Bilhete revela motivação política de atirador em jantar com Trump
Cole Tomas Allen, 31, abre fogo no jantar anual de correspondentes da Casa Branca, em Washington, na noite de 25 de abril de 2026, e fere um agente do Serviço Secreto antes de ser detido. Horas antes, ele envia à família um bilhete em que admite planejar atacar funcionários do governo por raiva contra a administração Trump e afirma: “Não espero perdão”.
O ataque em um dos eventos mais vigiados de Washington
O tiroteio ocorre no Washington Hilton, hotel que tradicionalmente recebe o jantar com presença do presidente dos Estados Unidos, jornalistas e autoridades. Donald Trump está no salão de baile quando os disparos ecoam do lado de fora da área principal de segurança. O presidente é levado às pressas para uma área protegida enquanto equipes do Serviço Secreto avançam pelos corredores.
Allen, segundo autoridades ouvidas pela CNN, se aproxima de um dos pontos de checagem e consegue ultrapassar a barreira inicial. Ele carrega uma pistola semiautomática calibre 38 e uma espingarda calibre 12. Ao tentar avançar para a área mais interna, dispara “alguns tiros” e atinge um agente do Serviço Secreto, protegido por colete à prova de balas. O agente é levado ao hospital e liberado após exames.
O ataque dura poucos segundos. Agentes imobilizam o suspeito, tomam as armas e o levam sob custódia. Dentro do salão, convidados se abaixam atrás de mesas enquanto seguranças fecham as portas. “Ainda estamos tentando entender a motivação. Segundo nossa investigação preliminar, parece que o suspeito tinha como alvo membros do governo”, afirma o procurador-geral interino Todd Blanche.
O bilhete, a viagem e a escalada da radicalização
O que acontece na noite de sábado começa a se desenhar dias antes, em Los Angeles. De acordo com a Casa Branca, Allen intensifica nos últimos anos a participação em ativismo de esquerda em Los Angeles, passa a fazer declarações cada vez mais radicais e, em paralelo, compra armas e treina em um estande de tiro. Em 6 de outubro de 2023, ele adquire legalmente uma pistola calibre 38 em uma loja no sul da Califórnia. Em 17 de agosto de 2025, compra uma espingarda calibre 12 em Torrance, sua cidade natal.
Os registros mostram que, nas duas compras, ele passa por checagem de antecedentes do FBI, que verifica se há mandados de prisão, ordens de restrição ou condenações criminais. Nada impede as vendas. No plano público, Allen mantém a imagem de professor e desenvolvedor de jogos independentes. Trabalha meio período na empresa de educação C2, que o premia como “professor do mês” em dezembro de 2024, e lança o jogo “Bohrdom” na plataforma Steam por US$ 1,99.
Seu currículo acadêmico é sólido. Ele se forma em engenharia mecânica pelo Caltech em 2017, participa da Christian Fellowship da universidade e desenvolve um protótipo de freio de emergência para cadeiras de rodas, tema de uma reportagem local. Nas redes sociais, fotos mostram um jovem sorridente em grupos religiosos do campus. A trajetória pública contrasta com a figura descrita pela irmã às autoridades: um militante cada vez mais inflamado, que adota posições radicais à medida que se aproxima de grupos de esquerda em Los Angeles.
Nos últimos dias, essa retórica se transforma em plano concreto. Segundo as autoridades, Allen embarca em um trem em Los Angeles, passa por Chicago e segue para Washington, onde se hospeda no próprio Washington Hilton, hotel que ele sabe que receberá o jantar anual com Trump e integrantes do alto escalão do governo. Ele assina o check-in como qualquer hóspede, circula por áreas comuns e, em algum momento, redige a mensagem que envia à família.
“Gostaria de começar pedindo desculpas a todos de cuja confiança abusei”, escreve, segundo transcrição divulgada pela Casa Branca. Ele se autodenomina o “assassino federal amigável” e deixa claro o alvo: “declarava claramente que queria atacar funcionários do governo”, resume o governo. O bilhete lista queixas genéricas, cita as condições em centros de detenção e faz referência a Trump como “traidor”. “Sinto raiva ao pensar em tudo o que esta administração fez”, afirma.
Ele tenta enquadrar o ataque dentro de sua fé. “Oferecer a outra face quando alguém é oprimido não é comportamento cristão; é cumplicidade nos crimes do opressor”, escreve. A mensagem traz ainda um limite que não se concretiza. Ele diz que não pretende atacar forças da lei, mas admite: “Eu ainda passaria por quase todos aqui para chegar aos alvos, se fosse absolutamente necessário”. No fim, encerra com a frase que marca o documento: “Não espero perdão”.
