Ciencia e Tecnologia

Polvos gigantes de até 19 m eram predadores de topo no Cretáceo

Polvos gigantes extintos, com até 19 metros de comprimento, disputam o topo da cadeia alimentar dos mares do Cretáceo, revela estudo publicado em 2026 por pesquisadores liderados pelo japonês Yasuhiro Iba. A equipe reconstitui mandíbulas fossilizadas e conclui que esses animais, batizados de Nanaimoteuthis, trituram conchas e ossos como grandes tubarões e répteis marinhos.

Polvo gigante entra no clube dos monstros marinhos

A pesquisa, publicada na revista Science, revisa a história dos oceanos entre 100 e 72 milhões de anos atrás. Até agora, o roteiro clássico do Cretáceo reservava os papéis principais a tubarões e grandes répteis marinhos, enquanto polvos apareciam como figurantes discretos, quando muito. O trabalho de Iba, professor associado de ciências da Terra e planetárias da Universidade de Hokkaido, no Japão, insere um novo protagonista nessa trama.

Os fósseis analisados vêm de duas pontas do Pacífico, o Japão e a Ilha de Vancouver, no Canadá. São 27 mandíbulas de polvos ancestrais, 15 já conhecidas pela literatura científica e 12 recém-desenterradas em rochas sedimentares do Cretáceo. A maior parte do corpo de um polvo é mole e desaparece depois da morte, mas o bico, estrutura rígida que funciona como um par de mandíbulas, resiste e fossiliza. É essa peça que a equipe transforma em fonte de dados sobre tamanho, dieta e comportamento.

Iba e seus colegas recorrem a uma combinação de tomografia de moagem 3D, imagens digitais em alta resolução e modelos de inteligência artificial para reconstruir a forma original desses bicos. A técnica, apelidada por ele de “mineração digital de fósseis”, fatia virtualmente a rocha, extrai detalhes microscópicos e reagrupa tudo em modelos tridimensionais. A partir das dimensões da mandíbula e de comparações com polvos modernos, os pesquisadores extrapolam o tamanho dos animais: entre 7 e 19 metros de comprimento total.

O número coloca Nanaimoteuthis no mesmo patamar de muitos répteis marinhos e de alguns tubarões de grande porte que rondam os mares do Cretáceo. Não se trata só de escala. As superfícies dos bicos exibem desgaste intenso, com marcas compatíveis com a trituração repetida de presas de carapaça dura. “Isso sugere que esses polvos gigantes podem ter funcionado como predadores de topo no mar do Cretáceo”, afirma Iba à CNN. “Ficamos surpresos. O registro fóssil de polvos é extremamente limitado, então encontrar animais tão grandes e ecologicamente importantes superou nossas expectativas.”

Ecossistemas marinhos mais complexos do que se pensava

O trabalho mexe com uma visão consolidada da vida marinha no fim da era dos dinossauros. Na superfície, tiranossauros, triceratops e velociraptores dominam o imaginário popular. No mar, o enredo costuma ser monopólio de mosassauros, ictiossauros tardios, grandes tubarões e peixes predadores. A presença de um polvo gigante com mandíbulas capazes de esmagar ossos e conchas amplia esse quadro.

Para Iba, os dados indicam que a teia alimentar marinha do Cretáceo é mais intrincada do que se supõe. “Isso indica que os ecossistemas marinhos do Cretáceo eram mais complexos e incluíam uma gama mais ampla de predadores de topo do que se pensava anteriormente”, diz o pesquisador. Segundo ele, Nanaimoteuthis provavelmente usa o corpo volumoso e braços longos para agarrar peixes grandes, moluscos e, possivelmente, répteis jovens, antes de processá-los com um bico desproporcionalmente poderoso.

