Nova gestora admite erro de até R$ 100 mi em contas da Neo Química Arena
A Asarock Asset Management admite em 2026 um erro contábil entre R$ 80 milhões e R$ 100 milhões que distorceu por anos os balanços do Arena FII, fundo dono da Neo Química Arena, estádio do Corinthians em São Paulo. O ajuste envolve receitas de bilheteria que nunca entraram no caixa, mas apareciam como dinheiro a receber. A correção reabre o passado do fundo e redesenha o futuro financeiro do estádio.
Erro se arrasta por quase uma década
O reconhecimento do problema vem após uma devassa nas contas do fundo imobiliário que sustenta o estádio corintiano, inaugurado em 2014, em Itaquera. Relatórios e demonstrações financeiras mostram que, ano após ano, o Arena Fundo de Investimento Imobiliário registra receitas operacionais como “direitos a receber” do Corinthians, sem que houvesse a entrada efetiva desses recursos.
O CEO da Asarock, Gabriel Pupo, afirma que o erro nasce antes da chegada da gestora atual e atravessa diferentes administrações. Primeiro sob responsabilidade da BRL Trust, depois sob a gestão da Reag, alvo do escândalo do Banco Master, os números se acumulam e ganham corpo até alcançar quase R$ 100 milhões em 2022 e 2023. “Era algo em torno de 80 e poucos milhões. E que não existia. Não teve essa entrada de recurso. Foi um lançamento contábil errado”, diz.
Os balanços de 2016, 2017 e 2018 já exibem essa distorção. Em 2017, as contas a receber somam R$ 36,5 milhões. Em 2018, o valor registrado chega a R$ 28,3 milhões vinculados à operação da arena. Os montantes seguem crescendo ao longo dos anos seguintes até atingir R$ 99,54 milhões em 31 de dezembro de 2022 e R$ 99,56 milhões em 2023, equivalentes a cerca de 13% do ativo total do fundo.
Auditores independentes se deparam com o mesmo impasse em série. Eles pedem confirmações externas, tentam rastrear extratos bancários, buscam conciliações. Não encontram o dinheiro. “O auditor olhava, pedia extrato e o dinheiro não estava lá. Era uma diferença significativa”, relata Pupo. A partir desse ponto, as demonstrações passam a carregar ressalvas e, em alguns casos, abstenções de opinião, um selo de desconfiança sobre a contabilidade do fundo.
Bilheteria no papel, caixa vazio
No centro do problema estão receitas de bilheteria e fluxos da operação do estádio lançados como créditos a receber pelo fundo, mesmo sem comprovação de ingresso. A distorção ganha força após a reestruturação da dívida com a Caixa Econômica Federal, quando há mudança na destinação dos fluxos financeiros ligados à arena. O dinheiro que, na prática, não entra no Arena FII continua registrado como se fosse chegar em algum momento.
A pandemia de covid-19 expõe o descompasso de forma mais aguda. Com portões fechados, receitas comprimidas e pressão sobre o caixa, a conciliação entre o que está em campo e o que está nos livros fica mais difícil de justificar. Os auditores registram em relatório de 2022 que não conseguem obter confirmações externas dos quase R$ 100 milhões em contas a receber do Corinthians e relatam que procedimentos adicionais não surtem efeito. A incerteza contamina todo o balanço.
O impasse não é apenas técnico. As ressalvas empurram o fundo para uma zona cinzenta de governança, com impacto direto na capacidade de atrair capital e negociar novos sócios. “Não dá para buscar um sócio ou investidor com balanço sujo. Com auditor dizendo que tem algo errado ali”, admite o CEO da Asarock. As dúvidas se somam à liquidação da Reag, antiga administradora, que paralisa operações e deixa o Arena FII temporariamente inoperante no início de 2025.
Enquanto isso, o Corinthians precisa garantir o funcionamento da casa. O clube antecipa recursos para manter a arena em atividade, com a promessa de reembolso posterior pelo fundo. A confusão contábil aumenta a sensação de interinidade em um ativo que deveria ser um dos pilares financeiros do clube desde a inauguração, há mais de uma década.
Baixa contábil limpa balanço e abre disputa por futuro
A virada ocorre quando gestor, Corinthians, administrador e auditor chegam a um consenso: os lançamentos são indevidos e precisam sair dos livros. Depois da entrevista de Pupo, a Asarock informa que a queda abrupta de aproximadamente R$ 100 milhões nas contas a receber, entre outubro e novembro de 2025, resulta exatamente dessa baixa contábil. Com a comprovação de que os recursos não ingressam no fundo, as receitas deixam de existir também no papel.
O ajuste exige reprocessar exercícios anteriores. As demonstrações de 2023, 2024 e 2025 entram novamente em pauta, agora sob a responsabilidade do liquidante nomeado pelo Banco Central para a antiga administradora. Cabe a ele formalizar as correções e entregar, nas palavras de Pupo, “as DFs limpas”. “Existe um compromisso do liquidante de nos entregar as DFs limpas. Isso está em ata”, afirma.
O CEO da Asarock diz não ver contaminação do fundo da Neo Química Arena pelo esquema investigado no caso Banco Master, apesar da presença da Reag na história. “De fato, nada aponta que haja qualquer contaminação. Não entrou em nenhuma investigação. Esse fundo sempre rodou limpo. Os fundos contaminados foram os que receberam aportes. Às vezes desavisados, recebiam dinheiro sujo ou sabiam. No clube nunca entrou um centavo da Reag”, sustenta.
Com a baixa dos créditos inexistentes, o balanço do fundo encolhe, mas ganha algo mais valioso no mercado financeiro: credibilidade. A expectativa da gestão é apresentar o exercício de 2026 sem ressalvas, com auditoria plena e contas reconciliadas. O plano inclui a publicação regular de informações em um portal de transparência e a oferta de esclarecimentos adicionais a cotistas e interessados.
Arena em busca de previsibilidade
O acerto de quase R$ 100 milhões não resolve sozinho o desafio financeiro da Neo Química Arena, mas remove um obstáculo central. Sem o ruído das ressalvas contábeis, o fundo volta a discutir o futuro do estádio em uma base mais estável, com horizonte para eventuais novos investidores, parcerias comerciais ou reestruturações adicionais da dívida.
A Asarock evita detalhar quais movimentos estratégicos coloca na mesa, mas indica que o ciclo seguinte será de previsibilidade, não de apagamento de incêndios. Para o Corinthians, a regularização das contas reduz riscos de surpresa em um ativo decisivo para a saúde financeira do clube. Para o mercado, o caso funciona como alerta sobre a qualidade das demonstrações em fundos imobiliários ligados a arenas esportivas.
O fundo que nasce para ser vitrine de modernidade passa anos com dinheiro que só existe nos balanços. A correção agora pretende alinhar o papel ao caixa e a contabilidade ao que de fato entra pela catraca. O próximo balanço sem ressalvas dirá se a Neo Química Arena, mais de dez anos após a inauguração, enfim encontra um modelo financeiro tão sólido quanto o concreto das arquibancadas.
