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EUA abordam navio com petróleo iraniano e ampliam poder de fogo

Forças dos Estados Unidos abordam nesta quinta-feira (23/4) um navio que transporta petróleo iraniano no Oceano Índico e recebem autorização para atirar contra embarcações que instalam minas no Estreito de Ormuz. A decisão do presidente Donald Trump aprofunda a disputa com Teerã por uma das rotas mais estratégicas do planeta e eleva o risco de novos confrontos militares.

Abordagem em alto-mar e ordem de “atirar para matar”

O Pentágono informa que navios de guerra americanos realizam uma interdição marítima contra o M/T Majestic X, cargueiro sancionado e sem bandeira, que transporta petróleo do Irã. A operação ocorre em águas internacionais do Oceano Índico, longe da costa iraniana, mas diretamente ligada à tentativa de Washington de estrangular as receitas de Teerã com a venda de petróleo.

Em comunicado divulgado na rede X, o Departamento de Defesa afirma que as Forças Armadas continuarão a interceptar embarcações suspeitas de “fornecer apoio material ao Irã”. Na prática, isso significa parar, inspecionar e, em alguns casos, deter navios que carregam petróleo ou pagam taxas ao governo iraniano para cruzar o estreito.

Interdição marítima é o jargão militar para a interceptação e inspeção de uma embarcação sob suspeita de atividade hostil ou violação de sanções. Desde o início do bloqueio americano ao Estreito de Ormuz, no começo de abril, dezenas de navios passam por esse tipo de abordagem, quase sempre fora da zona costeira iraniana.

Em paralelo à operação contra o Majestic X, Trump anuncia um novo passo. Em mensagem na rede Truth Social, o presidente declara que ordena à Marinha americana “atirar para matar” contra qualquer embarcação, “mesmo que pequena”, flagrada instalando minas nas águas do estreito. “Não deve haver hesitação”, escreve.

O comando atinge o coração da atual disputa. O Irã afirma ter lançado minas no estreito desde que anunciou o fechamento da rota, em 2 de março, logo após os primeiros ataques conjuntos de Israel e dos EUA contra alvos iranianos. Washington sustenta que essas minas ameaçam toda a navegação comercial e usa esse argumento para ampliar o controle militar na região.

Rotas de petróleo sob pressão e retórica em escalada

O Estreito de Ormuz concentra hoje cerca de 20% de todo o petróleo consumido no mundo. Por ali passam não apenas cargueiros iranianos, mas também navios que saem de Iraque, Kuwait, Catar, Arábia Saudita e Emirados Árabes Unidos. Quase 90% desse volume segue para a Ásia, com China absorvendo cerca de 38%, seguida por Índia, Coreia do Sul e Japão.

O fluxo de embarcações cai de forma acentuada desde o início da guerra entre EUA, Israel e Irã, em março. Mesmo sem um bloqueio total, o medo de minas e de ataques faz seguradoras aumentarem prêmios e armadores desviarem rotas, o que se reflete em preços mais altos do petróleo e do frete em todo o mundo. Cada nova ordem de Trump é acompanhada de volatilidade nas cotações internacionais.

Trump insiste que os EUA têm “controle total” sobre o estreito e diz que não permitirá que o Irã “ganhe dinheiro vendendo petróleo para quem quiser”. Em entrevista à BBC, afirma que o governo iraniano está “louco para fazer um acordo” para encerrar definitivamente o conflito, que hoje se encontra em cessar-fogo frágil. “Seja lá o que eu estiver fazendo, parece estar funcionando muito bem”, provoca.

Em Teerã, o discurso é o oposto. O ministro das Relações Exteriores, Abbas Araghchi, reage nas redes e assegura que os iranianos estão “unidos, mais do que nunca”. Ele fala em “unidade de ferro” entre o presidente, os negociadores e as instituições do Estado, e descreve campo de batalha e diplomacia como “frentes plenamente coordenadas da mesma guerra”.

Israel adiciona mais um grau de tensão. O ministro da Defesa, Israel Katz, declara que as Forças Armadas estão prontas para retomar a guerra e levar o Irã “de volta à Idade da Pedra”. Diz aguardar o “sinal verde” de Washington para concluir a “eliminação da dinastia Khamenei” e ameaça atacar infraestrutura energética e econômica iraniana com golpes “devastadores”.

A fala ecoa promessa anterior de Trump, que também já ameaça bombardear o Irã “de volta à Idade da Pedra” caso não haja um acordo “aceitável” para encerrar a guerra. A retórica inflamada se soma a notícias de que sistemas de defesa antiaérea disparam em diferentes pontos de Teerã, segundo as agências estatais IRNA e Mehr, alimentando a sensação de que qualquer incidente pode reacender uma ofensiva em larga escala.

Bloqueio naval, dinheiro em jogo e incerteza à frente

O bloqueio americano ao entorno de Ormuz nasce após a primeira rodada de negociações diretas com o Irã, no início de abril, terminar sem acordo. Questões centrais seguem em disputa, como o programa nuclear iraniano e quem, na prática, controla a passagem. Trump responde ampliando a pressão econômica em duas frentes: as taxas que Teerã cobra para liberar navios e a receita com exportação de petróleo.

Desde 12 de abril, o presidente americano diz ter instruído a Marinha a “procurar e interceptar toda embarcação em águas internacionais que tenha pago pedágio ao Irã”. “Ninguém que pague um pedágio ilegal terá passagem segura em alto-mar”, afirma. Dados de rastreamento marítimo, porém, indicam que alguns navios ligados a Teerã ainda conseguem cruzar a linha de bloqueio.

O Parlamento iraniano confirma que as primeiras receitas do pedágio marítimo já entram no banco central do país. Para o governo de Teerã, a cobrança é uma forma legítima de compensar o impacto da guerra. Para Washington, trata-se de extorsão em uma rota internacional que deveria permanecer aberta.

Após o cessar-fogo de 8 de abril, o Irã anuncia a reabertura parcial do estreito, mas orienta navios a seguir corredores específicos para evitar minas. Até agora não há registro confirmado de cargueiros danificados por esses explosivos desde o início da guerra, o que não reduz o temor entre empresas de navegação, bancos e governos dependentes do petróleo do Golfo.

Diplomatas em capitais europeias alertam para o risco de um incidente descontrolado em alto-mar. Um disparo americano contra uma embarcação que o Irã considere civil, um navio-tanque atingido por engano ou um erro de cálculo em Teerã podem rapidamente arrastar o conflito para além do atual cessar-fogo. A autorização para “atirar para matar” contra quem instala minas amplia esse risco.

Nas próximas semanas, a chave estará em duas mesas paralelas: a militar, com a Marinha americana tentando manter a promessa de “controle total” de Ormuz, e a diplomática, com esforços para salvar um acordo que inclua o programa nuclear e regras claras para a passagem no estreito. A dúvida é se a pressão econômica e o cerco naval aproximam um entendimento ou empurram Washington e Teerã de volta para a beira da guerra aberta.

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