Lesão grave tira Militão da Copa e expõe fragilidade da seleção
Éder Militão sofre nova lesão grave na coxa esquerda, confirmada neste sábado (25), e está fora da Copa do Mundo de 2026. O zagueiro do Real Madrid vai passar por cirurgia e desfalca o plano de Carlo Ancelotti para a lateral direita da seleção brasileira.
Ancelotti perde seu “lateral” de confiança
Carlo Ancelotti assume a seleção em 2015 sem encontrar um lateral direito confiável. A solução nasce da própria carreira do técnico no Real Madrid: transformar um zagueiro em defensor de lado, sólido atrás e seguro na cobertura. Militão, 28 anos, encaixa perfeitamente nesse desenho. Experiente, forte no um contra um e acostumado a jogos grandes, ele se torna a peça-chave para conter contra-ataques, em um Brasil que deve apostar em transições rápidas, como o antigo time do italiano.
O planejamento da comissão técnica da CBF gira em torno dessa adaptação discreta, mas decisiva. O médico Rodrigo Lasmar acompanha cada exame de Militão com atenção redobrada. O histórico de contusões do zagueiro preocupa. A ruptura anterior do bíceps femoral da coxa esquerda, em 2025, o deixa fora de campo por cerca de quatro meses. Nos bastidores, o temor é claro: uma recaída em cima da Copa pode desmontar parte do sistema defensivo.
O risco não impede o Real Madrid de acelerar o retorno de seu defensor. Em dezembro do ano passado, o clube lança mão de tratamento com plaquetas de sangue do próprio atleta para antecipar a recuperação. A estratégia funciona no curto prazo. Militão volta a tempo da reta final da Champions League e atua os 90 minutos na eliminação para o Bayern de Munique, há dez dias. O corpo, porém, cobra a conta.
Na terça-feira, contra o Alavés, na Espanha, o relógio marca 43 minutos do primeiro tempo quando o plano de Ancelotti começa a ruir. O Real vence por 1 a 0. Militão se projeta ao ataque, entra na área e tenta completar o cruzamento de Jude Bellingham. A bola chega um pouco atrás, ele freia de forma brusca, ajusta o corpo para bater de direita. O chute explode no travessão, mas o problema está do outro lado. Todo o peso recai sobre a perna esquerda, justamente a que carrega a cicatriz da ruptura anterior no músculo posterior da coxa.
O gesto é rápido, o desconforto é imediato. Militão leva a mão à parte de trás da coxa e cai. O silêncio dos médicos em campo contrasta com a expressão do jogador, que parece saber o que aconteceu. A suspeita se confirma dias depois, nos exames detalhados realizados em Madri e informados neste sábado: nova lesão importante no bíceps femoral esquerdo, com indicação cirúrgica.
Cirurgia, prazo mínimo e um buraco na defesa
O diagnóstico é duro para clube, seleção e para o próprio atleta. Militão precisa operar a coxa esquerda novamente. Um médico de um clube da Série A do Brasileiro, ouvido sob reserva, define o cenário como de alta gravidade, mas sem surpresa. “Era esperado que o risco de nova ruptura fosse grande. Com cirurgia, o tempo mínimo para voltar a treinar é de dois meses, em um quadro bem otimista”, diz. Nesse ritmo, se o procedimento ocorrer já na próxima semana e a recuperação seguir sem intercorrências, o zagueiro só retornaria aos treinos por volta de julho.
O calendário não perdoa. A Copa nos Estados Unidos exige elenco pronto, entrosado e fisicamente inteiro muito antes disso. Ancelotti trabalha com uma estrutura defensiva apoiada em automatismos, movimentos repetidos à exaustão nos treinos. Não há espaço para improvisos de última hora em um setor tão sensível. A ausência de Militão desmonta a ideia de repetir na seleção o equilíbrio que o italiano consegue no Real Madrid, com laterais mais recuados e linha compacta.