Os polvos modernos já chamam atenção por sua inteligência. Abrir tampas, resolver labirintos e manipular ferramentas são tarefas documentadas em aquários e no ambiente natural. A equipe de Hokkaido observa padrões assimétricos de desgaste nas mandíbulas fósseis e sugere que eles possam refletir estratégias sofisticadas de manipulação da presa, algo que exigiria certa capacidade cognitiva. “Dentro desse ecossistema, o Nanaimoteuthis provavelmente usava seu corpo grande e braços longos para capturar presas e suas mandíbulas poderosas para processar alimentos duros”, afirma Iba. “Assim como os polvos modernos, ele pode ter dependido da inteligência para encontrar, capturar e consumir suas presas.”

Nem todos os especialistas, porém, embarcam sem reservas na ideia de um polvo no topo absoluto da cadeia alimentar. Jakob Vinther, professor de macroevolução na Universidade de Bristol, classifica a descoberta como “bastante surpreendente”, mas pede cautela. Para ele, o registro de mandíbulas poderosas não prova por si só que o animal enfrenta, com frequência, grandes répteis marinhos. “A questão é se faria sentido um animal como esse abater uma presa tão grande”, pondera. Polvos, lembra Vinther, levam tempo para digerir carne e podem suprir suas necessidades energéticas com presas menores, ainda que robustas.

Disputa no topo da cadeia e nova fronteira tecnológica

Mesmo com as ressalvas, a avaliação externa tende a reforçar o caráter transformador do estudo. Tim Coulson, professor de zoologia da Universidade de Oxford, vê no artigo um quadro coerente. “O trabalho apresentado no artigo é convincente e empolgante”, afirma. Para ele, o desgaste dos bicos indica uma dieta baseada em outros animais, incluindo peixes grandes, conchas e possivelmente répteis marinhos menores. “Seu tamanho sugere que eram predadores de topo, situados no topo da cadeia alimentar”, diz.

A descrição de Nanaimoteuthis como um polvo com nadadeiras em forma de remo, uma das primeiras linhagens desse tipo registrada com detalhes, também ajuda a redesenhar a árvore evolutiva dos cefalópodes. O grupo inclui lulas, polvos e parentes próximos e hoje sustenta cadeias alimentares em praticamente todos os oceanos. Ao recuperar um gigante que atua como caçador especializado há dezenas de milhões de anos, o estudo amplia o papel dos cefalópodes na construção da biodiversidade marinha.

A pesquisa abre espaço para efeitos práticos além da paleontologia. A combinação de tomografia 3D, modelos digitais e inteligência artificial cria um método replicável em outros fósseis discretos, quase invisíveis no campo. Bicos, dentes microscópicos, espinhos e fragmentos de carapaça podem revelar novos predadores em rochas já estudadas. “Nosso objetivo é revelar os atores ocultos dos ecossistemas antigos e construir uma imagem muito mais completa de como os ecossistemas do passado realmente funcionavam”, afirma Iba.

Em universidades e museus, a perspectiva de “mineração digital” tende a atrair investimento e estudantes. O uso de IA para reconstruir estruturas erodidas reduz o tempo de análise e ajuda a revisitar coleções antigas, guardadas em gavetas desde o século 20. O impacto também chega à educação básica e a museus de ciência, que ganham um novo personagem para explicar cadeias alimentares, evolução e mudanças climáticas em tempos geológicos.

Caça aos gigantes ocultos no registro fóssil

Iba já planeja expandir o uso da mineração digital de fósseis para outras regiões, inclusive fora do Pacífico Norte. A expectativa é aplicar a mesma abordagem a rochas de idades diferentes, do início da explosão de animais complexos até períodos que antecedem o surgimento dos humanos. Ao reexaminar material coletado décadas atrás com novas ferramentas, o grupo acredita que pode encontrar organismos que até agora passam despercebidos.

Na prática, a descoberta de Nanaimoteuthis reposiciona os polvos na narrativa dos mares antigos e reforça a ideia de que o topo da cadeia alimentar é um espaço mais disputado do que se imaginava. Os próximos anos devem mostrar se outros gigantes discretos, talvez de grupos ainda pouco representados, também emergem das rochas graças à combinação de escavação de campo, tomografia de alta resolução e IA. Até que novos fósseis apareçam, o polvo de quase 20 metros segue como lembrete de que os oceanos do passado ainda guardam mais perguntas do que respostas.

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