PF prende MC Ryan SP, Poze do Rodo e dono da Choquei em operação bilionária
A Polícia Federal prende nesta quarta-feira (15) os funkeiros MC Ryan SP, MC Poze do Rodo e Raphael Sousa, dono da página Choquei, em operação contra lavagem de dinheiro ligada ao crime organizado. A ação, batizada de Narco Fluxo, mira um esquema que movimenta mais de R$ 1,6 bilhão em dois anos e usa artistas e influenciadores como fachada para recursos ilícitos.
Operação mira uso de fama como fachada para o crime
As equipes da PF e da Força Integrada de Combate ao Crime Organizado, que reúne Polícia Federal e Polícia Militar de São Paulo, cumprem 39 mandados de prisão temporária e 45 de busca e apreensão em nove estados e no Distrito Federal. A maior parte das diligências se concentra na região metropolitana de São Paulo, onde os investigadores situam o núcleo financeiro do esquema, apontado como ligado ao Primeiro Comando da Capital (PCC).
O alvo central da ofensiva é uma rede que transforma shows, rifas digitais, apostas ilegais e contratos de publicidade em escudo para dinheiro de tráfico de drogas e outros crimes. O modelo descrito nos autos combina vendas de ingressos e produtos, uso de criptomoedas, circulação de grandes quantias em espécie e interposição de familiares e laranjas para mascarar os verdadeiros donos dos valores.
Segundo as investigações, artistas e influenciadores funcionam como uma espécie de selo de confiança desse sistema. A visibilidade pública e o engajamento nas redes sociais ajudam a dar aparência de normalidade a transações milionárias, o que dificulta alertas de instituições financeiras e órgãos de controle. A PF afirma que o esquema movimenta mais de R$ 1,6 bilhão em apenas dois anos.
Durante as buscas, agentes apreendem veículos de luxo, armas, joias, relógios, dinheiro em espécie, documentos e equipamentos eletrônicos. Entre os carros recolhidos, há modelos como Amarok V6, BMW X1 e Porsche, avaliados em cerca de R$ 20 milhões. A Justiça determina ainda o bloqueio de contas bancárias e o sequestro de bens dos investigados, que podem responder por associação criminosa, lavagem de dinheiro e evasão de divisas.
De shows e redes sociais ao núcleo financeiro do PCC
As apurações da Narco Fluxo nascem como desdobramento da Operação Narco Bet, que já investigava o uso de plataformas de apostas para lavar dinheiro do tráfico. O novo foco recai sobre a engrenagem que opera dentro da indústria do entretenimento, com empresários, produtores, operadores financeiros e figuras públicas.
Um dos personagens citados é Frank Magrini, apontado como operador financeiro ligado ao PCC e com antecedentes por tráfico de drogas e roubos a bancos. De acordo com os investigadores, ele financia o início da carreira de MC Ryan SP em 2014 e mantém vínculos com empresas que pagam mensalidades à facção. Os inquéritos descrevem um fluxo de recursos que parte de atividades como tráfico e apostas ilegais, passa por contratos de shows e publicidade e retorna, já “limpo”, para contas controladas pelo grupo.
MC Ryan SP, nascido em 2001 e dono de hits como “Revoada Sem Você”, “Favela” e “Tubarão Te Amo”, surge nos autos como peça central dessa vitrine. A PF aponta que sua projeção rápida, com cachês altos e agenda intensa, ajuda a justificar a entrada de grandes valores no sistema formal. O funkeiro já se envolve em outras polêmicas recentes: é levado à PF em 2024 por restrições na documentação de uma Ferrari, é filmado agredindo a ex-namorada e recebe multa de R$ 1 milhão em 2025 após manobras com carros em um campo de futebol em Piracicaba.
MC Poze do Rodo, um dos nomes mais conhecidos do chamado funk proibidão, é preso em casa, no Recreio dos Bandeirantes, zona oeste do Rio. Autor de sucessos como “Tô Voando Alto”, Poze já é alvo de investigações por suposta apologia ao crime e citações ao Comando Vermelho em suas letras. Ele responde a um processo por tráfico de drogas em Mato Grosso, ligado a uma prisão de 2019, e passa por outra detenção em 2025, também sob suspeita de vínculo com a facção.
No campo digital, a PF mira Raphael Sousa Oliveira, criador da página de fofocas Choquei, que reúne mais de 27 milhões de seguidores no perfil principal e ultrapassa 30 milhões somando contas reservas e pessoais. Preso em Goiânia, ele é descrito nos autos como peça importante para dar aparência comercial ao fluxo milionário do crime. Aos investigadores, Raphael afirma faturar cerca de R$ 400 mil por mês de forma lícita com publicidade e nega qualquer envolvimento com o PCC. Após o interrogatório, ele é transferido para um presídio na capital goiana.
Defesas reagem e operação pressiona mercado do entretenimento
As prisões de artistas com grande alcance entre jovens aceleram o debate sobre responsabilidade de figuras públicas na circulação de dinheiro de origem suspeita. Especialistas em lavagem de dinheiro apontam que o setor de shows, eventos e influenciadores digitais se torna atraente para o crime por lidar com caixa intenso, contratos pouco transparentes e pagamentos fragmentados, o que dificulta a fiscalização.
As defesas correm para conter danos de imagem e jurídicos. A equipe de MC Ryan SP afirma, em nota, que ainda não tem acesso ao inquérito, que corre sob sigilo, e sustenta que todas as transações do artista são lícitas. “Todos os valores que transitam por suas contas possuem origem devidamente comprovada, sendo submetidos a rigoroso controle e ao regular recolhimento de tributos”, diz o texto. Os advogados dizem confiar que a “verdade dos fatos” será demonstrada no curso da investigação.
A defesa de MC Poze do Rodo informa que aguarda acesso aos autos e pretende pedir a liberdade do cantor. Os advogados não comentam detalhes, sob o argumento de que ainda não conhecem integralmente as acusações. Já o advogado de Raphael Sousa declara que o influenciador apenas comercializa espaço publicitário em suas redes, atividade que classifica como “lícita e regularmente exercida há anos”. “Raphael não integra organização criminosa, não participou de qualquer esquema ilícito e jamais exerceu função diversa da veiculação publicitária contratada”, afirma.
A ofensiva da Narco Fluxo pressiona também empresas, casas de shows, plataformas digitais e patrocinadores que orbitam artistas investigados. Bancos e intermediários de pagamento devem reforçar mecanismos de monitoramento de transações suspeitas, diante do recado enviado por uma operação que aponta para mais de R$ 1,6 bilhão suspeitos num intervalo de dois anos.
Investigação em curso e espaço para novas fases
A PF mantém o inquérito sob sigilo e não descarta novas prisões e quebras de sigilo bancário e fiscal. Os investigadores trabalham para rastrear o caminho do dinheiro apreendido, cruzar dados com operações anteriores e identificar empresas e pessoas físicas que atuam como fachada para a facção. A expectativa é de que a análise de celulares, computadores e documentos recolhidos revele novos vínculos entre o crime organizado e o mercado do entretenimento.
Os 39 mandados de prisão temporária e os 45 de busca e apreensão são apenas o recorte visível de uma investigação que já atravessa ao menos duas operações e alcança nove estados e o Distrito Federal. A forma como o sistema de Justiça vai lidar com a participação de celebridades e influenciadores em esquemas financeiros, seja como protagonistas ou como peças de um tabuleiro maior, tende a definir os próximos movimentos do crime organizado e o nível de exposição de quem empresta sua imagem para negócios milionários.
