionais e mecanismos de verificação. Sem isso, cresce o risco de uma escalada de sanções econômicas, possivelmente já nos próximos meses, com impacto direto sobre as exportações de petróleo iraniano e a economia do país, que encolhe em torno de 5% ao ano desde a retomada das punições.
O impasse também testa a capacidade de coordenação entre Washington e seus principais aliados. Países europeus tentam manter canais abertos com Teerã e defendem alguma flexibilidade na forma de vincular Ormuz ao dossiê nuclear, desde que a Agência Internacional de Energia Atômica continue com acesso pleno às instalações iranianas. A Rússia e a China exploram as brechas para reforçar laços comerciais com o Irã, oferecendo investimentos em infraestrutura e compra de petróleo com desconto.
A decisão final, porém, volta à Casa Branca. Trump, em campanha antecipada e sob pressão doméstica, precisa equilibrar a promessa de evitar novas guerras no Oriente Médio com o compromisso de impedir um Irã nuclear. Uma solução que reabra Ormuz e contenha de forma crível o programa atômico pode render dividendos políticos e econômicos, mas qualquer recuo será explorado por adversários internos como sinal de fraqueza.
À medida que abril de 2026 se encerra, as duas frentes da crise — a passagem segura por Ormuz e o futuro do programa nuclear iraniano — seguem amarradas. A entrevista de Rubio deixa claro que, para Washington, não há como separar uma da outra. A pergunta que permanece, em Teerã, em capitais europeias e nos corredores da ONU, é se o Irã está disposto a pagar o preço político de um acordo que lhe abra o estreito sem fechar definitivamente a porta para a bomba.
