Papa Leão XIV visita casa para idosos na Argélia e prega fraternidade
O papa Leão XIV visita nesta terça-feira (14) a Casa de acolhimento das Pequenas Irmãs dos Pobres, em Annaba, na Argélia, e transforma um encontro discreto com cerca de 40 idosos em palco para um apelo direto por fraternidade e paz entre religiões. Em meio a um mundo marcado por guerras e injustiças, o pontífice afirma que “onde há amor e serviço, aí está Deus” e aponta a convivência cotidiana entre cristãos e muçulmanos como sinal concreto de esperança.
Um refúgio na colina de Annaba em tempos de guerra
A visita é o segundo compromisso oficial de Leão XIV em Annaba, poucas horas depois de percorrer o sítio arqueológico da antiga Hipona, cidade de Santo Agostinho. Da basílica erguida em memória do bispo e pensador do século 4, o Papa desce a colina de Lala Bouna e atravessa o pequeno portão da instituição que, desde meados do século 20, acolhe idosos pobres, muitos deles sem família.
O prédio simples, mantido em grande parte por doações de moradores da região, abriga hoje cerca de 40 hóspedes, homens e mulheres. A maioria é muçulmana. O complexo reúne uma capela católica, uma pequena mesquita e áreas comuns de convivência. No mesmo corredor em que se reza o terço, muçulmanos se voltam para Meca em silêncio, num arranjo que, em outros lugares, ainda parece distante.
Leão XIV é recebido à porta pela superiora da comunidade, irmã Philomena Peter, uma das cinco religiosas que conduzem o dia a dia da casa com apoio de funcionários e voluntários. Dentro do salão principal, decorado com flores e bandeiras argelinas, residentes aguardam em cadeiras de rodas ou bengalas, lado a lado com colaboradores e religiosas.
Um canto de boas-vindas quebra a formalidade e dá o tom íntimo da cerimônia. Em seguida, a superiora relata a rotina de cuidados, o ex-arcebispo de Argel, dom Paul Desfarges, fala sobre o papel da Igreja na Argélia, e um residente muçulmano, o senhor Salah Bouchemel, conta como encontrou abrigo ali depois de perder vínculos familiares e recursos.
O testemunho comove o Papa, que responde em tom espontâneo. Ele chama a fala de Salah de “linda e consoladora” e amplia o olhar para fora das paredes da instituição. “Creio que o Senhor, do Céu, ao ver uma casa como esta, onde se procura viver juntos em fraternidade, poderá pensar: afinal, há esperança!”, afirma.
Fraternidade concreta em meio à violência global
A mensagem ganha peso porque ecoa em um cenário de multiplicação de conflitos. Em 2026, mais de uma dezena de guerras ativas desloca milhões de pessoas e pressiona minorias religiosas em diferentes continentes. Sem citar países, Leão XIV descreve um Deus ferido pela violência do presente. “O coração de Deus está destroçado pelas guerras, pela violência, pelas injustiças e pelas mentiras”, diz. A plateia se mantém em silêncio, alguns com olhos marejados.
O Papa faz questão de se afastar de qualquer leitura de fé associada ao poder. “O coração do nosso Pai não está com os malvados, com os prepotentes, com os soberbos”, afirma, para em seguida apontar outro lado. “O coração de Deus está com os pequenos e os humildes.” Ao destacar os anônimos daquela casa no alto da colina, o pontífice reposiciona o centro da narrativa religiosa: não em cúpulas ou palácios, mas em espaços onde o cuidado com o frágil é prioridade diária.
A escolha da Casa das Pequenas Irmãs dos Pobres como parada oficial não é casual. Nos últimos anos, o Vaticano tenta reforçar uma diplomacia da proximidade, que privilegia encontros com refugiados, pessoas em situação de rua e instituições que acolhem os mais velhos. A obra em Annaba, sustentada pela solidariedade local e por um orçamento enxuto, encaixa-se nesse desenho.
Na Argélia, país de maioria muçulmana, a presença de uma casa católica que abriga, majoritariamente, idosos muçulmanos funciona como laboratório de convivência. A mesquita interna evita que residentes precisem sair para suas orações diárias; a capela garante espaço para a liturgia cristã. A rotina força o diálogo na prática: é preciso coordenar horários de culto, refeições, cuidados médicos e visitas de familiares de diferentes crenças.
Ao lembrar que o Reino de Deus “avança dia após dia” em gestos simples, como o serviço aos idosos e a amizade entre vizinhos, Leão XIV oferece uma alternativa concreta ao discurso religioso de confronto. Não fala em grandes planos de paz nem em tratados, mas em pequenas escolhas diárias. “Ele faz avançar o seu Reino de amor e de paz, dia após dia”, reforça, apontando para as religiosas, para os funcionários argelinos e para os idosos que o escutam.
A visita também tem efeito interno. Dá visibilidade a uma congregação discreta, presente em dezenas de países e dedicada quase exclusivamente a idosos pobres. Para a instituição, o gesto pode significar novos doadores, mais voluntários e atenção de autoridades locais para a situação de pessoas com mais de 70 anos que vivem sem renda estável ou rede familiar.
Exemplo para além da colina e próximos passos
Nos minutos finais, depois da troca de presentes e de um canto conclusivo, o Papa abandona o púlpito e percorre o salão lentamente, cumprimentando um a um os idosos. Aperta mãos, ouve frases em árabe e em francês, recebe pedidos de oração. A cena, que dura pouco mais de 20 minutos, concentra a mensagem que ele repete desde o início do pontificado: o cuidado com os últimos não é gesto opcional, mas eixo da fé.
Para além das paredes da casa, o impacto tende a se desdobrar em duas frentes. Em nível local, a visita reforça pontes entre a pequena comunidade católica argelina e a maioria muçulmana, num país que ainda traz na memória a guerra civil dos anos 1990 e as tensões ligadas ao extremismo. Em escala global, o discurso em Annaba se soma a outras intervenções de Leão XIV que cobram de líderes políticos uma revisão das prioridades em contextos de conflito.
O gesto também lança perguntas incômodas a governos e comunidades religiosas em outras regiões. Se uma casa simples no alto de uma colina consegue abrigar muçulmanos e cristãos sob o mesmo teto, com pouco mais que doações locais e trabalho voluntário, o que impede estruturas mais ricas de adotar modelos semelhantes de convivência? Como transformar em política pública aquilo que hoje depende de iniciativas isoladas?
O Vaticano evita falar em novos documentos ou planos imediatos após a passagem por Annaba, mas assessores próximos indicam que a experiência das Pequenas Irmãs dos Pobres deve entrar no repertório de exemplos citados em futuros discursos sobre diálogo inter-religioso. A casa na colina argelina pode se tornar, nos próximos meses, referência para parcerias entre dioceses, comunidades islâmicas e organizações civis em regiões marcadas pela violência.
Enquanto o comboio papal deixa Lala Bouna em direção ao próximo compromisso, a rotina volta ao normal. O almoço é servido, a mesquita se prepara para a oração seguinte, a campainha da capela toca discreta. Entre guerras que seguem sem solução e negociações de paz que patinam, permanece a pergunta sugerida pelo Papa diante dos idosos argelinos: quantas casas como essa o mundo está disposto a construir?
