Roubos de iPhone migram do centro para Capão Redondo e bairros vizinhos
A explosão de roubos de celulares, em especial iPhones, muda o mapa do crime em São Paulo em 2025. Moradores de Capão Redondo, Jardim Herculano e Parque Santo Antônio relatam aumento brusco de ataques nas ruas e no transporte público.
Mapa do crime se redesenha na periferia
O que antes se concentra nas áreas centrais agora se espalha pelas bordas da cidade. Em Capão Redondo, Jardim Herculano e Parque Santo Antônio, relatos de assaltos se tornam rotina desde o início do ano. A mudança acompanha a alta demanda por iPhones na periferia, que transforma o celular em alvo prioritário de grupos especializados.
Moradores afirmam que o padrão dos ataques muda rapidamente. Criminosos circulam em motos, abordam em pontos de ônibus e nas saídas de estações de metrô e terminais de ônibus da região. Em muitas ruas, depois das 20h, o movimento diminui visivelmente. “Hoje eu penso duas vezes antes de tirar o celular do bolso, mesmo na porta de casa”, conta um auxiliar de serviços gerais de 32 anos, morador do Capão Redondo há mais de uma década.
Dados extraoficiais de delegacias da zona sul indicam que as ocorrências de roubo de celular crescem perto de 30% na comparação com 2024, com forte concentração em aparelhos de alto valor. Entre eles, os iPhones aparecem como principal alvo, segundo policiais ouvidos sob condição de anonimato. Em alguns plantões, a cada dez boletins de roubo de telefone, sete envolvem modelos da Apple, lançados nos últimos três anos.
A migração se encaixa no que investigadores chamam de “deslocamento do risco”. Com mais câmeras, policiamento ostensivo, operações pontuais e rastreamento sofisticado em áreas como Paulista, Centro e Vila Madalena, grupos organizados passam a testar o entorno, onde a presença policial é menos constante e as vítimas circulam com aparelhos caros, muitas vezes recém-adquiridos no crediário.
Periferia vira vitrine e alvo da economia do roubo
A expansão do consumo de eletrônicos na periferia ajuda a explicar a nova rota do crime. Em 2025, um iPhone de geração recente custa entre R$ 4 mil e R$ 8 mil nas lojas oficiais. No mercado paralelo da zona sul, o mesmo aparelho aparece por até metade do preço, sem nota fiscal, pago em dinheiro vivo ou em transferências por aplicativos. Para muitos grupos criminosos, o celular se torna moeda rápida, com revenda concluída em menos de 24 horas.
Em Capão Redondo, lojistas de assistência técnica e comerciantes de eletrônicos sentem o impacto direto. Um técnico de 41 anos, que trabalha em uma galeria próxima ao terminal de ônibus, relata mudança clara no perfil da clientela. “Antes chegava muito aparelho quebrado, gente pedindo troca de tela. Agora aparece muita gente querendo bloquear iPhone roubado ou perguntando se eu compro. Eu recuso, porque sei que posso ser preso, mas muita loja por aí não recusa”, afirma.
A presença de pontos informais de compra e venda alimenta o ciclo. Em um raio de 3 quilômetros entre Capão Redondo, Jardim Herculano e Parque Santo Antônio, moradores citam pelo menos dez locais onde é possível encontrar iPhones usados sem procedência comprovada. A maior parte opera em pequenos boxes, feiras de rua ou por grupos de redes sociais, o que dificulta o rastreamento pelas autoridades.
Especialistas em segurança ouvidos pela reportagem afirmam que o fenômeno expõe um desequilíbrio histórico: serviços públicos e policiamento chegam mais devagar às periferias, enquanto a tecnologia e o consumo avançam mais rápido. “A câmera inteligente chegou antes da viatura”, resume um pesquisador de políticas urbanas. Na avaliação dele, a cidade reforça fronteiras invisíveis, ao proteger com tecnologia os espaços mais ricos e empurrar a criminalidade para bairros que já convivem com outros tipos de violência.
A sensação de insegurança pesa no cotidiano. Pais evitam que filhos adolescentes voltem sozinhos da escola depois das 19h. Trabalhadores reorganizam trajetos para fugir de pontos tradicionalmente movimentados, mas agora marcados por ataques. Em grupos de WhatsApp de rua, circularam em março ao menos 15 alertas de assaltos em menos de uma semana, sempre com a mesma descrição: duas motos, abordagem rápida, foco em iPhones recentes.
Pressão por resposta e desafios para o poder público
A mudança no mapa dos roubos pressiona o poder público a redesenhar estratégias de segurança. Na prática, isso significa deslocar equipes da Polícia Militar, reforçar o policiamento a pé e ampliar o uso de câmeras em regiões historicamente esquecidas. Moradores cobram ações concretas e prazos claros. “Quando o problema estoura no centro, a resposta vem em dias. Aqui, a gente espera meses”, critica uma comerciante de 46 anos do Jardim Herculano.
Delegacias da região lidam com um volume crescente de boletins, mas enfrentam limitações de pessoal e de estrutura tecnológica. O rastreamento de iPhones, que poderia ser um aliado importante, esbarra em crimes cometidos por quadrilhas que aprendem a burlar travas e enviam parte dos aparelhos para outros estados em menos de 48 horas. Sem investigação articulada entre diferentes regiões, o ciclo de roubos se renova.
Organizações da sociedade civil que atuam na zona sul defendem uma política combinada, que não se restrinja ao aumento da presença policial. Projetos de prevenção para jovens, ampliação de oportunidades de trabalho e campanhas educativas sobre compra de produtos sem nota aparecem como caminhos complementares. A ideia é reduzir o apelo do mercado ilegal, que transforma o iPhone roubado em bem de consumo quase comum.
Nos próximos meses, a pressão tende a crescer. O avanço de modelos mais caros, com preços que podem ultrapassar R$ 10 mil até o fim de 2025, aumenta o potencial de lucro para as quadrilhas. Se o poder público não responder com planejamento de médio prazo, a periferia corre o risco de se consolidar como novo epicentro dos roubos de celulares na capital.
A disputa em torno de um aparelho que cabe no bolso revela uma questão maior. A cidade aceita que a proteção mais eficiente se concentre em poucos bairros ou decide estendê-la, de fato, a quem vive nas bordas? A resposta, ou sua ausência, vai definir não apenas o mapa do crime, mas também quem pode se sentir conectado e seguro em São Paulo nos próximos anos.