A escolha do clube espanhol também entra em debate. A diretoria e a comissão técnica querem o defensor à disposição na fase decisiva da Champions, mesmo com o Barcelona nove pontos à frente no Campeonato Espanhol, a seis rodadas do fim. Militão é escalado contra o Alavés em um jogo de menor peso, com o título nacional praticamente encaminhado para o rival. O cenário alimenta a sensação de exposição desnecessária. A pergunta que ecoa na seleção é simples e incômoda: valia o risco?
Ancelotti, por ora, evita declarações públicas mais duras. Internamente, porém, a perda é tratada como imensa. Militão é apontado por membros da comissão como um dos três melhores zagueiros do mundo no momento, além de ser um dos líderes silenciosos do vestiário. A convivência com boa parte do elenco convocado, desde as categorias de base e dos tempos de Brasil, facilita o ajuste em campo. Esse capital esportivo e emocional se perde às vésperas da principal competição do calendário.
A seleção já opera em modo de alerta máximo. Militão se soma a Rodrygo e Estêvão, também fora do Mundial por lesões musculares graves. Os três são titulares planejados por Ancelotti. Rodrygo, com velocidade e mobilidade, e Estêvão, com drible curto e explosão, são peças centrais para o modelo reativo desenhado pelo treinador. Sem eles, o Brasil perde profundidade, potência no contra-ataque e capacidade de decisão em jogos grandes.
Brasil mais frágil e pressionado para 2026
O impacto da ausência de Militão vai além da lateral direita. A seleção perde uma referência técnica e um articulador defensivo. Em jogos de mata-mata, um erro na linha de trás costuma custar a classificação. Em um Mundial que reúne 48 seleções e exige viagens longas, concentração e repetição de escalações, cada ausência de titular pesa mais. A perda do zagueiro fecha uma sequência de três baixas que atinge o coração do projeto de Ancelotti.
O substituto mais cotado é Ibañez, ex-Fluminense e Roma, hoje no Al-Ahli, da Arábia Saudita. Ele também é zagueiro que atua pelo lado, com capacidade de se adaptar à função de lateral mais conservador. A diferença de nível técnico, porém, é reconhecida até pela comissão. Militão, testado e aprovado em fases agudas de Champions League, oferece segurança que nenhum outro defensor brasileiro apresenta hoje. O prejuízo é evidente no treino e no desenho tático.
A fragilidade física do elenco reforça uma preocupação antiga. A temporada europeia de 2025/26 é mais pesada que as anteriores. Os principais clubes, base da seleção, disputam o novo Mundial de Clubes da Fifa em 2025, em pleno verão norte-americano. O torneio, somado aos campeonatos nacionais e copas locais, aumenta o número de partidas e a carga de viagens. O resultado aparece nas estatísticas de lesões musculares, mais frequentes na reta final. A seleção brasileira sente esse desgaste de forma direta.
A CBF acompanha com apreensão as últimas rodadas na Europa. Cada partida de Champions, La Liga, Premier League ou Serie A é vista também como um risco adicional. Sem controle sobre a minutagem dos jogadores, Ancelotti depende do diálogo com os clubes e da sorte. Até aqui, a conversa não basta. O Brasil caminha para a Copa dos Estados Unidos com um elenco mais raso do que o imaginado quando o treinador aceita o convite, há mais de uma década.
A partir de agora, a missão é reconstruir o sistema defensivo sem o pilar planejado para a direita. A comissão técnica avalia alternativas táticas, como utilizar um lateral de origem mais ofensivo protegido por um volante recuado, ou reforçar a saída com três zagueiros. Nenhuma opção entrega, de imediato, a combinação de força, leitura de jogo e liderança que Militão oferece. A janela entre o fim da temporada europeia e a apresentação da seleção parece curta para testar todas as soluções.
O diagnóstico deste sábado encerra a participação de Militão no ciclo da Copa, mas abre uma sequência de decisões delicadas para Ancelotti e para a CBF. O Brasil chega aos Estados Unidos com menos talento na defesa e no ataque, sob desconfiança da torcida e da crítica. A dúvida que paira sobre o Mundial de 2026 é se o time conseguirá transformar a perda de seus principais nomes em combustível competitivo ou se a seleção apenas aceitará, em silêncio, que vai disputar uma Copa menor do que poderia.
