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Trump acelera expurgo militar e derruba secretário da Marinha dos EUA

O secretário da Marinha dos Estados Unidos, John Phelan, deixa o cargo com efeito imediato nesta quarta-feira (22), em Washington. A saída abrupta aprofunda o expurgo promovido pelo presidente Donald Trump na cúpula das Forças Armadas e acende novo alerta sobre a politização dos quartéis.

Pentágono anuncia saída relâmpago e evita explicações

O anúncio parte do próprio Pentágono, em comunicado seco publicado na rede X pelo porta-voz Sean Parnell. Ele informa apenas que Phelan “deixa o governo com efeito imediato” e que o subsecretário Hung Cao assume o comando da Marinha de forma interina. Não há, até o momento, explicação oficial para a mudança, feita a menos de cinco meses do fim do ano fiscal e em meio a debates sobre orçamento de defesa.

A troca ocorre em um ambiente já tenso entre a Casa Branca e o alto comando militar. No início de abril, Trump demite o general Randy George, um dos oficiais mais graduados do Exército, junto com outros dois generais de alta patente. Desde que retorna ao poder, em janeiro de 2025, o presidente demite o chefe do Estado-Maior Conjunto, general Charles Brown, e promove uma série de mudanças que desmontam, em pouco mais de um ano, parte relevante da cúpula fardada construída nas últimas administrações.

Expurgo atinge generais, almirantes e órgãos de inteligência

O movimento presidido por Trump não se limita à Marinha. Ao longo de 2025 e do início de 2026, caem os chefes da própria Marinha e da Guarda Costeira, o general que dirige a Agência de Segurança Nacional (NSA), o vice-comandante da Força Aérea, um almirante escalado para representar os Estados Unidos na Otan e três advogados militares de alto escalão. Em paralelo, o chefe do Estado-Maior da Força Aérea anuncia aposentadoria antecipada, após cumprir apenas dois dos quatro anos de mandato, e o comandante do Comando Sul deixa o posto um ano depois de assumir.

Os casos se somam à determinação do secretário de Defesa, Pete Hegseth, de cortar pelo menos 20% dos generais e almirantes de quatro estrelas na ativa. Na prática, o topo da hierarquia militar passa por uma reconfiguração acelerada, com substituição de quadros formados ao longo de décadas. Hegseth, alinhado ao presidente, reforça em declarações públicas que “Trump escolhe quem deseja para os cargos” e que o comandante em chefe tem “plena autoridade” para montar sua equipe.

Acusações de politização e risco à neutralidade das Forças

Democratas no Congresso e parte da comunidade de segurança nacional veem no movimento mais do que uma simples troca de nomes. Para esse grupo, as demissões sucessivas corroem um dos pilares da instituição militar americana: a neutralidade política. Parlamentares de oposição falam em “purga ideológica” na cúpula das Forças Armadas e alertam para o impacto na cadeia de comando, responsável por executar decisões de guerra, gerir arsenais nucleares e operar bases em mais de 70 países.

Analistas lembram que a relação entre Trump e os militares já enfrenta choques no primeiro mandato, quando o então presidente entra em conflito público com o Pentágono sobre o emprego de tropas em protestos internos e a condução de operações no Oriente Médio. Agora, o expurgo ganha escala institucional. “Quando se retira, em tão pouco tempo, chefes de Estado-Maior, comandantes de forças e responsáveis por inteligência, a continuidade estratégica fica em risco”, avalia, sob reserva, um ex-oficial de alto escalão ouvido pela reportagem.

Impacto na cadeia de comando e nas alianças externas

A nomeação interina de Hung Cao, sem cronograma público para escolha de um titular definitivo, aumenta a sensação de interinidade na cúpula militar. Comandantes regionais e aliados estrangeiros passam a lidar com interlocutores que podem ser trocados a qualquer momento, em um sistema que tradicionalmente preza por estabilidade em mandatos de três a quatro anos. A rotatividade atinge diretamente a Marinha, responsável por manter grupos de porta-aviões no Golfo Pérsico, no Pacífico e no Atlântico, além de frotas que patrulham rotas comerciais estratégicas.

Almirantes europeus e asiáticos acompanham de perto os movimentos de Washington, sobretudo em meio a crises sucessivas envolvendo Irã, Rússia e China. Em alianças como a Otan, mudanças na representação americana costumam ser discutidas com meses de antecedência. Desta vez, a demissão de um almirante designado para a organização ocorre sem aviso público, ampliando dúvidas sobre a previsibilidade da política de defesa dos Estados Unidos.

Trump reforça discurso de controle absoluto sobre os militares

Enquanto democratas falam em politização, Trump e seus aliados apostam na narrativa de “limpeza” da burocracia militar. Hegseth insiste que o presidente apenas exerce a autoridade que a Constituição lhe concede. “O comandante em chefe tem o dever de cercar-se de pessoas em quem confia”, repete o secretário de Defesa, em declarações recentes. O argumento encontra eco em parte da base trumpista, que desconfia de generais formados durante os governos de Barack Obama e Joe Biden.

Críticos apontam o risco de ruptura da tradição de distância entre quartéis e disputas partidárias. A cúpula militar americana costuma evitar manifestações públicas sobre eleições e preferências políticas. Nos últimos anos, porém, generais ativos e da reserva são empurrados para o centro do debate, ora como alvos de ataques da Casa Branca, ora como símbolos de resistência institucional. A linha que separa lealdade ao presidente e lealdade à Constituição fica mais fina a cada demissão.

Um tabuleiro em movimento e dúvidas sobre o futuro

A saída de John Phelan, somada à demissão de Randy George e de outros oficiais, consolida um novo desenho no topo das Forças Armadas pouco mais de um ano após o retorno de Trump à Casa Branca. Em números, a ordem de reduzir em pelo menos 20% o grupo de generais e almirantes de quatro estrelas, aliada à substituição em série de postos-chave, cria uma geração de comandantes diretamente associada ao atual presidente.

No curto prazo, a prioridade é manter a operacionalidade das tropas e a confiança dos aliados, em meio a crises regionais e disputas estratégicas com rivais como China e Rússia. No médio prazo, a principal questão é outra: quanto da atual reconfiguração será revertido por futuros governos e quanto se tornará parte permanente da nova normalidade militar americana. No Pentágono, a pergunta que circula em conversas reservadas já não é quem será o próximo a cair, mas até onde o expurgo de Trump pode ir.

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