Ultimas

Brasileira de 23 anos é morta a facadas em apartamento no Paraguai

A estudante de medicina catarinense Julia Vitoria Sobierai Cardoso, 23, é encontrada morta a facadas em seu apartamento em Ciudad del Este, na fronteira do Paraguai com o Brasil, neste fim de semana. A polícia paraguaia trata o caso como feminicídio e aponta o ex-namorado, também brasileiro, como principal suspeito.

Discussão no quarto, múltiplos ferimentos e fuga do suspeito

Julia divide o apartamento no bairro Obrero, na Área 3 de Ciudad del Este, com outra estudante. Na noite do crime, a colega ouve uma discussão vinda do quarto em que a jovem está com o ex-namorado. Quando bate na porta para saber o que ocorre, o rapaz responde que o barulho vem de outro apartamento. Horas depois, o corpo de Julia é encontrado com múltiplas lesões causadas por arma branca.

Agentes de criminalística e um médico legista são acionados. Diante da quantidade de ferimentos, as autoridades decidem encaminhar o corpo para uma autópsia detalhada no Laboratório Forense do Ministério Público, em Assunção, a mais de 320 quilômetros de Ciudad del Este. Armas que podem ter sido usadas no ataque são recolhidas no local, assim como marcas de sangue no chão e nas paredes.

Peritos registram pegadas de sangue de calçados e de pés descalços no quarto, indício de que a vítima tenta se defender e de que o agressor circula pelo ambiente depois do ataque. A hipótese da polícia é de que Julia é surpreendida dentro do próprio quarto. O horário exato do crime ainda não é divulgado, mas a morte é confirmada oficialmente no domingo, 26 de abril de 2026.

O principal suspeito é o maranhense Vitor Rangel Aguiar, 27, também estudante de medicina em outra universidade paraguaia. Ele mantém relacionamento com Julia, que termina o namoro quatro meses antes. Amigos relatam que, desde então, ele tenta reatar a relação. A polícia afirma que o ex-namorado deixa o apartamento antes da chegada da colega ao quarto e não é mais visto desde então.

Sonho interrompido e comoção entre estudantes brasileiros

Julia nasce em Chapecó, no Oeste catarinense, e deixa a cidade litorânea de Navegantes, onde vive com a família, no ano passado para estudar medicina no Paraguai. Ela ingressa na Universidad de la Integración de las Américas (Unida), em Ciudad del Este, com o objetivo declarado de se tornar pediatra. Colegas a descrevem como uma jovem disciplinada, afetiva e de sorriso fácil.

Nas redes sociais, amigos organizam uma homenagem em frente à universidade, marcada para esta segunda-feira, 27. “A Julia era tão cheia de vida, uma menina incrível”, escreve uma colega de curso ao divulgar o ato. Outro estudante lembra da rotina na sala de aula: “Estudávamos na mesma sala. Ela era uma moça linda, de olhar e sorriso encantador”.

A maquiadora Sara Cazarotto, amiga de infância de Julia, publica um relato que resume o sentimento de quem convive com a jovem. “Meu Deus, nós fomos tão felizes juntas. Só quem a conhecia sabia da linda princesa dedicada, como era cheia de sonhos e objetivos. Que tristeza, Juh”, escreve. Em outra mensagem, completa: “Tão triste quando a gente cresce conhecendo pessoas tão incríveis e vê elas partindo de forma tão brutal”.

A morte de uma brasileira de 23 anos em um apartamento estudantil de fronteira ecoa entre famílias que enviam filhos para universidades no exterior em busca de mensalidades mais baixas. Grupos de estudantes brasileiros em Ciudad del Este relatam medo e falam em reforçar redes de apoio, principalmente entre mulheres que vivem em repúblicas e dividem apartamentos com colegas.

Feminicídio é o termo usado para o assassinato de mulheres motivado por gênero, geralmente em contexto de violência doméstica, controle ou ódio. No Brasil, o crime é tipificado desde 2015 e prevê penas mais altas. No Paraguai, leis específicas são aprovadas em 2016, mas organizações de direitos humanos apontam falhas na prevenção e na proteção de vítimas em relações abusivas, sobretudo na região de fronteira.

Caçada internacional e alerta para violência contra mulheres

Investigadores paraguaios visitam a residência de Vitor, no bairro Catedral, também em Ciudad del Este, em busca de pistas. Um irmão do suspeito diz que o estudante não volta para casa desde o dia do crime. Os agentes apreendem um celular do familiar para perícia. Até a manhã de domingo, 26, Vitor não é localizado.

Como a principal linha de investigação indica que o suspeito pode ter deixado o Paraguai, a Polícia Nacional aciona o Comando Tripartite, estrutura que integra forças de segurança de Paraguai, Brasil e Argentina na região de Foz do Iguaçu. O objetivo é monitorar fronteiras, cruzar dados migratórios e tentar localizar o brasileiro em um raio de milhares de quilômetros quadrados, numa área marcada pelo fluxo intenso de pessoas e mercadorias.

A família de Julia providencia o traslado do corpo para Santa Catarina, em procedimento que costuma levar menos de 48 horas quando há cooperação entre autoridades consulares. O sepultamento está marcado para as 9h desta semana, no Cemitério Parque Jardim dos Florais, em Navegantes. A cidade se prepara para receber colegas, parentes e amigos que acompanham o caso desde o anúncio da morte.

Organizações de defesa dos direitos das mulheres usam o caso para reforçar alertas sobre sinais de relacionamentos abusivos, como ciúme excessivo, controle de rotina e insistência em retomar vínculos já encerrados. Em publicações nas redes, perfis que acompanham casos de violência de gênero lembram o serviço 180, canal brasileiro de denúncias e orientação, e destacam que vítimas podem buscar ajuda mesmo em situações transnacionais, com apoio de consulados e redes comunitárias.

A investigação paraguaia ainda não divulga laudo final da autópsia, nem detalha a dinâmica exata do crime. Restam perguntas sobre o intervalo entre a discussão e a descoberta do corpo, sobre a rota de fuga do suspeito e sobre eventuais antecedentes de violência no relacionamento. A pressão de colegas, familiares e movimentos de mulheres por respostas transforma o feminicídio de Julia não apenas em um luto pessoal, mas em um teste para a capacidade do sistema de proteção a mulheres na fronteira de garantir justiça e prevenção.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *