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Tarcísio fecha chapa com PL e aposta em “bolsonarismo raiz” em SP

O governador Tarcísio de Freitas fecha nesta semana, em abril de 2026, a chapa à reeleição em São Paulo. O palanque traz duas candidaturas ao Senado rotuladas como expressão do “bolsonarismo raiz” no maior colégio eleitoral do país.

Eduardo Bolsonaro arbitra disputa e consolida chapa pura

Tarcísio entra oficialmente na campanha decidido a manter o governo ancorado no campo bolsonarista. O acordo selado em São Paulo reserva as vagas ao Senado para o presidente da Assembleia Legislativa, André do Prado, do PL, e para o deputado federal Guilherme Derrite, hoje no PP. A costura ocorre após semanas de tensão e só avança quando Eduardo Bolsonaro assume, nos bastidores, o papel de árbitro da disputa interna.

Valdemar Costa Neto, presidente nacional do PL, chancela a operação e a descreve a aliados como a formação do “bolsonarismo raiz” no estado. O recado é claro: o partido quer um palanque sem arestas, afinado com Jair Bolsonaro e com o núcleo mais duro de seus apoiadores. A montagem da chapa funciona como demonstração de força num momento em que pesquisas mostram a dianteira de nomes ligados ao campo lulista para o Senado.

A definição encerra uma queda de braço que envolvia outros pretendentes às vagas. O deputado federal Mário Frias, também do PL, e o coronel da PM Mello Araújo, vice-prefeito da capital, testam seus nomes, mas são preteridos. Frias deve recuar e tentar novo mandato na Câmara dos Deputados. Mello Araújo, figura de influência na base policial, volta ao tabuleiro municipal e à relação com a prefeitura paulistana.

A delegação informal dada a Eduardo Bolsonaro para “montar a chapa paulista” escancara a centralidade da família na estratégia eleitoral em São Paulo. O filho do ex-presidente atua como ponte entre Tarcísio, Valdemar e diferentes grupos do PL e de partidos aliados. O objetivo é reduzir ruídos internos, blindar o governador de atritos públicos e preservar a imagem de unidade em torno do projeto de reeleição.

Pesquisa mostra vantagem de Marina e Tebet e teste de fôlego do PL

O desenho da chapa nasce em ambiente desfavorável no Senado. Levantamento do instituto Paraná Pesquisas, realizado entre 11 e 14 de abril com 1.600 eleitores, mostra as ex-ministras Marina Silva, da Rede, e Simone Tebet, hoje no PSB, na dianteira da disputa. Marina aparece com 37,8% das intenções de voto, enquanto Tebet marca 32,9%.

Entre os nomes ligados ao bolsonarismo, Guilherme Derrite é o que mais se aproxima das favoritas, com 27,4%. André do Prado surge distanciado, com 9,8%. A pesquisa, registrada no Tribunal Superior Eleitoral sob o código SP-00378/2026, tem margem de erro de 2,5 pontos percentuais. Os números ajudam a explicar a decisão de lançar duas candidaturas do mesmo campo ideológico em vez de uma composição mais ampla.

Dirigentes do PL e aliados de Valdemar minimizam o quadro atual. Repetem, em conversas reservadas, a avaliação de que os índices ainda refletem desconhecimento dos eleitores sobre os nomes da chapa. A aposta é que a campanha, convenções e horário eleitoral exponham André do Prado e Derrite a públicos para além da base mobilizada desde 2018. “Eles tendem a crescer quando ficarem mais conhecidos”, argumenta um dirigente ouvido reservadamente.

A presença de Marina e Tebet no topo das intenções de voto adiciona um componente simbólico à corrida. As duas carregam trajetórias associadas, em diferentes graus, ao campo progressista e ao governo Lula. Se confirmarem força até outubro, tendem a transformar a eleição ao Senado em mais um capítulo da disputa nacional travada entre lulismo e bolsonarismo, com São Paulo novamente no centro.

Para Tarcísio, a escolha por uma chapa identificada com o “bolsonarismo raiz” é tentativa de preservar o apoio do eleitorado conservador enquanto administra sua imagem de gestor técnico. A equação exige equilíbrio. O governador precisa manter a ponte com Bolsonaro sem afastar setores do empresariado e do centro político que o enxergam como alternativa mais pragmática à direita tradicional.

Reorganização da direita e disputa por protagonismo em 2026

A consolidação da chapa em São Paulo reorganiza as forças da direita às vésperas das convenções. O PL de Valdemar garante as duas vagas ao Senado dentro de um campo ideológico homogêneo e reforça a aliança com Tarcísio, ainda filiado ao Republicanos. O gesto busca reduzir o espaço de outras siglas conservadoras e assegurar que o capital político do bolsonarismo permaneça concentrado num eixo PL–Bolsonaro–Tarcísio.

Eduardo Bolsonaro emerge dessa negociação com poder ampliado sobre a estrutura paulista. A interferência direta na montagem da chapa o coloca como fiador do palanque no maior colégio eleitoral do país. Se os candidatos tiverem bom desempenho, o resultado fortalece o deputado federal na disputa interna do bolsonarismo por espaço e sucessão.

O movimento também produz efeitos imediatos sobre rivais. Partidos que orbitam o governo Lula e o centro buscam acelerar alianças e testar nomes competitivos para a disputa do Senado e para o embate direto com Tarcísio. A vantagem de Marina Silva e Simone Tebet nas pesquisas tende a ser usada como argumento para atrair apoios e recursos, num cenário de forte polarização e atenção nacional.

No plano estadual, a definição da chapa reduz a margem para dissidências abertas no PL. Insatisfações de preteridos, como Mário Frias e Mello Araújo, podem reaparecer em discursos e nas redes, mas a prioridade da cúpula é apresentar coesão. O risco é que um desempenho aquém do esperado nas urnas reabra feridas e questione a estratégia do “bolsonarismo raiz” como único caminho em São Paulo.

Os próximos meses dirão se a aposta de Valdemar Costa Neto e Eduardo Bolsonaro se sustenta diante de um eleitorado mais fragmentado e cansado da escalada de conflitos políticos. A campanha dará a medida de quanto o selo bolsonarista ainda mobiliza votos no maior estado do país e até que ponto Tarcísio consegue converter a marca de gestor em combustível eleitoral. A resposta em outubro terá impacto direto não só no mapa de forças em São Paulo, mas na correlação de poder da direita brasileira para além de 2026.

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