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PT arma estratégia em congresso para reeleger Lula e isolar Flávio Bolsonaro

O PT abre, nesta sexta-feira (24/4), em Brasília, o 8º Congresso Nacional, centrado na estratégia para garantir a reeleição de Luiz Inácio Lula da Silva em 2026. Diante do avanço do senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) nas pesquisas, a sigla discute alianças com a centro-direita, endurecimento contra a desinformação, mudanças na segurança pública e regras mais rígidas para o mercado de apostas.

Congresso mira 2026 e tenta conter avanço bolsonarista

O encontro reúne dirigentes nacionais, governadores, prefeitos, parlamentares e ministros em um hotel da capital federal. Lula, submetido a procedimentos médicos na véspera, não participa da abertura, mas envia vídeo aos delegados e é aguardado para intervir presencialmente até amanhã. No recado, reforça que a eleição de outubro volta a ser apresentada como um embate direto entre democracia e ditadura.

O documento base do congresso descreve a disputa como mais do que uma escolha de governo. “Não se trata apenas de impedir a volta dos golpistas nem de dar continuidade às políticas retomadas a partir de janeiro de 2023. O que está em jogo é mais profundo, traduzido em contradições existenciais: democracia contra ditadura, soberania contra entreguismo, bem-estar contra sofrimento, desenvolvimento contra retrocesso, esperança contra medo, vida contra morte”, afirma o texto, que orienta as resoluções a serem votadas até domingo.

A leitura interna é de que o crescimento de Flávio Bolsonaro nas pesquisas, sobretudo entre eleitores de renda média e alta, exige um movimento rápido de recomposição de alianças. Interlocutores da direção nacional admitem que a estratégia passa por ampliar pontes com partidos de centro-direita, inclusive legendas que integraram a base de Jair Bolsonaro, para isolar o senador do PL e reduzir o espaço da extrema direita na disputa presidencial.

O vice-presidente Geraldo Alckmin (PSB-SP), presença destacada na abertura, simboliza essa costura. “O presidente Lula salvou a democracia no Brasil. Se perdendo as eleições tentaram dar um golpe, imagine se tivessem ganhado”, afirma, em recado direto ao bolsonarismo. O presidente do PT, Edinho Silva, responde na mesma linha, ao defender a reeleição como forma de “preservar o legado” e, ao mesmo tempo, “repactuar a relação do governo com a sociedade e com o Congresso”.

Da desinformação à segurança: o que entra na agenda do partido

O plano de governo em debate no congresso elege o combate à desinformação como eixo central da campanha. “Nossa tática eleitoral para o próximo ciclo deve ser de ofensiva programática e unidade popular. Não podemos permitir que as forças da reação utilizem novamente a máquina da desinformação para sequestrar o debate público. A reeleição de Lula é o eixo em torno do qual devemos organizar a resistência contra a hegemonia financeira e a extrema-direita”, diz o texto, numa referência velada à estrutura de comunicação bolsonarista nas redes.

A sigla também leva à plenária teses que dialogam com a base histórica do partido, como o fim da jornada de seis dias de trabalho com um de descanso, a chamada escala 6×1. A mudança é apresentada como resposta à “exploração do tempo de vida da classe trabalhadora” e aparece ao lado de promessas de aumento real do salário mínimo e ampliação de direitos em setores com maior rotatividade, como comércio e serviços.

Na segurança pública, o PT propõe uma guinada estrutural. O documento defende a criação de um Ministério da Segurança Pública e de um Sistema Único que integre ações federais, estaduais e municipais, em modelo semelhante ao do SUS. A avaliação entre dirigentes é que o tema, historicamente dominado por discursos punitivistas, passa a ser central na disputa de 2026 e pode ser um dos pontos de vulnerabilidade do governo se não houver resposta coordenada até o início oficial da campanha.

Personalidades tradicionais do partido voltam a ter espaço de destaque no palco. José Dirceu, ex-ministro da Casa Civil, e Paulo Okamoto, presidente do Instituto Lula, resgatam o discurso de soberania nacional, hoje lema recorrente no Palácio do Planalto. Em falas dirigidas à militância, criticam o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, e cobram a “liberdade de Nicolàs Maduro, ex-presidente da Venezuela, sequestrado pelos EUA no início do ano”, numa referência à deterioração das relações com Washington.

Nos bastidores, integrantes da articulação política admitem que a presença de nomes ligados à velha guarda petista mobiliza a base militante, mas também reacende resistências em setores do centro que o partido tenta atrair. A calibragem desse discurso, medindo o quanto mirar no eleitorado de esquerda sem afastar eventuais aliados, é vista como um dos principais desafios do congresso.

Apostas, evangélicos e novas frentes de disputa eleitoral

O controle do mercado de apostas esportivas e jogos on-line surge como um dos pontos mais sensíveis da pauta. Ministros palacianos comemoram a decisão recente do governo de restringir as chamadas “bets de predição” — apostas que pagam cota fixa para prever, por exemplo, condições climáticas ou até a morte de uma pessoa — e de bloquear sites irregulares. No plenário, a movimentação é lida como tentativa de aproximação com parlamentares e eleitores evangélicos, segmento em que Lula ainda enfrenta forte rejeição.

A fiscalização das casas de apostas entra no rol de bandeiras oficiais do congresso. Para o partido, empresas consideradas “predatórias” devem ser proibidas, com o “Jogo do Tigrinho” citado nominalmente como exemplo de prática a ser banida. Para as demais, o texto defende a cobrança de imposto seletivo superior ao que incide hoje sobre o tabaco, numa tentativa de reduzir o apelo das plataformas e, ao mesmo tempo, garantir receita extra para políticas sociais.

A linha coincide com projeto de lei apresentado pelo líder do governo na Câmara, deputado Pedro Uczai (PT-SC), que propõe endurecer a regulação do setor e restringir a publicidade dirigida a jovens. A ideia é que o congresso do PT funcione como aval político para a proposta e pressione o Legislativo a votar o texto ainda no primeiro semestre, de modo que as novas regras já valham integralmente na campanha de 2026.

O movimento ocorre enquanto a base aliada na Câmara identifica, no tema das apostas, um raro ponto de convergência entre o PT e grandes bancadas evangélicas. Líderes governistas avaliam que um acordo em torno da proibição de jogos considerados abusivos pode abrir espaço para negociações em outras pautas sensíveis, como costumes e direitos civis, hoje travadas em comissões estratégicas.

Até o encerramento do 8º Congresso Nacional, a direção petista precisa transformar o discurso geral em resoluções com prazos, metas e responsáveis claros. As decisões sobre alianças com partidos de centro-direita, desenho da política de segurança pública e regulamentação das apostas tendem a orientar a montagem da chapa presidencial, a redação do programa de governo e a negociação de palanques nos 27 estados. A disputa com Flávio Bolsonaro ganha contornos mais definidos em Brasília, mas a principal incógnita segue aberta: até onde o PT está disposto a ir para ampliar o campo de alianças sem perder a identidade que o trouxe novamente ao poder.

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