Depois de ler o texto, o irmão de Allen liga para o Departamento de Polícia de New London, em Connecticut, e relata a preocupação. Outros familiares buscam autoridades locais. A engrenagem de emergência se move tarde demais. Quando a polícia tenta localizar o suspeito, ele já está armado e a caminho do posto de segurança do jantar.
Investigação amplia foco em radicalização interna e falhas de segurança
O ataque reacende, em Washington, debates sobre segurança em eventos de alto perfil e sobre a escalada da violência política dentro dos Estados Unidos. A Casa Branca anuncia que vai discutir protocolos com o Serviço Secreto e revisar procedimentos em grandes jantares oficiais, em que presidente, ministros e parlamentares se reúnem no mesmo salão. Trump, segundo relato à CNN, diz que “não estava preocupado” com o som dos tiros naquela noite.
Procuradores federais acusam Allen de dois crimes de porte ilegal de arma de fogo e um crime de agressão a agente federal com arma perigosa, informa a procuradora do Distrito de Columbia, Jeanine Pirro. Ela não divulga oficialmente o nome do suspeito, mas fontes do governo confirmam a identidade à imprensa. Blanche afirma que Allen se recusa a cooperar com investigadores e permanece sob custódia federal.
Equipes do FBI seguem para Torrance, subúrbio de Los Angeles ligado ao suspeito. Uma fita amarela isola parte da rua, refletores iluminam a fachada e helicópteros de emissoras de TV sobrevoam a região. Vizinhos dizem ver pouco movimento recente na casa. “Não tinha certeza se ele morava ali. Vi ele por aqui há alguns dias”, relata um morador à CNN. Em Rockville, Maryland, agentes do Serviço Secreto e da polícia local ouvem a irmã de Allen e tentam reconstituir a escalada de radicalização.
Investigadores também abrem as contas de Allen em redes sociais e revisam seu engajamento político. Registros da Comissão Eleitoral Federal mostram que ele doa US$ 25 para a campanha presidencial de Kamala Harris em outubro de 2024. Em paralelo, ele se aproxima do grupo de esquerda “The Wide Awakes”, que resgata o nome de ativistas antiescravagistas que apoiaram Abraham Lincoln na década de 1860. Trump, em conversas com assessores, descreve o histórico digital do suspeito como “anticristão”.
Especialistas em segurança ouvidos informalmente por autoridades veem no caso um retrato da ameaça de “lobos solitários” politizados. São indivíduos sem ligação formal com organizações terroristas, mas que usam a retórica política para justificar violência e buscam, sozinhos, atingir alvos de alto impacto simbólico. O fato de Allen ter conseguido se hospedar no mesmo hotel do presidente, mesmo em um dos eventos mais monitorados do calendário político, adiciona pressão sobre o Serviço Secreto.
Pressão por respostas e o que pode mudar daqui para frente
Nas horas seguintes ao ataque, a principal preocupação das autoridades é descartar a existência de cúmplices ou de um plano mais amplo. Até o momento, a investigação trata o caso como ação individual. O FBI, o Serviço Secreto e o ATF compartilham dados sobre viagens, compras de armas, movimentações financeiras e comunicações recentes do suspeito.
A análise do bilhete, da trajetória pessoal e do envolvimento político de Allen tende a influenciar discussões em curso sobre prevenção à radicalização violenta. Parlamentares de ambos os partidos já falam em audiências no Congresso para avaliar protocolos de acesso a grandes eventos políticos e a eficácia das checagens de antecedentes para compra de armas, especialmente em estados como a Califórnia, onde ele adquire legalmente as duas armas usadas no ataque.
Nos bastidores, assessores da Casa Branca avaliam ajustes em rotas, horários e formato de jantares e recepções presidenciais. Uma das hipóteses é reduzir o número de convidados em eventos que concentram, em poucas horas, presidente, vice, ministros, juízes da Suprema Corte e líderes do Congresso em um mesmo espaço. Outra frente mira o diálogo com plataformas digitais, já que a linha entre opinião radical e incitação à violência se mostra, mais uma vez, tênue.
Allen, que se apresenta ao mundo por anos como professor dedicado, cristão praticante e desenvolvedor de jogos, passa a ser examinado como símbolo de uma fissura mais profunda. Famílias, escolas, igrejas e movimentos políticos se veem, de repente, incluídos no debate sobre os sinais que indicam quando o discurso ultrapassa o limite da discordância e se converte em projeto de ataque.
O processo criminal contra o suspeito deve se arrastar por meses no Distrito de Columbia, enquanto peritos vasculham cada dispositivo eletrônico e cada deslocamento recente. A resposta institucional, porém, terá de ser mais rápida. Em um país que já vive sob tensão armada e polarização permanente, a pergunta que fica, após os tiros no salão de um hotel em Washington, é quantos alertas ainda serão ignorados até que o próximo bilhete chegue tarde demais.
