Zema promete privatizar Petrobras, BB e Correios em “plano implacável”
O ex-governador de Minas Gerais Romeu Zema (Novo) anuncia neste domingo (26) um plano de privatizações em larga escala caso seja eleito presidente em 2026. Em vídeo publicado no Instagram, ele promete vender Petrobras, Banco do Brasil, Correios e outras estatais deficitárias, além de cortar super salários e mordomias em Brasília.
Zema mira dívida pública e amplia tom contra gastos do governo Lula
O pré-candidato escolhe as redes sociais para radicalizar o discurso liberal e se colocar como contraponto direto ao governo Luiz Inácio Lula da Silva (PT). Ao longo de pouco mais de dois minutos, ele acusa o Planalto de “gastar mais do que arrecada” e de empurrar a conta para as próximas gerações por meio de endividamento recorde.
“Meu plano para fazer o Brasil prosperar é implacável. E ele começa dizendo a você a verdade: o governo Lula gasta mais do que arrecada”, afirma Zema, olhando diretamente para a câmera. Ele sustenta que a dívida pública, hoje próxima de R$ 9 trilhões, cresce em ritmo insustentável e consome recursos que poderiam financiar serviços básicos.
Na peça, o ex-governador acusa o governo de pagar “juros de agiota” e de manter uma máquina cara e ineficiente. Sem citar números detalhados, promete atacar o problema por duas frentes: privatizações em massa e uma espécie de “poupança” nacional voltada ao abatimento da dívida. “O governo pega muito dinheiro emprestado, e isso cria uma dívida que cresce sem parar”, insiste.
Ele apresenta o projeto como uma ruptura com o modelo que, na avaliação dele, domina Brasília há décadas. “Eu vou privatizar a Petrobras. Eu vou privatizar o Banco do Brasil. E vou passar a faca nos super salários, mordomias e esquemas que sustentam os intocáveis de Brasília”, declara, em um dos trechos mais duros do vídeo.
Privatizações voltam ao centro do debate eleitoral
O anúncio recoloca as privatizações no centro da disputa eleitoral de 2026 e mira diretamente empresas consideradas joias da coroa do Estado brasileiro. A Petrobras, criada em 1953, responde por boa parte da produção nacional de petróleo e gás e é vista por defensores como pilar da soberania energética. O Banco do Brasil, fundado em 1808, é peça-chave no crédito agrícola e no financiamento a pequenos negócios.
Zema afirma que a lista não se limita às duas gigantes. “Vamos vender também as estatais que só dão prejuízo, como os Correios. E participações do governo em empresas privadas também”, diz. Ele conclui a gravação com um bordão em tom de slogan: “Meu nome é Zema”.
A estratégia não surge do nada. Em 2018, quando disputa o governo de Minas Gerais, Zema já defende um programa amplo de redução do Estado. Na campanha, propõe a venda da Cemig, companhia elétrica do estado, e da Copasa, responsável pelo saneamento. No segundo mandato, consegue emplacar a privatização da Copasa, amarrada à adesão de Minas ao Programa de Pleno Pagamento de Dívidas dos Estados (Propag), mecanismo que alivia o caixa estadual em troca de ajustes e desinvestimentos.
O projeto de venda da Cemig encontra mais resistência na Assembleia Legislativa e na sociedade. Diante do impasse, o governo mineiro, hoje comandado por Mateus Simões (PSD), aliado de Zema, trabalha para transformar a companhia em uma “corporation”, modelo que pulveriza o controle entre acionistas privados. O histórico serve de vitrine para a pré-campanha nacional e é usado por aliados como prova de que o ex-governador não apenas promete, mas executa.
Economistas liberais veem na proposta federal uma continuidade em escala ampliada do laboratório mineiro. Críticos enxergam risco à soberania energética, ao crédito público e à universalização de serviços postais, além de temerem demissões em massa. O embate tende a se intensificar à medida que o calendário eleitoral avança e partidos se posicionam diante da agenda.
Disputa sobre soberania, empregos e contas públicas
O plano de Zema mexe com interesses econômicos e simbólicos de grande porte. A privatização de Petrobras e Banco do Brasil exige mudanças constitucionais, aprovação no Congresso e apoio de uma base robusta, algo que nenhum governo recente conseguiu articular. A venda dos Correios, tentada no governo Jair Bolsonaro (PL), emperra no Senado e vira exemplo das dificuldades políticas desse tipo de agenda.
Os defensores do pacote argumentam que empresas privadas tendem a ser mais eficientes, investir mais e prestar serviços melhores. Sustentam ainda que a União poderia levantar centenas de bilhões de reais com vendas de ativos e reduzir o peso dos juros sobre o orçamento. Hoje, o gasto anual com pagamento de juros e amortizações da dívida supera R$ 700 bilhões, uma das maiores rubricas do Orçamento federal.
Os opositores, por outro lado, alertam para impactos sociais. No caso da Petrobras, temem perda de instrumentos para controlar preços de combustíveis em crises internacionais e para orientar investimentos em refino e gás. No Banco do Brasil, o foco está no crédito rural subsidiado, especialmente para pequenos produtores, e no atendimento em regiões em que bancos privados não têm interesse comercial.
Nos Correios, sindicatos e entidades de defesa do consumidor apontam risco de abandono de áreas remotas, onde a operação é deficitária, mas garante integração territorial. A experiência de outros países, lembram críticos, mostra que a privatização de serviços postais pode levar ao fechamento de agências e ao encarecimento de tarifas, a menos que o Estado imponha obrigações rígidas de universalização.
Zema responde que o Estado não precisa ser dono de empresas para definir regras e proteger os mais vulneráveis. Diz que a prioridade é “cortar a corrupção pela raiz” e desmontar o que descreve como um sistema de privilégios. No vídeo, volta a atacar “super salários” e “mordomias” em Brasília, sem citar carreiras específicas, mas mirando o sentimento de indignação com a classe política e parte do funcionalismo.
Próximos passos e peso do tema na campanha de 2026
O anúncio coloca pressão sobre outros presidenciáveis, que agora são chamados a detalhar suas próprias propostas para o tamanho do Estado e para a gestão das estatais. Setores do mercado financeiro acompanham a movimentação de perto, avaliando cenários para ações de Petrobras, Banco do Brasil e empresas de logística em caso de avanço de um programa de privatizações desse porte.
Partidos de esquerda e centro já articulam respostas. As siglas ligadas à base de Lula indicam que vão explorar o temor da perda de empregos, de aumento de tarifas e de enfraquecimento da capacidade do Estado de induzir o desenvolvimento. Legendas liberais e parte da direita tendem a saudar o discurso de Zema, mas ainda testam o apelo eleitoral de uma agenda que mexe com marcas profundamente associadas ao Estado brasileiro.
O detalhamento do plano deve aparecer em documentos formais de campanha e em debates públicos ao longo do segundo semestre de 2026, quando o calendário eleitoral ganha corpo. A partir daí, o desafio de Zema será converter o discurso de choque liberal em proposta viável no Congresso e aceitável para um eleitorado dividido entre a promessa de eficiência e o medo de perder proteção social. A escolha do país entre esses dois caminhos deve definir não só o próximo governo, mas o desenho do Estado brasileiro nas próximas décadas.
